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Noah Scheffel

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Sam Porto: "Não é só sobre traumas que a gente resume a nossa vida"

Sam Porto em campanha da Calvin Klein Underwear - Divulgação
Sam Porto em campanha da Calvin Klein Underwear Imagem: Divulgação
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

13/12/2021 06h00

Pouco antes do São Paulo Fashion Week retomar seus desfiles em formato presencial, bati um papo com Sam Porto, modelo que rapidamente se transformou em um ícone na moda brasileira ao tornar visível a luta por respeito às pessoas trans. Em sua primeira participação na maior semana de moda brasileira, dois anosa atrás, Sam ajoelhava na passarela, as mãos unidas implorando por respeito: "respeito trans" era a mensagem escrita em seu abdômen. Ali, carregou com ele tantas outras pessoas que se viram representadas em seu ato.

Talvez o meu nervosismo antes de iniciar a conversa com ele fosse justamente por este motivo, eu era uma das pessoas que estava ali com ele, sem ele nem saber. E o que eu havia programado para ser uma entrevista, para falar sobra carreira e sua campanha de cueca para a Calvin Klein, acabou se tornando muito mais que isso. Foi um momento em que o conforto e o acolhimento tomou conta, de nós dois. Sentimos a liberdade de estarmos finalmente entre nós, dois homens trans falando de vida e trabalho.

Ecoa - Oi, Sam, tudo bem? Eu sou o Noah, e quero saber: você já foi entrevistado por outro homem trans?

Sam Porto - É a primeira vez que estou sendo entrevistado por uma pessoa trans. Antes eu já tinha sido convidado pra conversar com o Lucca (Canal Transdiário), mas assim nesse formato é a primeira vez. Estou muito feliz!

Tenho uma pergunta muito importante pra te fazer justamente por a gente não costumar ter essas conexões na nossa vida profissional. O que isso te diz sobre os espaços que nós ocupamos enquanto pessoas trans?

A gente percebe uma falta, são poucas pessoas. Para você ver, já estou há dois anos dando entrevistas no ramo da moda profissionalmente, e eu não encontro outras pessoas trans, principalmente homens trans. É a primeira vez que a gente está aqui, e que eu estou fazendo esse momento tão importante com você.

É muito solitário né? Quando a gente chega nestes locais e a gente olha pro lado e não tem ninguém.

Sim, é! A gente fica muito sozinho. Por isso que quando fiquei sabendo que iria ser entrevistado por um homem trans, fiquei "nossa, então agora eu posso relaxar", de que agora eu posso ficar mais tranquilo porque eu sei que você vai estar aqui, me entendendo e do meu lado. É essa sensação de acolhimento.

E na tua profissão, no mundo da moda, como é ser um homem trans?

Nossa, são dois extremos. Um, de muita felicidade, muita euforia. É um sonho mesmo que eu realizo de estar dentro da moda e deste mercado. Mas, ao mesmo tempo, é desesperador por eu estar sozinho, no sentido de existirem poucos homens trans inseridos nesse mercado. Fico inseguro se vou me sentir confortável, fico naquela de não saber se posso falar como estou me sentindo realmente e se as pessoas vão me entender. Não é pra ser chato do tipo "eu não faço isso". É da nossa experiencia pessoal, de experiência de vida mesmo. Tenho muita disforia com meu corpo, e por mais que eu já tenha feito a cirurgia de mastectomia, não me sinto confortável com algumas peças de roupa.

Então, quando eu faço algum trabalho sempre tento passar isso pra quem está me produzindo. Se tivesse um homem trans [ali] seria muito fácil, eu falaria "essa peça não está me fazendo bem". Hoje a gente tem que falar com muito cuidado porque acaba que as pessoas se sentem ofendidas porque elas não entendem da nossa vivência trans. Falta conhecimento. E assim, mulheres trans já têm algumas na moda, mas homens trans não. Sinto que tudo que eu vou passando é como se fosse uma primeira vez, não só pra mim, mas pra eles também.

Fiz um trabalho para uma marca e tinha um homem trans na produção, um maquiador. Foi tão bom ver outras pessoas como a gente inseridas no mercado. Foi uma sensação muito forte pra mim, ser produzido por um cara que também é trans. E a gente percebe a importância, porque foi bem diferente tudo que acontecia nessa produção. Fiquei a todo momento muito confortável e feliz.

Querendo ou não a gente gasta muita energia pensando em coisas como "eu falo ou não falo", e isso acaba influenciando no nosso trabalho. Tu se sente cobrado no sentido de que ao se posicionar pode estar fechando uma porta pra população trans porque vão criar um estereótipo?

Não vou negar, me sinto sim. Em vários momentos tenho um pouco de medo de falar, nem só pras pessoas das produções, mas nas redes sociais. Faço isso com muita calma, do meu jeitinho mais timidozinho, sempre de uma forma muito respeitosa com quem está me escutando, com quem está trabalhando comigo, mas eu não fico calado.

Falando de posicionamento, não tem como eu não falar de SPFW. E me conta, de onde que partiu o pedido de respeito trans, foi uma vontade tua?

Sam Porto no desfile da Cavalera 2019 - Nelson Almeida/AFP - Nelson Almeida/AFP
Sam Porto fez manifestação na passarela da Cavalera em 2019 durante o São Paulo Fashion Week
Imagem: Nelson Almeida/AFP

Foi um desabafo. Nem sei te dizer como que aconteceu, não estava nada planejado. Nem na minha cabeça, nem na produção com a Cavalera. Eu já vinha exausto dessa falta de homens trans dentro da moda, falta de referência. Eu morava em Brasília na época, e vim pra São Paulo 6 meses antes do SPFW pra ver se iria conseguir [um trabalho]. Na minha cabeça já estava assim: "se eu conseguir entrar, vou ter que levantar a minha bandeira de alguma forma". Foi na hora que perguntei pro pessoal da Cavalera se eu podia protestar, falar o que eu tinha pra colocar pra fora. E eles falaram "claro, o momento é seu, faz o que você quiser". Foi bem verdadeiro, saiu de dentro pra fora real. E quando eu comecei a desfilar, pensei "mano, vou implorar por respeito". Foi o que eu estava sentindo no momento.

Eu me vi ali, e acho que a maioria dos homens trans se viu ali também.

É muito legal escutar isso, de verdade. Quis fazer algo que não fosse só pra mim, eu não esperava que fosse dar uma repercussão e tudo aquilo. O que aconteceu dentro da moda foi que eu já entrei falando '"não quero ser passado como uma pessoa cis, quero ser visto como homem trans, quero ser vendido como homem trans". Respeito quem quer essa passabilidade, mas eu, Sam, quero levantar a bandeira em todos os momentos e não precisar aceitar algum trabalho no qual eu seja passado por cis, sem falar a verdade sobre a minha história, sobre quem sou eu.

E quais foram os teus maiores desafios de entrar na moda já de início como um homem trans?

Ainda está sendo desafiador o quesito da hormonização. Já tem 7 anos que eu estou tentando me hormonizar mas que em algum momento eu não consigo ir pra frente, tenho uma alergia ao hormônio e preciso parar. E fico nesse quesito mental e físico dos meus complexos e das minhas disforias comigo mesmo. E eu trabalho com a minha imagem, né, então uma coisa leva à outra. O maior desafio pra mim é de me sentir bem em alguns momentos que por dentro eu não estou tão legal. A hormonização com certeza é uma questão, mesmo que a gente saiba que não é uma obrigação para legitimar a existência de homens trans.

A gente sabe, né, mas muitas pessoas cis não sabem disso e acham que para ser trans tem que passar por uso de hormônios ou cirurgias.

É! Em alguns momentos já me senti numa cobrança interna com relação a outros modelos, cis, e me peguei pensando "será que eu não tenho que ser um pouco mais forte?". E aí me vi em um lugar muito tóxico, em que para ser um homem ou para ser suficiente, eu tinha que ser "mais másculo". Mas não é sobre isso, não tem nada a ver. É sobre como você se sente. Então, venho trabalhando isso.

Pra mim também chegou o momento em que fiquei me questionando se estava me hormonizando por me sentir bem ou porque tinha que parecer com um cara cis. Tu falou sobre disforia, então queria perguntar o que significou poder realizar a mastectomia?

Pra mim foi o momento que mais pegou, pois eu tinha muita disforia dos seios e isso até me travava de falar quem eu era pras pessoas. Vinha naquela de será que eu vou fazer a cirurgia ou não. Eu já tinha certeza, mas demorei bastante pra fazer porque queria pensar bem. Foi uma decisão por conta da disforia mesmo, não porque pra ser um homem trans tem que retirar [os seios]. Foi o meu ponto de libertação comigo mesmo.

Desde criança tu já se entendia como uma "criança trans", obviamente sem saber que era esse o nome? Como que foi essa relação com tua família?

Cara, eu tenho um lugar de privilégio muito forte com relação a entendimento familiar, porque a minha família desde sempre já sabia. Eu fui chorando achando que minha mãe e meu pai não iam entender, que iam me matar, mas minha mãe falou "por que você tá chorando? A gente já sabe". Meu pai também foi super acolhedor. Não teve esse desespero e sofrimento que infelizmente muitas famílias têm, e a dificuldade de compreender. Foi um privilégio muito grande que eu tive, não só dos meus pais, mas também de tios e outras pessoas da família. Nunca teve nenhum constrangimento.

Tu sente esse peso de representatividade trans? Tipo, puxando pra mim e pro trabalho que tenho com o Educatransforma, as pessoas buscam em mim uma representação.

Sim, como se a gente tivesse que ter essa preparação para todos os momentos sobre tudo. Já me peguei tendo crises de ansiedade, de me cobrar de ser uma pessoa presente nas redes sociais, de ser uma pessoa que sabe falar sobre tudo possível dentro da bandeira. E sobre essa questão de representar e ter que falar o tempo inteiro sobre tudo. Queria muito ser assim! Mas eu não consigo. Em algum momento, em algum ponto, não vou representar alguma outra pessoa que seja como eu no aspecto trans, mas que seja uma pessoa preta por exemplo.

Até essa palavra, "representatividade", não sei se eu me sinto confortável de levantar isso. Trago muita visibilidade para os homens trans, mas não me sinto uma pessoa que representa ninguém. A palavra "representatividade" é muito forte. Ela envolve um todo.

Eu falo muito sobre a questão de representatividade ou representação. É mais representação, tu não acha?

Exato! Você pegou no ponto.

"Representatividade" traria toda a pluralidade que existe dentro do recorte trans.

Exatamente isso. Você resumiu aí o que eu queria falar.

Tu acredita que o acesso ao afeto ou a afetividade para nós homens trans ainda é uma barreira?

Eu acho que sim. O preconceito é muito forte. No meu caso, por mais "padrãozinho" que eu seja, acho que atinge todos nós.

Como que a gente ultrapassa isso?

Nossa, mano, agora você me pegou! Eu vou passar essa pergunta pra você!

Eu também não sei! Tava esperando que tu me desse essa resposta, me passasse essa dica.

É foda isso, não sei real como te responder.

Mas então vamos falar da tua campanha pra Calvin Klein, que está incrível, maravilhosa. Me conta como que foi isso tudo.

Cara, pra mim foi muito forte porque eu sempre coloquei na minha cabeça, e até falava pra algumas pessoas, que uma das minhas metas era fazer algum trabalho pra Calvin Klein, que é uma marca muito referência. Você vai em qualquer lugar, não só homem, mas mulheres também, todo mundo usa todas as peças. Sempre tive essa vontade de fazer ou de ver algum homem trans representando ali. Foi bem parecido com o quesito de eu entrar na moda. O que me moveu foi muito mais o cansaço e a exaustão de não ter um homem trans ali. Foi um sonho que eu realizei. Foi muito gratificante e eu fiquei muito feliz. Ainda mais porque a gente vê várias pessoas cis fazendo, principalmente underwear, que é cuecas, samba-canção e tal... E se você for parar pra ver, homem trans adora usar cueca da Calvin Klein! E eu ficava: não é possível, a gente super consome a marca e não tem ninguém pra representar, como assim?

Pa gente que está de fora e está te vendo abrindo esses espaços, parece que tu olha muito pra nós enquanto coletivo em tudo que atua.

Sou muito preocupado com isso. Eu tenho muita dificuldade no quesito da minha timidez. Até pra estar gravando aqui pra mim é um processinho, porque eu sou muito tímido mesmo. Em alguns momentos fico pensando "gente, será que vou ter essa coragem de ir?", mas na hora que penso que outras pessoas gostariam de estar aqui, preciso de alguma forma aparecer e levantar a voz e não só por mim, por outras pessoas também. Tudo que eu faço é pensando muito mais nas outras pessoas do que em mim. E que legal saber que você, como homem trans, e que as pessoas me veem desta forma. Era uma preocupação minha, de o que as outras pessoas estavam pensando. Até dá um alívio saber isso de ti.

Como tu vê hoje as nossas vidas, as nossas histórias, sendo retratadas na mídia? Acha que falta espaço pra contar nossas narrativas felizes?

Eu venho falando muito sobre isso. É claro que é legal a gente ser convidado pra contar a nossa história em todos os lugares, mas sinto essa falta de convites pra fazer outras coisas além de contar das nossas experiências de traumas. Parece que as pessoas veem a gente com um olhar só de trauma, como se a gente tivesse que estar ocupando só esse espaço, como se isso definisse quem nós somos. Só que não. Poxa, eu quero ser chamado pra outras coisas também. Eu quero ser ator, eu sou modelo, eu faço mil outras coisas sabe, eu tenho várias outras coisas para mostrar. Eu quero fazer alguma coisa em que eu vá sorrir em algum momento.

É o que acontece com as pessoas pretas também, né, chamam para falar apenas sobre racismo. E não quer dizer que a pessoa quer falar só sobre isso, sendo que tem tantos outros interesses. Não é só sobre traumas e sobre dores que a gente resume a nossa vida.

E a gente te vendo no SPFW, na Calvin Klein, consegue se espelhar pra entender que esses espaços não devem ser negados pra gente e que a gente também pertence. Isso também é falar sobre histórias felizes, sobre narrativas felizes. Tem mais alguma coisa que tu queira compartilhar sobre essa perspectiva de narrativa de coisas boas?

Escutar de uma pessoa trans isso, pra mim é uma narrativa que é a mais feliz de todas. Ainda quero conquistar espaços para onde eu seja chamado para falar para além das minhas dores. Não tive tantas oportunidades nesse sentido e tenho trabalhado muito pra ter esse retorno. Espero que tudo que eu passei pra chegar até aqui não seja uma moda, e tenha impactado de uma forma forte a ponto das coisas não voltarem mais a ser como elas eram antes. Mas de realização, a SPFW me trouxe isso, de ver que tudo é possível. E eu consegui porque eu tentei muito, muito mesmo. Eu, de todo coração, me joguei e me coloquei em várias situações em que me senti um ratinho de laboratório, em que eu tenho que pegar na mão e falar "mano, não é assim por tal motivo, é dessa forma, melhor assim".

Isso me faz pensar nesse lado ruim de ser a primeira pessoa passando por algo, que precisa fazer esse papel quase que educacional.

Sim, e tem coisas que a gente não fala porque não quer se expor. O mundo da moda parece ser muito glamuroso, muito rico, e não é isso. Tem o lado que é de muito glamour, mas também tem o lado que é muito difícil. Ainda sinto que não cheguei onde quero chegar de conquista financeira. Sinto que sim, venho conquistando muitas coisas em prol da minha bandeira, de dar visibilidade pra nós, homens trans, mas tem muitos caminhos para serem rompidos até chegar nesse outro lugar, de segurança financeira, de oportunidades que vão me acolher na carreira que quero pra mim.

Falar disso é importante porque tem essa aparente cobrança de, por a gente estar lutando por uma causa, não poder ter ambições e sonhos. E o que os nossos amigos cis podem fazer para ajudar no cotidiano de pessoas trans?

Escutar mais, estudar mais, ir atrás de informação. Conhecer mais as nossas histórias, o que a gente vem trazendo até hoje. Essa pergunta pra mim é um pouco difícil porque eu não sei como falar pra uma pessoa cis o que ela precisa fazer além de algo tão básico quanto escutar e entender. Me responde você pra eu ver o que você acha!

Eu super concordo contigo que é sobre ter essa escuta. Ter empatia com a outra pessoa, de entender a vivência da outra pessoa e que se ela está te trazendo algo, tu não relativiza. Vejo muito as pessoas cis relativizando e, às vezes, nem é por mal, é por não entenderem a profundidade daquilo. Elas não viveram, elas não vivenciam no dia a dia, aquilo não chega pra elas da mesma forma. Elas não escutam ativamente pra entender, e sim pra justificar. E aí não tem a quebra do preconceito e acaba gerando um efeito dominó de situações que as pessoas trans precisam carregar na sua vivência.

É o ponto, né. Se a pessoa parar pra te ouvir de coração real, a partir daí as coisas meio que tendem a mudar. Mas se a pessoa te escuta de coração fechado, nada vai fazer diferença.

Sam, foi muito bom esse papo contigo! Quero te agradecer demais.

Nossa, eu adorei. Foi um momento de marco mesmo, porque quando alguém me perguntar "e aí você já fez uma entrevista de matéria com um cara trans?" eu vou falar "já sim, o Noah". E é sobre isso.