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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O retrato da desigualdade custa caro, mas vende bem

rawpixel.com/ Freepik
Imagem: rawpixel.com/ Freepik
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

07/02/2022 06h00

Se você é uma pessoa que costuma prestar atenção nas tendências do futuro, já deve ter ouvido falar sobre NFTs. Ainda que não, provavelmente ouviu falar sobre metaverso. Em resumo, o metaverso nada mais é que um novo universo digital. Isso quer dizer que tudo que você imagina possível de existir no mundo físico que vivemos, pode ser transformado em algo virtual, e é aí que entram os NFTs. Na tradução, tokens não fungíveis, ou ativos virtuais que podem ser adquiridos por qualquer pessoa. Um exemplo fácil de entender sobre um NFT é uma obra de arte de uma artista famosa, que em vez de ficar pendurada na parede da sua sala, está guardada dentro do seu drive na nuvem e você acessa pelo seu computador. Assim como no mundo físico, existe uma assinatura, dessa vez digital, para garantir a autenticidade, e tornar você a única pessoa do mundo dona desta obra original.

Mas como eu disse, tudo aquilo que existe no mundo físico também pode estar no virtual - este, um universo onde não existem legislações ou regulamentações suficientes que impeçam as pessoas de criar um "novo mundo", repleto de qualquer coisa que quiserem ou fomentarem, inclusive desigualdades e preconceitos. E quem é você na realidade virtual?

Poder acessar jantares imaginários, festas inexistentes ou obras de arte digitais, em um mundo físico onde muitas pessoas não têm o que comer, é um retrato da desigualdade. Quem tem essa possibilidade é quem já tem os mesmos privilégios aqui, no mundo real. E a necessidade de manter essa relação de poder é tão grande, que não são medidas maneiras para dominar também o que não é "tocável".

Essa relação de dominação e controle, somada à falta de regulamentação de um universo virtual, permitiu que, através dos tais NFTs, pessoas pudessem adquirir "seus escravos", escolhendo-os em uma galeria de fotos de pessoas negras chamada de meta slave (em tradução, meta escravos). Se no mundo físico a escravidão já foi abolida para nós, no mundo virtual ela pode simplesmente estar lá. No metaverso tudo pode existir, e o pior de nós parece ter muito mais força.

Tal página não se encontra mais disponível depois de protestos ao redor do mundo. Porém é assustador pensarmos que com alguns cliques nós podemos transformar aquilo que nunca deveria ter existido em algo real novamente, mesmo que em um outro contexto. E desta vez, com desafios de enfrentamento tão complicados quanto entender como tudo isso funciona na prática.

Quão melhores estamos nos tornando, se nós não perdemos a chance de repetirmos os mesmos erros que já cometemos?