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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você já ouviu falar sobre passabilidade?

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

13/09/2021 06h00

Esse é um conceito muito popular na pauta da existência das pessoas trans, porém completamente desconhecido para as demais pessoas da sociedade, até mesmo para aquelas que fazem parte da comunidade LGBTQIA+ que não são pessoas trans.

Apesar de ser um conceito desconhecido, ele precisa sair desse estado de desconhecimento, pois é um conceito que molda de forma substancial a existência e vivência das pessoas deste recorte. Vou explicar, mas por conta deste conceito e como ele dialoga com a sociedade, existe um impacto muito grande de preconceito, microagressões e violências que acontecem sistematicamente para as pessoas trans.

Passabilidade nada mais é do que uma pessoa trans se parecer com aquilo que entendemos como a aparência de uma pessoa cis. Por exemplo, um homem trans parecer tanto com um homem cis, que ninguém saberia dizer que ele é trans.

Só que esse conceito tem duas vias:

  1. Reforça estereótipo de gênero, em como "um homem deve ser", ou "uma mulher deve ser" para serem aceitos na sociedade, e deixa de fora pessoas que não estão dentro desses padrões de gênero. Isso faz com que pessoas trans não binárias, ou pessoas trans que não estão nesse padrão de passabilidade, sejam excluídas da sociedade. Além disso, reforça que existe um normal com relação a identidade de gênero, e que esse normal é a cisgeneridade, e que ela deve ser buscada pelas pessoas transgênero para que exista uma aceitação e uma oportunidade de fazer parte da sociedade;

  2. Por outro lado, como temos uma sociedade cis centrada, que tem a cisgeneridade como normal, quando uma pessoa trans é "passável", e sua transgeneridade passa despercebida, o nível de preconceito, violência e agressões caem, pois não incide mais a transfobia sobre a sua existência, e os acessos que deveriam ser de direitos de todas as pessoas, são mais facilmente conquistados: empregabilidade, educação, saúde.

Esse conceito é extremamente perigoso para que os direitos das pessoas trans avancem na sociedade. Ambas as vias, mesmo a que proporciona uma proteção maior à vida, são problemáticas pois invisibilizam toda a particularidade de uma população que precisa estar visível e participante da sociedade sendo quem se é. Precisar parecer com algo que não se é, além de violento, reforça que pessoas trans não são normais e nem serão respeitadas, e essa possibilidade de inclusão na sociedade só virá caso elas se pareçam com o que é tido como normal: uma pessoa cis.

Além de tudo, muitas pessoas trans tentam atingir a passabilidade justamente para terem alguma chance na vida, e se submetem a situações e procedimentos não por livre escolha, e sim por essa pressão da sociedade de que sem isso, a marginalização, a violência e a transfobia serão atos constantes e diários em suas vidas.

Enquanto pessoas que discutem a inclusão das pessoas na sociedade, precisamos nos atentar aos conceitos que fazem com que a diversidade de existências seja oprimida por questões sociais preconceituosas. Ao invés de aplaudirmos uma pessoa trans com frases transfóbicas como "nossa, você nem parece trans!", deveríamos nos questionar o que é parecer cis, desconstruir esses padrões binários de gênero, e dizimar esse conceito de normalidade, onde a aparência continua sendo determinante entre a vida e a morte.

Agora que você já sabe o conceito de passabilidade, tente se lembrar das pessoas trans e travestis que você teve contato na vida, e faça um comparativo de acessos e oportunidades que essas pessoas tiveram. Quais delas tiveram chance de fazer parte da sociedade? Aquelas que são mais parecidas com pessoas cis, ou aquelas que não são?

Você sabe a resposta desta pergunta. Então agora cabe a você se questionar por qual motivo ainda continuamos promovendo uma inclusão higienista, hegemônica e colonizadora, nos baseando na branquitude e na cisgeneridade como parâmetros para promover uma falsa diversidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL