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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem é feliz?

Quem é feliz? Ilustração de casal rindo - CSA-Printstock/Getty Images
Quem é feliz? Ilustração de casal rindo Imagem: CSA-Printstock/Getty Images
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

26/07/2021 06h00

Você já deve ter escutado, ou até mesmo reproduzido, alguma "piada" preconceituosa que normalmente desperta risos de todas as pessoas presentes pela ridicularização a respeito da vivência de uma determinada população.

E quando essa determinada população problematiza tais falas, "lá vem o mimimi". É o que dizem.

Aparentemente agora está tudo muito chato, e as pessoas não podem nem ser felizes rindo.

Já faz um tempo que eu tenho observado quem está rindo, e isso me fez querer falar hoje sobre essa tal felicidade. Afinal, outra coisa que dizem por aí, é que quem está rindo, está feliz. E aí eu acabei percebendo que por estar há tanto tempo observando o riso alheio, eu não estou rindo. Não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. E não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo também porque o que eu observo do riso alheio só me deixa cada vez mais preocupado. Ninguém preocupado consegue rir.

"Ah, deixa o outro rir em paz".

Deixo, penso aqui. Até porque, de que forma eu o estou impedindo disso? Ele segue. Talvez não na minha frente, mas segue.

"Vai querer que eu chore por causa da desigualdade, agora?!"

Talvez! Ou melhor, vou querer que você se responsabilize por ela e faça o que está ao seu alcance para diminuí-la.

"Tá, vai me dizer que eu não posso ser feliz então??"

Quem sou eu para te dizer isso.

Mas o que tenho para te dizer é que pare para observar quem está rindo. Os que riem são sempre os mesmos, e tantos outros permanecem em silêncio.

Riso é privilégio. E eu digo que é privilégio, porque se ele não fosse privilégio, ele seria para todos. Mas não são todos que estão rindo. Então se o riso é privilégio, e rir é sinal de felicidade, ser feliz é privilégio, correto?

E esse privilégio é de quem? De quem é o privilégio do riso frouxo, leve, despreocupado? Que assim como foi, vai e volta, recomeça, soluça, e não para, completamente livre, completamente solto?

E quem é aquele que ri de canto, esboçando um suspiro de aceitação, com um piscar de olhos pesado, quase como se engolisse a risada numa tentativa de fazer com que a felicidade ficasse trancada para sempre lá dentro? Afinal, qual a chance de isso acontecer de novo.

Tem uma música do Emicida que diz que a felicidade do preto é quase. E quantas pessoas que chegam nesse "quase" e ficam presas a ele por preconceitos estruturais. Esses, ainda reforçados pelo riso dos recortes de pessoas de riso frouxo.

Se você é uma pessoa negra, uma pessoa trans, uma pessoa com deficiência, uma pessoa cujo ?cis?tema não quer te ver sorrindo, você sabe, o seu riso carrega sempre um peso de preocupação. É um "quase".

Por isso que as poucas vezes que nos veem rindo em plenitude, é tão lindo. Porque conseguir rir em um país de tanto apagamento histórico, silenciamento, violência e preconceito, enquanto uma pessoa que tem esse acesso negado, é a representação da liberdade.

Mas repare que ainda assim, nestes casos, não se trata de "privilégio", e sim de "acesso". Acesso a algo que nunca quiseram que fosse seu, e que a qualquer momento eles te tiram. Privilégio seria se ele fosse definitivamente seu, e de todos os seus, também.

Então agora é a minha vez: vai dizer que eu não posso ser feliz?

Talvez você diga que eu sou invejoso. Afinal, eu acho que a felicidade do riso frouxo também deveria ser um "privilégio" meu, e não um "quase".

Mas se você me considera invejoso porque eu gostaria que a felicidade fosse para todas as pessoas, então eu preciso do fundo do coração te perguntar: você está rindo do quê?

Preconceito não é piada. Preocupação, também não.

E eu continuo não achando graça nenhuma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL