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Empreendedorismo social: segredos de sobrevivência que ninguém te contou

Ana Carolina Martins, diretora executiva da "A Visionária Lab" - Arquivo Pessoal
Ana Carolina Martins, diretora executiva da 'A Visionária Lab' Imagem: Arquivo Pessoal

Ana Carolina Martins

Da A Visionária Lab

16/10/2019 11h10

Prazer Ana! Eu sou uma mulher negra, nascida no Capão Redondo, criada por uma mãe solo, com apoio de uma organização social que atendia mais de 100 crianças das periferias da zona sul.

Muito cedo aprendi 2 coisas: eu precisava cooperar e precisava ter uma visão estratégica, tudo isso só para sobreviver.

Óbvio, que isso era muito subjetivo, a gente vive mais do que entende a vida.

Ao longo da minha trajetória, trabalhei em muitos lugares, de operadora de telemarketing a coordenadora de projetos.

Passei por inúmeras formações, cursos, programas de desenvolvimento. Conheci o setor de empreendedorismo social, e um portal se abriu. Mergulhei fundo, e nos últimos 5 anos fiquei dedicada a compreender o funcionamento deste campo.

Teci sonhos com diversos grupos, vi projetos nascerem, alguns poucos prosperarem e a maioria morrerem.

Foram muitas palestras inspiradoras ouvindo sobre o nosso impacto no mundo, sobre a possibilidade que cada um tem de mudar o mundo a partir de si.

Mas na maioria dos eventos, cursos, oficinas, tinha mais gente falando sobre suas ideias e pouca gente compartilhando experiências práticas e segredos de sobrevivência.

Trago aqui o que aprendi na prática como empreendedora social vindo de onde eu vim, sendo quem eu sou.

Primeiro, é preciso ter muita coragem, saúde mental e rede de apoio. Sem esses elementos combinados dificilmente você sobreviverá.

Empreender exige presença e coragem! Investir muito em conhecer você antes de qualquer pesquisa de mercado, é impossível propor transformação e fazer negócios prosperarem estando desconectada de sua verdade.

Propósito é o nome bonito para quando refletimos sobre o significado que queremos dar para nossa existência. Demorei quase 3 anos de muita pesquisa para compreender o papel que queria assumir e isso foi um processo doloroso de cura e aceitação.

Os cursos, aceleradoras, programas de apoio ao empreendedor vão te encher de ferramentas, tudo importado e formatado. Passei mais tempo fazendo coisas que me mandavam como canvas, design thinking, e pitchs matadores do que de fato dando vazão a minha criatividade e construindo meu negócio.

E é aqui que as coisas se complicam, para quem empreende a partir das periferias, sendo mulher, sendo negra, sendo LGBTQI+ estamos a todo tempo precisando nos provar, antes mesmo de falar sobre nossos negócios e projetos.

Então acabamos aprendendo o que é tendência, se desconectando dos nossos saberes apenas para reproduzir e ser uma cópia barata de algo que não terá muito valor na sua mão.

Inovação e empreendedorismo social, é um tecnologia criada por um campo hegemônico: branco, universitário, cheio de privilégios.

E acredito que exige de nós que estamos às margens desse sistema, uma contra narrativa com propostas estruturadas a partir das nossas vivências.

Nós, temos a capacidade de nos reinventar, de acolher o desconhecimento, de se permitir aprender com os erros e revisitar a nossa história como indivíduo, comunidade e nação.

E essa prática sistemática pode gerar muita inovação!

Desenhar o seu plano de ação, fazer um planejamento, aprender a aprender, saber fazer conta, construir missão, visão e valores verdadeiros, tudo isso é planejamento estratégico.

Toda iniciativa social seja ela de empreendedorismo ou um coletivo, deve ser capaz de apontar os resultados de longo prazo que deseja alcançar e as transformações sociais com as quais se compromete.

Porém, estratégia não é algo que se aprende na escola, e mesmo nas corporações e instituições este tipo de competência só é permitida para executivos, ou seja, quase ninguém tem a oportunidade de desenvolver essa visão.

Afinal, quem pode ser um visionário?

Aprendemos a sonhar, a desejar e acredito que chegou a hora de aprendermos a criar estratégias, colocar em prática nossa visão de mundo.

O mundo não foi feito para pessoas como eu, mas trabalhando juntas temos alguma chance de criar um mundo para nós.

Mas em nenhuma hipótese, podemos nos afastar das pessoas, da coletividade e daquilo que nos inspira a realizar a mudança que queremos.

Empreendemos para enfrentar crises! Que momento propício, não?

*Ana Carolina Martins, 31 anos, empreendedora social. Dirigiu o documentário Visionários da Quebrada e atualmente é Diretora Executiva da A Visionária Lab, um laboratório de conteúdo e conhecimento a partir da diversidade.

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