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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Até que a vida nos separe

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

30/08/2021 06h00

Hoje quero começar te pedindo para respirar fundo, prender a respiração e pensar numa amizade que faz tempo que você não tem contato. Um amigo que você sabe que está lá, e essa presença, mesmo que distante, faz você soltar o ar pensando que o mundo é um bom lugar. Agora quero que você feche os olhos e fique um tempo recordando como foi o último contato de vocês. Foi profundo o suficiente para vocês entenderem o que se passava na vida um do outro, um raso "estou bem e você" ou um de vocês ficou sem resposta?

O quão normal que a vida, da forma que estamos levando, vai tendo basicamente apenas as alternativas superficiais. Como o avanço dos meios de comunicação online, a pandemia e a nossa estafa de vivermos em uma realidade a qual nunca fomos acostumados, nos afastaram de tudo. E nos afastaram principalmente daquilo que não costumávamos nutrir. Até porque, desse jeito, isso também ficou mais difícil, e esquecemos até mesmo do "temos que marcar de nos ver", dando lugar a um vazio completo. Ou a um lugar completamente vazio.

Acontece que neste lugar, onde parece que o tempo não passa e as coisas não mudam, está tudo cada vez mais diferente, frágil e rápido, que não dá tempo pra nada, nem para perceber que tudo mudou. Essa dualidade de realidades nos coloca tão fácil num piloto automático que a gente segue a direção programada, sem questionar aquilo que está ao redor. A verdade é que a gente foi deixando de ver o que está ao redor. Não é por mal, só aconteceu. As nossas percepções foram limitadas, ironicamente em uma era onde tudo o que mais temos são acessos à informação.

Quando eu te pedi para pensar naquele amigo que você não tem contato faz tempo, você conseguiu recuperar a habilidade da percepção e lembrar como foi a última vez que vocês se falaram?

Essa semana eu perdi esse meu amigo. Esse que eu imaginaria se tivesse feito o exercício que te pedi para fazer. Uma amizade que estava lá, distante, e que o tempo foi afastando porque por mais que não parecesse, passou rápido demais. Quantas pessoas hoje não estão nesse mesmo lugar, se questionando como que fica o mundo quando aquele amigo que o tornava melhor se vai. E como que a gente não viu isso acontecendo, e só percebeu com a morte?

Desacelere e olhe ao redor. Sendo o tempo relativo, recupere a parte dele que é importante para você e não deixe passar a chance de nutrir algo que você ama, seja o que for. Parece clichê dizer que às vezes é tarde demais, mas não deixa de ser verdade, e como estamos tão imersos no nada, não custa eu te emergir para o óbvio.

Eu, assim como muitas pessoas que perderam alguém repentinamente, daria tudo para fazer pelo menos alguma coisa diferente. Então, enquanto ainda há tempo, faça.

Eu vinha gastando todo o meu tempo tentando alcançar ele próprio, tentando fazer tudo caber dentro dele. Isso me fez ir deixando todo o resto pra depois. Eu não notei a vida passando porque eu não tive tempo para isso também. É tanto compromisso, tanto trabalho, tanta coisa pra resolver, que mesmo quando eu me percebi nesse piloto automático, nessa frequência que ecoava só solidão, eu não consegui mais sair. E muita gente está presa nesse exato lugar, um lugar onde milhares estão juntos, mas sós.

Em meio ao meu "perder de chão", eu fiquei me questionando como foi meu último contato com esse amigo tão querido. Eu não lembrei. Fazia assim tanto tempo? Como que eu não lembrava? Mas não era mais o tempo a questão, e sim que eu não lembrava da mesma forma que havia esquecido quais eram de fato as coisas importantes da minha vida, ou para onde eu deveria estar dedicando a minha atenção. E nesse desespero de encontrar a resposta de como foi nosso último contato, o que eu encontrei foi o retrato de todo esse cenário: a mensagem mais bonita que ele me mandou, e que eu nunca tive tempo para responder.

Não sei quantas vezes já escutei essa mensagem dele desde que ele se foi e deixou esse mundo ficar um pouquinho pior. E nesses momentos a voz dele parece ser a única coisa que eu tenho. O cruel é que esse tempo que achei para escutar, repetidamente, as coisas lindas que ele me disse, eu poderia ter dedicado para responder e dizer todas as coisas lindas que eu gostaria de ter dito a ele. Eu achei que teria tempo depois, e o depois foi passando, e a vida foi nos deixando sem resposta.

O fato é que talvez a gente não tenha depois, então aproveite enquanto você ainda tem o agora. Não perca tempo permitindo que a vida vá deixando você sem resposta. Responda. Perceba o que está ao seu redor, e valorize enquanto você pode.

Me perdoa, Marcelinho. O tempo passou tão depressa, que não deu pra dizer que temos que marcar de nos ver. O filhote aqui percebeu, tarde demais, que a morte traz uma outra dimensão pra vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL