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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vem chegando as cotas de emprego para pessoas trans

Pessoas frequentam a 5ª Marcha do Orgulho Trans em São Paulo - REUTERS/Carla Carniel
Pessoas frequentam a 5ª Marcha do Orgulho Trans em São Paulo Imagem: REUTERS/Carla Carniel
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

27/06/2022 06h00

Cotas para pessoas trans estão se tornando uma realidade em alguns estados brasileiros. Já existiam em universidades, mas agora estamos falando em empregabilidade de cargos públicos.

E isso é algo gigante para a população trans.

Antes que você diga que não concorda com cotas, e aquela falácia de que existe meritocracia, que você não olha para as diferenças, e que todas as pessoas deveriam ser avaliadas pela sua própria competência, deixa eu já te avisar que essas cotas existirem ou não, não tem a ver com a sua opinião, e sim com os fatos.

Espernear não vai mudar nada. Inclusive, esperneando, talvez você ainda dê mais visibilidade e impulsione a pauta, e por isso, eu até te agradeço.

Desde que me deparei com um mercado de trabalho trans excludente, sempre que me perguntam o que mudaria este cenário, para além dos trabalhos que temos enquanto comunidade transcentrada (esse assunto fica pra próxima coluna), eu sempre respondi: eu defendo a criação de cotas para pessoas trans.

E vale a eu te explicar por qual motivo cotas para pessoas trans são importantes:

- apenas 5% das pessoas trans estão no mercado de trabalho formal;

- a expectativa de vida de pessoas trans é de apenas 35 anos;

- 13 anos de idade é a média de que uma mulher trans ou travesti é expulsa de casa;

- 0,1% da população trans consegue começar uma graduação no país.

Estes dados são da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), e demonstram um processo de exclusão social que pessoas deste recorte enfrentam, por causa de preconceito, desde sempre.

Caso você nunca tenha ouvido falar, a Operação Tarântula fez 35 anos em 2022. Esta foi uma operação da Polícia Civil do Estado de São Paulo, logo após a queda do regime militar, em que transexuais e travestis foram perseguidas e presas, e muitas "desapareciam" para sempre. A justificativa era a sua "responsabilização" pela tal "epidemia da AIDS".

Se você estudar sobre transexualidade no Brasil, vai perceber que este ato de colocar as pessoas trans longe da sociedade, sem acessos dignos de um ser humano, ocorre desde que essa sociedade foi colonizada.

Quando temos uma situação assim, precisamos realizar uma reparação histórica, que nada mais é que agir em prol de pessoas que foram colocadas à margem desde sempre.

Sistemas de cotas não são o cenário ideal de uma sociedade. Nisso concordo com qualquer pessoa que pense assim.

Porém o problema é que a sociedade não é o cenário ideal.

Percebe a diferença?

A sociedade não proporciona as mesmas oportunidades para todas as pessoas por preconceitos estruturais (aqueles históricos), e por isso ainda não chegamos naquele ponto em que podemos dizer que basta as pessoas se esforçarem.

Por mais que as pessoas se esforcem da mesma maneira, elas não chegarão aos mesmos lugares. Na maioria das vezes, nem se esforçarem mais, dependendo dos preconceitos que essa pessoa possa encarar.

Isso se chama "desigualdade". E os preconceitos estruturais têm muito a ver com isso.

Um dos mecanismos para tentar chegar à igualdade de acessos são os sistemas de cotas. E eles jamais deveriam ser chamados de "algum tipo de privilégio"

Você já viu sistemas de cotas funcionando para pessoas negras em vagas de universidades, por exemplo. E se você olhar para quem são as pessoas que estudam com você, em um país que mais da metade da população é negra, metade da sua sala de aula também deveria ser. Fica o questionamento: quantos colegas negros você já teve?

Dentro das empresas privadas a gente já tem uma lei a respeito de outro recorte social que não tem acesso às mesmas oportunidades por preconceito. A Lei de Cotas de Pessoas com Deficiência. E, olha só, ela existe desde 1991.

Aqui, organizações que não possuam uma porcentagem de pessoas com deficiência, proporcional à quantidade de pessoas funcionárias da empresa, recebem multas. Essa foi a forma de tentar igualar a empregabilidade de PCDs.

Ainda assim, quantas pessoas com deficiência trabalham com você? E quantas delas estão em posições de tomada de decisão ou liderança?

Percebe que mesmo quando o mecanismo que mira a igualdade é implementado, se não existe uma intencionalidade de "fazer dar certo", não existe "equidade"?

Para entender quando uso esse termo aqui: "equidade" é a ação de proporcionar para as pessoas, olhando para essas diferenças sociais, oportunidades diferentes e que as coloquem no mesmo ponto de partida. Somente assim as pessoas possuem as mesmas chances.

Dar "oportunidades iguais" não é suficiente quando o cenário é diferente.

E se você não apoia intencionalmente essas ações, você está ganhando o quê? Eu sempre me pergunto isso. Pois apoiar a equidade de acesso para que outras pessoas tenham os mesmos acessos que você já tem, não te prejudica em nada.

Você já se questionou se essa "aversão às cotas" não é apenas "medo" de apoiar a entrada de grupos sub-representados no mercado de trabalho, em que você já está, porque você tem medo de "aumentar a concorrência" e ser mais difícil para você?

Se for isso, você só está usando do preconceito estrutural para poder ser egoísta sem (quase) ninguém perceber.

Inclusive, seria bem contraditório realmente acreditar que "basta se esforçar", e ao mesmo tempo estar "preocupado com a concorrência". Afinal, conforme essa linha de raciocínio: basta você se esforçar mais, que outras pessoas não serão páreo para todo o seu profissionalismo.

Ou você acredita em meritocracia ou você se sente ameaçado por políticas afirmativas. Os dois não dá.

Falar sobre cotas para pessoas trans é finalmente falar de uma ação de reparação para nossa população. É algo urgente para irmos contra aqueles dados que citei mais acima.

E do que temos visto por aí, por mais que se lute contra esse tipo de ação, uma vez colocada em pauta, não dá mais pra voltar atrás — ainda bem!

Se você olhar com atenção, vai perceber que vagas afirmativas para pessoas trans já estão se tornando uma realidade em algumas empresas, em iniciativas próprias. Empresas que já vinham se preparando com especialistas para receber com equidade essas pessoas.

E a sua empresa, está esperando o que para se adiantar à algo que deve chegar na esfera privada, de forma mandatória, antes de você se dizer preparado?