PUBLICIDADE
Topo

Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Startups combo pack: as armadilhas por trás da famosinha cultura do foguete

SpaceX/Unsplash
Imagem: SpaceX/Unsplash
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

14/03/2022 06h00

Você já deve ter visto por aí startups e scale-ups se repetindo, ironicamente tentando se destacar, em discursos sobre suas maravilhosas culturas organizacionais, de transparência e diálogo. E aparentemente a receita deu certo, visto que os mesmos modelos de negócios — ou padrões de negócio liderados pelos mesmos padrões de pessoas — vêm recebendo investimentos milionários.

Mas repara nesse monte de nome e logo parecido, preocupados com employer branding (também faz parte internacionalizar as palavras e chamar "marca empregadora" assim), com diversidade (cadê os compromissos e resultados?) e com propósito (essa palavra então se tornou tão abstrata que todo mundo acha incrível mas ninguém sabe de fato qual é e como se chega lá). Repara que, junto dessa tal cultura de transparência, que no fim das contas você não fica sabendo é nada porque é tudo velado, muitas descrições costumam vir com aquela bobajada de te oferecer "salário emocional", buscar "brilho nos olhos" e "senso de dono". É fato que a pandemia padronizou as tais culturas, as promessas empregatícias e os requisitos buscados nos profissionais. E a pandemia também, por conta do estrago criado na empregabilidade, tem feito a gente agradecer por algo que não é nenhum favor: a gente troca força de trabalho por dinheiro.

Caso ainda não tenha experimentado, quando chega o boleto do aluguel, se você tentar pagar com seu salário emocional, muito provavelmente vai ser despejado. Sim, é primordial falarmos sobre como as nossas emoções estão ligadas inclusive à nossa performance no trabalho, mas infelizmente ambientes que de fato são inclusivos para isso são raros. Na maior parte do tempo, em se tratando de startups e scale-ups, a justificativa de que tudo muda muito rápido faz com que eles te façam acreditar que não dá tempo de sentir. Eles usam da emoção pra te conquistar pra vaga, mas quando você sente alguma coisa que desagrada eles, as emoções se tornam um problema. Ou seja, vale só pro anúncio da vaga na guerra de talentos, pois depois de contratado é o famoso "sem tempo irmão". E fica a dica, os boletos ainda aceitam pagamento somente com aquele outro tipo de salário, o que você recebe, ou deveria receber nessa sociedade capitalista, pela troca da sua força de trabalho.

Falar sobre buscar brilho nos olhos então só me faz revirar eles para trás. Se encantar por uma cultura organizacional é importante para que você se sinta motivado para encarar todos os BO?s que aparecem no seu dia a dia, só que tudo tem limite, e é preciso conseguir enxergá-los. Do contrário, o único brilho no olho que vai ter é de um vaga-lume porque já passou horas do seu expediente e você está trabalhando, novamente, até anoitecer. E cuidado para não expressar sentimento de desconforto com isso, pois como a gente viu antes, esse "combo de cultura" do brilho no olho costuma trazer junto o salário emocional em que as emoções só ficam do lado de fora do expediente, mesmo que ele termine quando os vaga-lumes alcançaram seu turno.

Tem também a pérola do senso de dono. Te pedem isso na entrevista de emprego, normalmente te convencendo de que vai ter autonomia e responsabilidades à altura. Poxa, parece incrível, não? Não! Você não é dono, até porque se fosse o dono não estaria fazendo uma entrevista de emprego. Inclusive, o dono pode ser aquela pessoa que fomenta a cultura pseudotransparente que faz você acreditar que tem espaço pra se abrir no ambiente organizacional sem ser julgado, que te impulsiona a trabalhar até o brilho no olho ficar seco de tantas horas de trabalho, e que te culpa quando tudo dá errado porque ele te prometeu autonomia mas não te deu nenhuma chance ou caminho para exercer o seu trabalho e atender as expectativas. "Se vira" normalmente não é expressado oralmente, mas se você prestar bastante atenção, é isso que estão te dizendo.

A gente sabe que em um momento em que o desemprego bate recordes possuir um sustento pode até ser considerado um privilégio, mas não dá pra continuar exaltando esse tipo de cultura organizacional - que, se a gente parar pra pensar, tem lá a sua culpa na precariedade das relações trabalhistas, na falta de oportunidades, na falta de saúde emocional, e às vezes num total desarranjo do que você planejou para sua carreira. Você não é o seu trabalho, você está nele.

Reconhecer isso não quer dizer que você não esteja comprometido com a organização, que não esteja dando o seu melhor, ou que não se identifique com o propósito dela (se conseguiu identificá-lo). Mas sim que você simplesmente tem os pés no chão.

E aqui vem minha dica pra quem ainda não acordou deste conto de fadas que é o "fã clube de empresas": se colocar de um lado de uma balança todas as vezes que você exaltou essa empresa, e do outro lado, todas as vezes que você foi exaltado por ela, pra qual lado a balança pesa mais?

Acorda, minha gente! Foguete não tem ré, mas você pode embarcar nele pelo menos com os equipamentos apropriados. Até porque mais pra frente tem uma estação espacial e você pode, muito bem, desembarcar.