PUBLICIDADE
Topo

Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Era uma vez a sua história contada sobre você, sem a sua participação

Getty Images
Imagem: Getty Images
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

10/05/2021 06h00

Como podemos esperar que as pessoas evoluam socialmente, desconstruindo os preconceitos estruturais, e tornando a sociedade mais justa, se não desconstruirmos o que a sociedade diz sobre cada um de nós, desde a nossa existência, e que talvez nem sequer tenhamos percebido?

Quando você nasceu, antes do seu primeiro choro, já haviam te contado parte de quem você é. Já haviam te dado um nome, te designado um gênero, feito planos para o seu futuro, escolhido tudo aquilo que também acreditaram que seria melhor para você: e você teve zero possibilidades de dizer "não". Apesar de gritar no seu primeiro contato com o mundo, você já nasceu silenciado. E isso não é "culpa dos seus pais", até mesmo pelo fato deles terem passado pelo mesmo. É estrutural, ou seja, estruturas de poder (mesmo o cuidado que os teus pais têm sobre você, também é poder) seguem, gerações atrás de gerações, ditando como tudo deve ser, inclusive como nós devemos ser.

E esse ciclo de poder segue, na escola, quando te contam que você é agitado; na adolescência, quando te contam que você é rebelde; com os amigos, quando te contam que você é mandão, popular, ou não; no trabalho, quando te contam que você é incompetente; no relacionamento, quando te contam que você é insuficiente; na demissão, quando te contam que você não tem valor. Esses são alguns exemplos de tudo que te contaram sobre você, obviamente não com as mesmas características, mas que se você pensar bem, trocando os adjetivos, foi assim que a sua vida foi.

O mais preocupante de tudo, é que ela - a vida - ainda é. Mesmo depois de adultos e responsáveis pelas nossas histórias, as marcas de tudo aquilo que nos contaram nos acertam em cheio, apesar dessas histórias estarem longe de certas. As estruturas de poder, diretamente relacionadas ao privilégio de quem tem credibilidade para contar, continuam nos dizendo quem somos.

Dessa forma que você foi ensinado e assim você baseia sua vida, suas emoções e suas frustrações: agarrado àquela história que foi te contada sobre você. Pode agora te soar surreal, mas você baseia as suas próprias expectativas sobre você, em expectativas que nem sequer eram suas. Aliás, quando que você teve espaço para refletir sobre quais eram as verdadeiramente suas?

Mas você segue essa estrutura e serve de bandeja a sua autoestima na opinião das outras pessoas. E aí mora um perigo gigante. Você nunca foi, nem nunca vai ser, esse monte de "não existências" que te contaram. Esse não é você. Mas na sua vida toda foi te dito que esse era quem você era. E viver sob a pressão de ser quem não se é, é opressor, violento, e machuca.

Acreditar em tudo isso pode te machucar tanto a ponto de te levar a um extremo existencial onde você não é feliz, não sabe porque, não entende sentido nas coisas, na vida ou em você. Como se tudo que te atravessasse fosse um vazio, que te corta ao meio mas segue, não sem antes deixar a ferida aberta, fazendo o vazio em outra pessoa, que também tem uma história preenchida de quem ela não é.

Trago essas reflexões a partir do meu local e momento atual, principalmente, que foi quando me dei conta de tudo isso, por ter me encontrado em mais uma situação que me contaram que eu seria: uma pessoa em situação de desemprego porque o valor em que eu ousava acreditar que tinha, "era alto demais". Aquele argumento principal que usam, a carta na manga, para não precisar se envolver, e poder exercer o privilégio de te contar mais uma coisa sobre você, que você não é.

Dr .Tiffany Jana diz a seguinte frase em seu TEDx sobre um dos problemas do privilégio: quando a sociedade nos diz que você vale menos, é fácil de passar a acreditar nisso. E a nossa autoestima que é tirada da gente, como o nosso próprio protagonismo de descobrirmos quem somos enquanto trilhamos nossa jornada, e o não poder contar a nossa própria história, é refletida em depressão. É refletida na perda da fé em nós mesmos.

Inclusive, você já se questionou, nesse meio de histórias contadas sobre você por outras pessoas, quem veio antes na formação de quem você é verdadeiramente? Será que te contaram tanto sobre você que você passou a ser essa pessoa e reprimiu quem você é de verdade? Veja a estrutura de poder que existe sobre a nossa própria existência. Veja quantas vezes você teve o protagonismo roubado de contar quem você é porque talvez você nem mesmo saiba. A nossa sociedade é especialista em nos contar a história de quem nós somos, antes mesmo de podermos ser algo.

Não deixe.

Desconstrua tudo aquilo que te falaram sobre quem você é, a criança A, o adolescente B, o relacionamento C, o trabalhador D. Não deixe que digam quem você é. Não mais.

Encontre em você mesmo quem você é. Ainda que em tempos difíceis, assim como o meu, em que ainda tento lidar com a depressão da demissão contada por uma estrutura de poder que me resumia a uma palavra. Somos seres repletos de palavras. Palavras nossas, não dos outros. Não somos vazios e nem sem valor. O livro de nossas histórias não deve mais estar em poder de outras mãos que não as nossas próprias.

Entenda que esse exercício de poder também é estrutural, mas tente reparar em quem conta a história, e em quem acredita pelo resto de suas vidas que ela é verdade, e passa a vida em busca de uma felicidade que não vai chegar, pois foi especialmente desenhada por outra pessoa para você, e não por você.

Sei que não é simples. Sei que justamente por essa estrutura de poder, onde alguns "têm esse direito" de nos dizer quem somos, desacreditar de tudo isso e não deixar que impacte em sua vida pode ser o maior esforço que você já teve de fazer. Para mim é e está sendo. Mas não estamos sozinhos. Somos milhares, talvez milhões de histórias contadas por outras pessoas. Milhões de pessoas infelizes porque ainda tentam trilhar por caminhos que lhes foram entregues como único, sem que tivéssemos chance de perceber.

Descubra quem você é para poder ser livre. Desconstrua tudo que te fizeram acreditar para poder contar a sua verdadeira história e encontrar a felicidade. E quando conseguir, não deixe nunca mais alguém te tirar esse protagonismo.

Que você possa contar a sua própria história, e que assim ela tenha um final feliz. Isso é o que eu desejo pra você, assim como também desejo para mim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL