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Sobre óleo, mobilização e qualquer coisa que o valha...

Carolina Pires integrou o primeiro ciclo de curadores de Ecoa - Arquivo Pessoal
Carolina Pires integrou o primeiro ciclo de curadores de Ecoa Imagem: Arquivo Pessoal

Carolina Pires*

Curadora de Ecoa

15/11/2019 04h00

Há pouco menos de cinco meses eu me mudei de São Paulo para Recife (PE) e, apesar de ter vivido 34 anos na terra da garoa e toda minha rede de apoio estar por lá, nunca me senti tão em casa como aqui!

Calor, sambada de coco e praia, não podia ser melhor!

Apesar de ser um lugar com uma riqueza e beleza natural sem igual, o Nordeste segue sendo discriminado por boa parte da região sul do país. Eu brinco com uns amigos de São Paulo dizendo que até a gente, que veio de periferia, é mais privilegiado que o povo nordestino. Ainda mais esse ano, com o presidente fazendo declarações bastante preconceituosas com a região.

E, não bastasse toda essa ignorância, em agosto começou a onda óleo nas praias do Nordeste. Alerta aqui, denúncia ali, e o Poder Público inerte a todos os avisos e mostras. Em outubro o bicho pegou, as manchas aumentaram e começaram a atingir sem dó Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Um detalhe: em janeiro foi destituído o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo.

O litoral sul pernambucano foi devastado, começando pela região de Tamandaré, na Praia dos Carneiros, mas, trazendo uma lição de força de vontade - a comunidade local tirou da orla cerca de 20 toneladas do resíduo gosmento e pegajoso. Mas não parou, o óleo seguiu para Ipojuca, Maracaípe, Porto de Galinhas e Muro Alto, e foi subindo, até chegar nas praias de Cabo de Santo Agostinho, Suape, Itapuama, Pedra do Xaréu e Paiva.

Aí foi uma soma de união com comunidade local, coletivos ambientais e hotéis das regiões numa força tarefa insana para tentar conter a contaminação. Aqui em Pernambuco, a galera do perfil Salve Macaraípe assumiu a 'responsa', se juntou ao Xô Plástico, Recife sem Lixo, voluntários, comerciantes e hotéis. Todos deram um show de mobilização.

Em 20 de outubro, um domingo, me uni ao grupo, comprei EPIs (equipamentos de proteção individuais), peguei alguns EPIs úteis que temos no Pimp My Carroça e levei para compartilhar no mutirão. Chegamos em Muro Alto, onde a situação já estava controlada, na fase de peneirar a areia - sim, tem que peneirar para conseguir tirar a maior parte das partículas.

De lá veio o chamado urgente para irmos para Suape. Descolei uma carona com a Bruna, que toca o Manifesto Ambiental, e fui.

Aí a tristeza bateu! Era óleo demais, sacos e sacos cheios, espalhados por uns três quilômetros de uma ilha em Suape. Tinha um grupo da Marinha ajudando, mas todo mundo sem os EPIs necessários, indo na garra pegar na unha a gosma preta, de cheiro forte.

Como já estava escurecendo, e era domingo, não tinha embarcações para ajudar a tirar tudo da ilha, foi preciso deixar os sacos por lá, colocar o mais longe do mar possível, para evitar que a maré alta levasse de volta todo trabalho daquele domingo - que seria retirado na manhã de segunda.

Ao voltar para Suape, no barquinho, conversando com os voluntários, foi inevitável não chorar. Ainda mais com a notícia de que o óleo já estava chegando em mais duas praias: Itapuama e Pedra do Xaréu. Ainda encontrei o guia, morador e marinheiro localEdel Vandecio, inconformado - com toda a razão. Um vídeo dele viralizou nas redes sociais e ele foi até na Fátima Bernardes na semana seguinte, dizendo com a voz embargada que não podíamos parar de limpar tudo, mesmo que fosse noite e dia de trabalho, alertando pela contaminação da vida marítima.

Eu já não tinha mais forças e psicológico para ajudar. Só queria ir para minha casa, ficar em silêncio e pensar no que mais eu podia ajudar. A galera do Salve Maracaipe correu para Itapuama, junto com Estevão, do Onda Limpa, e toda comunidade para começar o mutirão de limpeza, mesmo na escuridão da noite. E com pedidos desesperados por ajuda!

No Fantástico, Ibama e Marinha falaram coisas que não condizem com a realidade, enquanto Ministro do Meio Ambiente estava arrumando intriga com o Greenpeace nas redes sociais - prioridade, né, mores?

É doloroso demais ver tudo isso. Sociedade civil conseguiu, em uma semana, coisas que o Governo Federal não fez em dez meses de mandato, mas segue dizendo que está fazendo a limpeza "com apoio de voluntários".

Não se sabe ainda a origem disso tudo. Pesquisadores de diversas universidades - as mesmas que Bolsonaro disse viver de balbúrdia - estão empenhados dia e noite para entender tudo: de onde vem, qual a causa, o que isso pode impactar na natureza, nas pessoas?

Já foram retirados do litoral nordestino mais de mil toneladas de óleo. Porém, o que já é certo é que essa contaminação vai ser nosso pesadelo por décadas, e ainda seguimos sem respostas.

E está muito longe de campanha eleitoral, mexeu no nosso quintal, na nossa vida, nos nossos animais. Se, ainda assim, achar que estamos no caminho certo, com arminha para cima, eu só desejo que o meteoro venha logo!

Em tempo, já somam dez estados, incluindo Espírito Santo, no Sudeste, com óleo na praia. Muito já foi limpo, mas ainda tem muito o que se fazer.

*Carolina Pires é jornalista formada pela Universidade de Santo Amaro (2005), pós-graduada em administração e Organização de Eventos pelo Centro Universitário Senac (2015), possui mais de 10 anos de experiência em comunicação institucional e assessoria de imprensa e amplo conhecimento em produção cultural. Fez parte do coletivo de arte urbana Imargem de 2014 a 2018, é coordenadora do Pimp My Carroça Recife, movimento que integra desde início de 2015 e que usa graffitti com a causa dos catadores de materiais recicláveis, e é uma das idealizadoras da Universidade Grajaú.

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