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COP-25: O clima é morno para um planeta que queima

Pedro Borges, jornalista do Coletivo de Mídia Alma Preta - Solon Neto/Alma Preta
Pedro Borges, jornalista do Coletivo de Mídia Alma Preta Imagem: Solon Neto/Alma Preta

Pedro Borges*

13/12/2019 04h00

Acabo de voltar da COP-25, em Madri, na Espanha. As dimensões do evento impressionam. Mesmo com a mudança repentina do Chile para a Espanha, o que poderia levar ao esvaziamento do encontro, me deparei com uma COP cheia, com diversos pavilhões e pessoas de todas as partes do mundo.

As pessoas, contudo, eram representantes de Estados nacionais. A presença de membros de movimentos sociais fez muita falta.

A alteração do Chile para a Espanha foi muito sentida por todos os latino-americanos, em especial a sociedade civil. A mudança gerou um esvaziamento na participação de diversos movimentos sociais importantes para a defesa do clima. No encontro, por exemplo, esteve presente apenas uma representante quilombola brasileira, Lucely Moraes, coordenadora da Articulação Pacari de Plantas Medicinais.

Senti também a ausência de maior presença dos indígenas. Existia uma articulação por parte dos movimentos sociais do Brasil para levar mais de 40 pessoas para o Chile. Os custos de Madri obrigaram o número a ser reduzido para 20.

Sem indígenas, quilombolas e outros movimentos sociais, a temperatura da COP ficou morna. A presença da sociedade civil e movimentos sociais é fundamental para pressionar pelas mudanças necessárias em meio ao lento processo de negociação entre líderes de Estado.

A dificuldade do avanço se opõe ao slogan da COP-25 "Hora de mudança", que aponta para a necessidade das mudanças serem feitas agora. Afinal, se antes a Ciência apontava impactos drásticos de mudanças climáticas em 2100, agora já se fala em alterações severas em 2050.

A lentidão motiva dúvidas sobre resultados efetivos do encontro. O debate sobre o Artigo 6 do Acordo de Paris é um desses aspectos. O ponto tenta regulamentar os mercados de carbono no mundo e tem o objetivo reduzir as emissões de gás de efeito estufa na atmosfera.

O mercado de carbono funciona como outro qualquer. Os países precisam bater metas de redução de emissão de gases e quem não bateu compra de quem ultrapassou. Há, contudo, uma expectativa de que as regras mudem para que se estimule a queda na emissão de gases por todos. Uma solução seria os países com "crédito" em gases precisarem ter uma emissão muito menor do que a atual para conseguirem "vender" suas reservas para outros países.

Outro fator essencial é o maior compromisso para a redução de gases emitidos por combustíveis fósseis, algo mais sensível para os países desenvolvidos, os históricos poluidores do globo.

O Clima sob julgo do mercado? O mercado nos trouxe à emergência climática. É ele que vai no salvar?

As dinâmicas do encontro estão pautadas nos termos do mercado. A COP, em muitos momentos, é mais um debate sobre desenvolvimento econômico sustentável do que sobre meio-ambiente. E todas as mudanças só são aceitas se estiverem de acordo com o mercado.

Isso me chamou muita atenção. O sistema capitalista e a sociedade pautada no mercado se transformaram em condições quase naturais da existência humana. Em poucos momentos ouvi uma crítica ao modelo em que estamos inseridos.

Em determinada medida, a cobertura da mídia colabora para essa percepção, que em alguns casos parece até inocente. Acredita-se que determinadas medidas não avançam porque "essas pessoas são muito más".

A discussão sai do plano político e se aloca no campo moral. "Essas pessoas" podem ser bacanas e queridas com suas famílias. O problema é que operam para a manutenção do capital, sistema com uma ganância para acumular e destruir o que estiver na frente para atingir esses objetivos.

A provável ineficácia ou pouco avanço de um acordo feito entre Estados também se dá pela limitação de poder que os Estados nação têm hoje diante do capital financeiro. Uma ameaça de retirada de recursos de uma bolsa de valores é o sinônimo de um desastre econômico para um país. Com esse cenário, quem toparia esse enfrentamento?

O capital é uma máquina que só vai parar de girar quando não existir mais possibilidade de mudança e quando os povos assumirem um compromisso de se construir um novo modelo econômico e social.

Enquanto jornalista, trata-se de uma experiência importante, de entender como funcionam os mecanismos internacionais. O grande aprendizado é a importância de compreender as mudanças climáticas como uma pauta central para o debate político e a compreensão de que os impactos dessas alterações sobre a comunidade africana e afrodescente são terríveis.

Eu, contudo, não me impressiono. Optei pelo jornalismo porque acredito na informação como possibilidade de transformação social e de formular a experiência na terra mais digna para todos.

O mundo precisará de muito mais do que a COP-25, do que os líderes de Estado e o mercado têm se disposto a apresentar para o planeta. Sem os movimentos sociais, sem pressão popular, teremos de lidar com impactos severos de um globo que aumenta a temperatura e cujos desdobramentos serão sentidos em primeiro lugar pelos povos mais vulneráveis. Mas não se enganem, a conta chegará para todos.

*Pedro Borges é co-fundador e editor chefe do Alma Preta. Jornalista formado pela UNESP, compõe a Rede de Jornalistas das Periferias, é conselheiro da Agência Mural, colunista da Mídia Ninja e do Do Lado de Cá. Também compõe a Coalizão Negra por Direitos.

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