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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem é o amor da sua vida?

"O amor eterno existe sim, até para nós, pessoas trans", Noah Scheffel  - TwilightShow/Getty Images
"O amor eterno existe sim, até para nós, pessoas trans", Noah Scheffel Imagem: TwilightShow/Getty Images
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

23/08/2021 06h00

Quando eu falei para minha melhor amiga que eu acreditava em amor eterno, ela riu de mim. E o grupo de amigos ao redor gargalhou junto. Eu era, no momento que disse isso, alguém que estava extremamente apaixonado. Eu ainda não tinha quebrado a cara, ou melhor dizendo, ninguém tinha partido meu coração. No máximo eu tinha passado por relacionamentos em que saí com alguns arranhões. Mas aquele sofrer, de perder o chão, de achar que não vai dar, esse, eu ainda estava ileso. E quando riram de mim, devem ter pensado que eu estava sendo ingênuo demais.

É chocante que até o acesso à afetividade muda quando você é uma pessoa trans. Uma das primeiras pessoas que eu compartilhei que estava me entendendo como um homem trans me perguntou se eu tinha certeza sobre ir em frente, me alertando sobre a solidão da pessoa trans, como se a minha identidade fosse uma escolha: ou você "escolhe" ser quem você é de verdade e passa o resto da vida só, ou você "escolhe" viver o resto da vida preso em alguém que você não é, para ser amado por outra pessoa.

Naquele momento o que ela dizia não fazia sentido na minha cabeça, ora, a solidão afetiva era algo que eu nem tinha me atentado pois eu nunca tinha me preocupado com isso na vida. Mas ela estava certa, e eu não estava preocupado, ainda.

Sabe, quando você se entende enquanto uma pessoa trans e tem a coragem de se colocar assim para o mundo e para a sociedade, você imagina todos aqueles dados sobre preconceito e transfobia atingindo você. Dados esses que estão aí para quem pesquisar na internet sobre como é a vivência de uma pessoa trans, e transmitem a dura realidade com um ar de satisfação, como se fosse a só isso que estivéssemos destinados. Triste que estamos destinados a isso também.

Mas aí na vida pessoal é tudo muito único, como na vida de uma pessoa que não seja trans. Paira um ar de mistério sobre nossas vidas particulares, como se fosse algo descomunal. Mas a gente não aperta um "botão trans", que faz a gente virar um ser de outro planeta. A gente continua existindo como sempre existiu, com a diferença que agora nossa identidade de gênero está de acordo com quem a gente é de verdade. Eu vivo dizendo que não sou um novo começo, e sim uma continuação.

Só que a nossa existência é diferente de como é mostrada a existência de pessoas cis. O livro que eu gosto, a série que eu vi no final se semana, se onde eu moro tem mercado perto, e outras coisas triviais da vida, são completamente apagadas, e somos resumides à dados e estatísticas, enquanto o resto parece que não existe, inclusive o amor.

Quando nos identificamos como uma pessoa trans no país que mais nos mata, todos os anos, a gente perde esse status de gente. E esse é apenas o primeiro dos acessos que a gente vai perdendo por conta de uma sociedade que ainda não aprendeu a lidar com o que é diferente do que tem como normal. E deixando de "ser gente" perdemos o acesso à educação, ao emprego, à segurança, à moradia, ao amor da sua vida, à vida digna, e à paz.

A falta de paz é a consequência de todas as outras faltas. De tudo aquilo que a gente em algum momento da vida teve, e perdeu. Foi levado da gente junto com o nosso status de gente. E a solidão, esse dado velado nas estatísticas de violência contra a população trans, vem por tabela.

Dentre tantos status que eu achava estar preparado para perder, o de poder ser amado ainda é um dos que mais me toca. Para mim, a negação do acesso à afetividade desencadeia todo o resto. Se houvesse afetividade para com as pessoas trans, talvez a transfobia não existisse.

Isso quase fez com que o ingênuo aqui concordasse com as gargalhadas do meu grupo de amigos. Mas foram tantas idas e vindas que eu percebi que no fim das contas o amor eterno existe sim, até para nós, pessoas trans.

Mesmo que um amor chegue ao fim daquele jeito que você o conhecia, esse amor muda e se reinventa em uma nova forma. E tomara que você o encontre sendo um amor eterno por você mesmo.