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Para ajudar a Amazônia

Marina Silva é historiadora, professora, psicopedagoga, ambientalista e política brasileira - Lucas Lima/UOL
Marina Silva é historiadora, professora, psicopedagoga, ambientalista e política brasileira Imagem: Lucas Lima/UOL

Marina Silva

27/11/2019 04h00

Tanto se fala da importância da Amazônia que se tornou comum chamá-la de "pulmão do mundo". Mas, na verdade, ela é um gigantesco, complexo e delicado sistema de vida que abriga a mais rica biodiversidade do planeta e guarda o impressionante estoque de 100 bilhões de toneladas de carbono (cerca de uma década de emissões globais). Destruí-la significa, dentre outras coisas, exterminar incontáveis seres vivos e lançar na atmosfera esse carbono na forma de CO2 com implicações gravíssimas para a vida no planeta.

Não faltam razões éticas, econômicas e sociais para preservar a Amazônia. Mas, para os países que a têm em suas fronteiras — especialmente o Brasil, que tem nela 60% de seu território —, há algo essencial à vida, valioso demais para ser negligenciado: água. Segundo o documento "Marcos Científicos para Salvar a Amazônia", apresentado no Sínodo da Amazônia pelo Dr. Carlos Nobre, em nome de um grupo de grandes cientistas, "cerca de 70% do PIB da América do Sul deriva da zona de influência da chuva produzida pela Amazônia".

Quem não se rende às razões do coração deve ceder aos apelos da razão científica e do bom senso: a economia depende da Amazônia preservada. Os serviços ecológicos de suas florestas fornecem insumos tangíveis e intangíveis para tornar o Brasil uma potência energética, agrícola e cultural. Mas o desconhecimento ou desprezo por essa realidade mantém um modelo político e econômico que promove uma tripla destruição: da floresta e seus povos originários, das bases naturais do desenvolvimento e do equilíbrio ecológico que assegura a continuidade da vida na Terra.

Temos que substituir o modelo vigente, de uso predatório dos recursos da Amazônia, por um modelo de conservação orientado pela ciência e inspirado nos conhecimentos tradicionais de seus povos originários. Devemos ter senso de urgência, diante da ameaça de etnocídio e de caos ambiental contida na visão dos governos e empresas que tratam a floresta como inimiga do desenvolvimento.

O Brasil sabe o que fazer. Conhecimentos acumulados em três décadas de políticas públicas e ações da sociedade estão à disposição dos governos e empresas. Podemos dividir em três grupos esse acervo de propostas e experiências, algumas já testadas e bem-sucedidas:

1. Ações de comando e controle para evitar ou punir grilagem de terras públicas, desmatamento e queimadas, mineração e exploração de madeira ilegais. Por exemplo, o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia, lançado em 2004, baseava-se num tripé: combate às práticas ilegais, ordenamento territorial/fundiário e apoio à produção sustentável. Obteve reconhecido sucesso ao reduzir em 83% o desmatamento na Amazônia brasileira de 2004 a 2012, mesmo em período de crescimento econômico.

2. Propostas estruturantes, de implementação em médio e longo prazos, para promover um modelo sustentável de desenvolvimento. Exemplos são o 'Plano Amazônia sustentável', de 2008, e o mais recente 'Amazônia 4.0', coordenado pelo Dr. Carlos Nobre, que visa à criação de uma bioeconomia com agregação de valor aos produtos da biodiversidade e com sistemas agroflorestais e agroindustriais de base comunitária, frutos da integração entre o conhecimento técnico-científico da biociência e os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas e locais.

3. Num terceiro grupo podemos reunir as ações que classifico como "de suporte", divididas em dois eixos complementares:

- O eixo das iniciativas que ajudam a fundamentar a tomada de decisões, avaliar e corrigir ações. Um bom exemplo é o recém-criado Painel Científico sobre a Amazônia, nos moldes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, lançado no dia 21 de setembro, na sede da ONU, em Nova York, que procura mapear os riscos de destruição e identificar ações e meios para preservar.

- O eixo das iniciativas que buscam viabilizar recursos humanos, técnicos e financeiros para projetos compatíveis com a preservação. São recursos essenciais na transição para um novo modelo, capaz de gerar um novo ciclo de prosperidade com preservação da floresta, proteção às populações indígenas e combate às iniquidades sociais. Esse é o eixo com maior dificuldade, basta ver a desproporção entre a dimensão dos problemas e a quantidade dos recursos para enfrentá-los.

Recentemente, tive a oportunidade de dialogar com Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz. Tratamos da recente crise ambiental na Amazônia e concluímos que nossa consciência do desastre não pode ficar hibernando após o fogo ser apagado pelas chuvas, aguardando ser despertada no próximo ano, quando um desastre ainda maior se anuncia na continuação da política antiambiental do atual governo. Mas o que fazer?

Falando aos jovens de um dos programas liderados pelo professor Yunus, sugeri criar uma espécie de Plano Marshall dos países da Amazônia, para financiar ações que possibilitem transitar para uma economia sustentável. Diferentemente do Plano Marshall, criado no pós-guerra pelos Estados Unidos para ajudar na restauração da Europa, o plano para evitar a destruição da Amazônia se originaria, de forma independente, na própria região. Seus nove países reuniriam os recursos iniciais, de doações voluntárias, sem recusar aportes de pessoas e governos de outras regiões que concordassem com os objetivos e diretrizes por eles soberanamente estabelecidas. Esses recursos financiariam iniciativas da sociedade, empresas, instituições de pesquisa, a governança ambiental, o monitoramento, a gestão de áreas protegidas e terras indígenas.

Criaríamos, assim, mais um instrumento de proteção da maior floresta tropical do mundo. Seria efetivo, garantindo recursos financeiros, e inteiramente democrático, pela participação voluntária. E com rigoroso sistema de compliance, auditorias independentes e informações acessíveis a todos os doadores e à sociedade em geral.

Existem milhões de pessoas dispostas a ajudar no esforço para passar das ideias à prática. As populações dos países amazônicos saberão aproveitar a ajuda com inteligência e sabedoria. E a humanidade inteira — especialmente as futuras gerações — ganhará o imenso benefício de uma Amazônia sustentável: economicamente próspera, socialmente justa, culturalmente diversa, politicamente democrática e ambientalmente preservada.

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