PUBLICIDADE
Topo

Noah Scheffel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Mercado de trabalho, turnover e diversidade

Ilustração turnover funcionários - Getty Images/iStockphoto
Ilustração turnover funcionários Imagem: Getty Images/iStockphoto
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

02/08/2021 06h00

Turnover é um termo que, relacionado às empresas, representa a rotatividade de pessoal com relação ao fluxo de entrada e saída de pessoas colaboradoras. Dito isso, e já que a pauta de hoje é mercado de trabalho, quero demonstrar para vocês o impacto que o turnover tem na diversidade e como acabamos ficando distantes da real inclusão das pessoas quando olhamos para essa rotatividade.

Já não é de hoje que grandes empresas estão pautando a diversidade como um pilar importante ao olhar para mercado de trabalho e pessoas consumidoras, entendendo que é fundamental termos times diversos para que as entregas e produtos cheguem a todas as pessoas da sociedade.

Nesse entendimento, as empresas começaram a entrar no jogo da diversidade por meio da contratação intencional de perfis de pessoas de recortes sub representados no mercado de trabalho: pessoas negras, povos originários, PCDs, LGBTQIA+. E essas pessoas realmente precisam estar trabalhando nas empresas para que o objetivo de ter produtos e serviços representativos seja atingido.

Porém aqui vem o problema do turnover. As empresas entraram no jogo da diversidade com o jogador reserva. O que quero dizer aqui é: começamos errado, não dando a devida importância para a pauta e a ordem dos fatores.

As empresas estão fazendo de tudo para cumprirem as suas metas de contratação, mas não se preocuparam em traçar metas e estratégias para permanência dessas pessoas na organização, o que faz com que as pessoas sejam contratadas e se deparem com um ambiente organizacional excludente, que não respeita ou comporta as suas subjetividades por ser excludente. Qual o resultado? Essas pessoas acabam por pedir demissão e buscar lugares em que se sintam e estejam em campo para ganhar.

Temos visto grandes empresas divulgando que contrataram tantos porcento de pessoas negras, que tais metas foram atingidas, enquanto as notícias são que essas pessoas não ficaram. E aí, está correto dizer que essa empresa se importa com diversidade, se ela não se importa com pertencimento e inclusão?

Ou seja, não adianta que as empresas tracem metas e estratégias para contratação, se antes não forem traçadas metas e estratégias para permanência dessas pessoas. Esse é o processo de inclusão, e sem ele, o turnover dos perfis de diversidade sub representados no mercado de trabalho, será gigante, pois são perfis de pessoas que já entenderam o seu valor, e não vão mais aceitar locais em que a diversidade seja tratada apenas como preenchimento de quota para sair no blog da companhia.

É necessário que existam planos de carreira para essas pessoas, planos de desenvolvimento, e que sejam disponibilizadas oportunidades em cadeiras estrategicamente representativas para que as pessoas possam crescer dentro da organização.
Mas o mais importante de tudo é que esse ambiente organizacional transforme suas metas de contratação em estratégia de inclusão das pessoas para que elas possuam dentro da empresa um nome, pois hoje são tratadas como um número.

A "guerra de talentos" já era uma preocupação com relação a perfis de pessoas hétero brancas cis no mercado de trabalho, e agora se torna mais uma bandeira vermelha para as empresas quando falamos em diversidade. Se já é difícil fazer com que uma pessoa que sempre teve acesso ao mercado de trabalho permaneça em um ambiente organizacional que é inclusivo para ela, imagine a dificuldade da organização em fazer permanecer uma pessoa que não faz parte deste privilégio de acesso a ambientes organizacionais excludentes.

Quando falamos de metas de contratação, estamos falando de números. Mas esses números não servem de nada se não estiver em jogo a inclusão que olha para nomes, não dados.

Diversidade nas organizações é jogo de final de campeonato, e quem tem que estar em campo são os titulares. E já que gostam tanto de números, está na hora da organização que anuncia "metas atingidas" em contratação de perfis diversos divulgue também o número de turnover relacionado a estes mesmos perfis. Pois para chegar no resultado final desse jogo, e saber quem ganhou o campeonato, a gente precisa saber também quantos gols o time adversário fez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL