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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

De quem é a culpa da falta de diversidade?

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

11/10/2021 06h00

Um dia desses, em uma palestra que estava dando sobre diversidade, uma das pessoas da audiência perguntou qual era a culpa das pessoas brancas, heterossexuais e cisgênero, quando elas não "não eram preconceituosas", na falta de pessoas diversas em espaços sociais.

Essa é uma pergunta muito comum quando a gente fala sobre inclusão, sobre equidade de oportunidades, e sobre os diferentes marcadores sociais que historicamente colocam as pessoas em pontos de partida diferentes na vida. E é justamente sobre isso. Vou explicar!

Historicamente tivemos um regime escravocrata até há pouco tempo, onde pessoas que carregam marcadores sociais de raça e etnia foram submetidas por muitos anos a barbáries exploratórias que deixam marcas de ruptura social nos dias atuais. Por exemplo: você quando vê nos noticiários que uma pessoa negra foi reconhecida por um prêmio super importante, sabe que é uma exceção, mas normalmente pensa automaticamente que foi porque ela se esforçou para isso, e as demais pessoas com este marcador social só não conseguem chegar neste mesmo lugar porque não se dedicam o suficiente para isso. Esse pensamento é um pensamento historicamente e estruturalmente preconceituoso.

Entra aquele papo da meritocracia, que faz com que pensemos que todas as pessoas se esforçando vão chegar aos mesmos locais, e que aquelas que não chegam, é porque não são competentes o suficiente, ou não querem, ou não se esforçaram para isso. Seria lindo que um dia nós pudéssemos realmente chegar em um ponto na sociedade que as oportunidades fossem justas para as pessoas, e todas elas pudessem ser consideradas sobre essa ótica de meritocracia. Mas meritocracia só funciona quando todas as pessoas possuem acesso às mesmas oportunidades, e na nossa realidade social estamos muito distantes deste lugar.

Os diferentes marcadores sociais que temos, e a história que eles carregam de preconceito e de exclusão, fazem com que muitas pessoas não tenham nem sequer o acesso às oportunidades. Então como elas vão se esforçar para chegar a determinado lugar, se elas nem foram colocadas na mesma corrida, e seguem de fora, apenas como plateia?

Este é o mesmo cenário relacionado à pessoas de outros grupos sub representados, que quando tem algum destaque em suas vias, são tidas como exemplo de superação, e transformadas pelas pessoas de fora destes marcadores, como exemplares de que outras pessoas também conseguiriam se tentassem.

Mas a nossa sociedade não pode continuar pegando os poucos exemplares "de sucesso" e usando eles como exemplos de que a sociedade é justa e equânime com todas as pessoas. Nós temos que refletir, quando vemos uma notícia assim, de por qual motivo essa é uma notícia. Se fosse algo tão comum de existir na nossa sociedade, não seria motivo de notícia, porque seria corriqueiro. Se não é algo corriqueiro é porque existe algo de muito errado, e esse algo, é a desigualdade social que por anos fez com que essas pessoas, nessas posições, fossem exceção, e não regra.

Então por mais que você não seja diretamente preconceituoso com pessoas negras, transgênero, homossexuais, com deficiência, e de tantos outros marcadores sociais que passam por processos de exclusão social, indiretamente você é sim preconceituoso, mesmo sem perceber. Eu sei que é extremamente desconfortável de escutar, ler ou entender que você, mesmo sem querer, carrega preconceitos. Entendo quando você nega e diz que não foi você que "escravizou ninguém", ou não foi você que "agrediu um gay". Mas você, enquanto sujeito na sociedade que não faz parte destes grupos, é tido como "o normal". E esse título de "normal" te coloca em posições de privilégio frente às pessoas que não possuem esse status.

Então por mais que você não agrida ninguém, não reproduza frases preconceituosas, e mesmo se diga uma pessoa aliada, você ainda desfruta (mesmo que a decisão não tenha sido sua) desse seu status de "normalidade" em uma sociedade que sempre vai te colocar menos obstáculos, para que você tenha acesso à mais oportunidades.

Então, não, você não tem culpa pela desigualdade social que vivemos por conta de estruturas historicamente preconceituosas, mas você tem, sim, responsabilidade nisso. Este é o ponto principal que você deve considerar quando achar que você não tem nada a ver com o assunto de diversidade e inclusão. Porque, sim, você tem tudo a ver com essa pauta. Ela não existiria, ou nem existiria a necessidade desta pauta, se não fosse por você. A responsabilidade desta pauta precisar existir é sua enquanto pessoa que possui livre espaço na sociedade para ser quem você é e não ser prejudicado por isso, em detrimento de outras existências.

Enquanto você não consegue substituir essa negação de culpa, pelo entendimento da sua responsabilidade, você não consegue agir. É necessário que você entenda o seu local de privilégio pois assim você entende que também é responsável pela desigualdade atual. Se você quiser deixar para trás o passado, visto que você não estava lá, tudo bem! Mas é importante você entender que o presente só existe te permitindo os acessos que tens, por tudo que foi historicamente construído para que você chegasse aqui com os privilégios que tem. E sabe uma coisa importante sobre a responsabilidade? É que só assumindo ela você percebe que precisa agir. Se você continuar se colocando de fora desta pauta, se agarrando ao conceito de culpa, você não assumirá o seu papel de agente responsável pela luta contra as desigualdades que vivemos hoje.

Deixe a culpa para trás da mesma forma que você diz que foram seus antepassados que cometeram atos preconceituosos. E entenda que esses atos do passado se refletem no presente, e já que estamos todos vivendo no presente, a responsabilidade é de todos nós.

Agora que você sabe que é sua responsabilidade fazer alguma coisa para mudar o cenário atual de desigualdades, está na hora de decidir o que você vai fazer!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL