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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Minha mãe disse que não dá pra ter tudo

Carta - Oleksandr Shchus/iStock
Carta Imagem: Oleksandr Shchus/iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

25/10/2021 06h00

Eu nunca fui muito dessas representações mensais, porque tenho uma ideia ainda utópica de que todos os meses deveriam ser de todos os assuntos. Mas a vida que vivemos é diferente dessa utopia, e na vida real a gente tem mês pra comemorar, mês pra celebrar, mês pra refletir? a gente tem mês pra caramba. Na verdade o que a gente tem pra caramba são coisas a serem comemoradas, celebradas, refletidas, que até os 12 meses do ano parecem poucos. E já que é assim, e no mês de outubro se comemora, dentre outros marcos, o Dia das Crianças, antes que ele acabe eu resolvi falar sobre elas, sobre a data e sobre nós. Nós, que há um bom tempo já não somos compreendidos por essa data nesse mês, mas que muitas vezes temos a quem compreender: as crianças nas nossas vidas.

Confesso que relutei em abordar o Dia das Crianças deste ano pois, por mais que eu ache importante que se fale da infância, do futuro, do que estamos fazendo para que o mundo seja um lugar melhor, esse mês deste ano foi diferente para mim. E por mais que tenha me trazido reflexões que vou compartilhar com você, por ter vindo de um lugar tão íntimo, eu reluto pois sinto um certo constrangimento. Mas acho importante te contar o que aconteceu para que você não tenha um outubro assim.

O meu Dia das Crianças, enquanto mãe e pai, esse ano chegou em um envelope que, depois de aberto, continha uma folha toda decorada. Esse envelope entregue em meio a uma das minhas inúmeras reuniões diárias. Com um nome no topo, as frases subindo a montanha e a potência de me dizer as coisas mais tristes que eu já li:

"Oi, esse é o meu nome. Eu tenho 8 anos. O nome da minha mãe é Noah. Hoje vou contar da minha mãe. Minha mãe é brabo. Ele é bem cansado, sem paciência. Fala alto e de vez em quando me deixa triste. Essa é a parte ruim. Agora a parte boa. Se esforça muito para ser legal. Faz tudo que eu quero e me ajuda. Mas ele só trabalha. Quando eu chego aqui em casa eu dou oi e um abraço e depois ele só trabalha. Fico triste mas não falo, só penso que fiquei nem um tempinho com a mamãe. Eu fico sabe quanto tempo com a mamãe? Vou falar. Zero minutos. Mas eu não penso só no lado ruim. Eu penso no bom também. Eu penso que pelo menos eu tenho coisa pra comer. Nem sei se no dia da criança eu vou ter presente. Se eu não tiver não vou ficar triste. Meu presente é a minha vida e a minha mãe."

Eu continuo digerindo cada frase curta dessa cartinha todos os dias desde então. Num misto de culpa com vontade de voltar no tempo. Voltar no tempo e ser mais. Estar mais. É isso que as crianças querem e precisam. A gente vive ouvindo por aí que "presença vale mais que presente", mas no fundo a correria do dia a dia faz a gente ir na loja pra compensar o que a gente se cobra por não fazer. Ou melhor, por não estar. Essa pessoa que ela descreveu sou eu. E não é essa pessoa que eu quero ser pra ela. Não adianta nada eu trabalhar tanto para deixar um mundo melhor para ela, se eu não fizer parte deste mundo também.

O Dia das Crianças em outubro e um brinquedo embrulhado não vão suprir a falta que a gente faz. E eu sei bem que parece que não dá tempo. No meu caso, como ela diz, é trabalho demais. Mas quando eu era criança a minha mãe dizia que não dá pra ter tudo. E eu precisei dessa sacudida para perceber que se eu tiver que escolher, eu sei bem o que eu quero ter.

Então, enquanto ainda dá tempo, vamos olhar para o que realmente importa. Não só nesse dia que celebra elas. Vamos combinar de viver pelo menos essa utopia, dentre as tantas que precisamos de um mês para celebrar algo, e passar a celebrar a existência das crianças todos os dias? Elas são o melhor de nós, e são também o nosso futuro.

Eu me comprometi a assistir Naruto sem entender nada, e jogar com ela o plástico bolha colorido que ganha quem estourar mais. Ela fica brava porque acha que eu fico feliz quando ela perde. Na verdade eu fico feliz porque independentemente de quantas bolinhas eu estourei, estando com ela, eu nunca perdi.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL