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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você não colocaria um yorkshire num canil com 500 pitbulls

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

17/01/2022 06h00

Então por que você acha uma boa ideia sair buscando uma pessoa trans para a sua empresa e não ter nenhuma rede de apoio para conscientização e acompanhamento que garantam um ambiente seguro para ela e para você?

É óbvio que eu defendo a inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho, não pense o contrário. O meu trabalho é justamente esse. Porém as empresas hoje, e pra ser honesto, desde sempre, são formadas por pessoas funcionárias cis. Por mais que existam algumas empresas com um percentual mais justo de pessoas trans no quadro de colaboradores, a gente sabe que a maioria não reflete esse percentual, sendo que muitas empresas ainda não têm nem sequer uma pessoa trans.

Se a gente for falar de cargos estratégicos e de liderança então, aí estamos bem mais longe do ideal.

De um ano pra cá é que as empresas estão percebendo essa falta, e têm colocado como meta das áreas ou representantes de diversidade a contratação de pessoas trans. E aqui já começa uma sucessão de erros, pois muitas vezes são criadas as tais "vagas trans", que são vagas afirmativas para pessoas trans que a empresa, literalmente, inventa: não há escopo, área, atividades. Como se "ser trans" fosse um cargo. Não é! Pessoas trans têm interesses e desinteresses em áreas de atuação do mercado de trabalho e podem e devem ter a liberdade de construir as próprias carreiras como qualquer pessoa cis faz.

Então quando você for criar uma oportunidade afirmativa para pessoas trans, lembre-se primeiro de possuir uma vaga com um cargo antes de buscar por essa profissional.

Aí agora a gente chega na "briga de cachorro grande". Você definiu a vaga, o escopo, as atividades e fez o hunting da pessoa para ocupar esse cargo. Você pode ter algumas dificuldades para encontrar. Uma delas é que, se buscar por profissionais com graduação, apenas 0,02% da população trans feminina possui uma graduação completa. Se o seu cargo for de estágio, lembre-se que essa pessoa precisa estar matriculada em algum curso técnico ou universidade, e você cai na estatística acima novamente, e nos drásticos dados de evasão escolar provocada por transfobia para toda a população trans. Se você aborda algumas pessoas e elas não se interessam, pode ser porque a sua marca empregadora não nos parece um local inclusivo para pessoas trans.

Então muitas companhias procuram por atalhos e contratam empresas de "consultoria em diversidade" para fazer essa busca e preencher a vaga. Coloquei assim entre aspas mesmo porque o que essas tais consultorias têm feito tem bastante a ver com o canil, mas não antes de tirar dinheiro de você a ponto de você achar que diversidade trans não vale a pena.

Ah, repara quem costuma estar à frente dessas consultorias. Por mais que ela possa ter algumas pessoas trans na equipe, a pessoa fundadora, líder ou tomadora de decisão, é uma pessoa cis, muitas vezes um homem cis, uma mulher cis branca. Parece com a empresa que você trabalha, não? Mas então como ela vai resolver o seu problema, se é um problema dela também?

Essas consultorias buscam um yorkshire, colocam no meio dos pitbulls, e te entregam a chave do canil na mão. A partir desse momento, o que você faz para que esse yorkshire fique seguro e cresça, é um problema seu. Quantas pessoas cis estão na sua empresa? Quinhentas? Mil? Dez mil? Não só não parece uma boa estratégia, como não é.

Para que consiga inserir uma pessoa trans em um contexto organizacional predominantemente cis, você precisa primeiro preparar esse contexto para que ele seja o mais seguro e equânime possível. A real inclusão só é possível através da criação de um ambiente onde as pessoas cis não vão ter medo de errar pois já vão ter sido ensinadas sobre a vivência das pessoas trans, e as pessoas trans contratadas vão se sentir pertencentes pois há respeito pelas suas existências, cuidado com as suas subjetividades, acesso à oportunidades de desenvolvimento, e colegas e lideranças seguras e acolhedoras. Para isso é necessário um ecossistema de inclusão, e não um hunting de vaga.

Preste atenção onde você está colocando as pessoas, e preste atenção onde você está se colocando também.