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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se organizar direitinho, todo mundo entra no mercado de trabalho

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

14/02/2022 06h00

Para muitas empresas, o ano começou com novidades: metas de diversidade. Se até então existia a intencionalidade por conta do cenário social e de mercado, agora as companhias encaram a pluralidade de pessoas em seus quadros e cargos como um número a ser alcançado, inclusive como um objetivo organizacional a ser atingido. Em resumo, agora virou regra: precisamos ser diversos.

Acontece que, nesse desespero pela atração da diversidade, algumas empresas estão esquecendo da inclusão, e isso demonstra muito como o que antes era intencionalidade por conta do cenário social não passa agora de uma meta para se sobressair à concorrência. A inclusão de pessoas ainda sub-representadas no mercado de trabalho e nos cargos de tomada de decisão não está ocorrendo pelos motivos certos, que seria a sua responsabilidade social na desigualdade de profissionais.

Na verdade, grande parte das organizações nem se sente responsável pela falta de equidade de oportunidades, pelos processos seletivos injustos ou pelos pré-requisitos elitistas. As empresas buscam o que consideram "talentos" por uma ótica de experiência prévia, intercâmbio, inglês fluente, faculdades tais, esquecendo que muitas pessoas, por desigualdade de acessos, não possuem tudo isso que elas olham nesse "currículo ideal". Pessoas de grupos minorizados não tiveram o privilégio de "pagar pelo currículo ideal". Digo desta forma pois o currículo é comprável: a gente paga pela faculdade, paga pelo intercâmbio, paga pelo curso de idiomas. Isso nos coloca no mercado de trabalho muito mais facilmente para que tenhamos experiência e sejamos o "perfil ideal" para a vaga.

Mas assim como muitas empresas ainda não entenderam sua responsabilidade em mudar esse cenário, outras que já estão mais avançadas em ambientes equânimes já entenderam a inclusão como o ato de promover os mesmos acessos ao mercado e a cargos estratégicos às pessoas que não tiveram tais privilégios. E não é nenhum segredo como elas fazem isso: elas intencionalmente contratam essas pessoas e as desenvolvem dentro da organização. É realmente simples assim. Contrata, dá a oportunidade da pessoa entrar no mercado de trabalho, e a desenvolve em programas de capacitação técnica para aquela profissão. Isso é inclusão de pessoas diversas, olhando pela ótica da desigualdade de oportunidades. Esta é a forma mais correta de se crescer em pluralidade e representatividade, entendendo a sua responsabilidade social no cenário desigual em que vivemos hoje.

Porém aí temos um novo problema. Se antes a "guerra de talentos" no mercado de trabalho por "perfis ideais" já era algo surreal quando víamos os mesmos perfis sendo disputados incansavelmente por organizações, com ofertas e contrapropostas tão surreais quanto, agora temos uma nova "guerra" aparecendo, e que, como qualquer guerra, não é nada justa: a guerra por profissionais de determinados recortes de diversidade. Já que temos metas, "vale tudo" para conseguir batê-las. E isso tem se demonstrado em atitudes que aumentam a desigualdade social, como a busca por atalhos, ao invés de repensar os processos desiguais que não atraem a diversidade.

Muitas empresas descobriram um atalho muito efetivo para cumprir suas metas sem precisar investir um centavo ou se responsabilizar pela desigualdade. E talvez eu seja otimista demais compartilhando aqui este atalho, podendo estar dando o "ouro pro bandido". Mas espero que o que ocorra seja um sacode para que vocês entendam o quão errado é atalhar quando a gente fala em justiça social, que é a base da inclusão e da diversidade.

Se estamos falando de inclusão, do verbo "incluir", não estamos falando em "retirar". Retirar é o oposto. Você pode jogar no dicionário que é isso que ele vai te dizer. O atalho que as empresas que não entenderam sua responsabilidade na inclusão, e querem somente bater meta de diversidade, é olhar para aqueles projetos de contratação intencional e desenvolvimento que outras empresas realizaram, e — espero que você fique tão chocado quanto eu — ao invés de se inspirarem nesses projetos para criarem os seus próprios, buscam intencionalmente as pessoas que participaram deles e tiveram seu acesso ao mercado de trabalho. Ou seja, esperam que as pessoas sejam preparadas por ações inclusivas de outras empresas, para depois buscar a contratação delas.

Isso não é inclusão! Não se faz inclusão buscando profissionais prontos que foram incluídos por programas afirmativos que visam diminuir a desigualdade de oportunidades. Que oportunidade você está dando para a diversidade na sua organização? Sua responsabilidade é repensar seus processos de contratação e criar seus próprios mecanismos de inclusão para colocar no mercado de trabalho quem não está nele. De qualquer outra maneira, saiba que você não está preocupado com diversidade, e sim com você mesmo, que, não sei com qual qualidade pessoal em falta, achou que seria uma boa ideia "roubar" o profissional diverso já empregado, enquanto lá fora a gente bate recordes de falta de acessos.

Simplesmente não faça isso. Não com tantas pessoas precisando de uma oportunidade por reflexo dos seus processos que sempre foram preconceituosos e cheios de vieses. Não é caridade desenvolver programas de contratação intencional baseados nas desigualdades, é reparação. Afinal, se existe hoje esse abismo que você consegue mensurar porque não consegue bater a sua meta de diversidade, a responsabilidade foi dos processos de contratação excludentes das organizações. Você não vai estar fazendo favor nenhum olhando para quem não teve oportunidade e oferecendo essa oportunidade para ela, você vai estar fazendo o mínimo que deveria para reparar todo o tempo, todas as ações e todos os processos em que você sequer considerou que essa pessoa existia.

Se você se organizar enquanto empresa que entende sua responsabilidade nisso tudo, não precisa roubar ninguém que teve seu acesso garantido por um programa intencional de uma empresa que já entendeu essa responsa antes de você. Você pode ser ético, usar essas empresas como inspiração, e quando pensar no processo de incluir, jamais conjugar no mesmo processo o verbo "retirar".