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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando bater a vontade de ir a um restaurante, doe comida para quem não tem

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

26/04/2021 06h00

Você já reparou a diversidade de restaurantes com comidas tradicionais de outros países disponível ao seu dispor para pedidos em tele-entregas? Com alguns toques em aplicativos ou mensageiros instantâneos você escolhe a sensação, o gosto e o cheiro que, através do seu paladar, podem te levar para qualquer lugar do mundo. Inclusive para casa, se você estiver distante dela.

Quando nossa relação com a alimentação se dá de forma saudável entre o corpo e a mente, o próprio ato de nos alimentarmos nos traz uma sensação de aconchego. Então, só de escolher o restaurante no aplicativo, você tem a capacidade de criar um vínculo entre o aconchego de sua própria casa e a sensação de estar em qualquer lugar que você quiser ir.

Com toda certeza essa sensação não se compara à experiência de estar de fato neste local, ainda que seja desfrutando de uma refeição igual. Porém, em tempos de isolamento social, avalie a magia que é este simples "poder desfrutar". Veja o quão distante você se encontra de realmente viajar tranquilamente para um país desejado, de jantar em um restaurante tão comum para este local, mas tão exótico para nós. E, ao mesmo tempo, o quão perto você está deste lugar através dos seus sentidos, e do privilégio que é essa aproximação ainda que continuemos distantes.

E a oportunidade de podermos trocar de país a cada refeição!? E experimentarmos a volta ao mundo em poucos dias. Já pensou? Ou até mesmo a chance de darmos a volta no próprio bairro e fortalecermos os produtores locais, experimentando sabores que estavam ao nosso lado, mas que nunca antes nos chamaram a atenção.

Se formos pensar então que a alimentação de qualidade é um direito humano, e que segundo estudo 125 milhões de pessoas no país estão em situação de insegurança alimentar, a realidade de termos acesso à qualquer alimento, da cultura que for, é sim um grande privilégio.

O curioso é que em contrapartida a estes dados, se desfocarmos dos aplicativos e olharmos em volta, vemos muitas pessoas que se encontram nessa situação tentando nos convencer que de fato a fome existe e que o que ela nos diz é verdade, com placas e caixinhas, percorrendo as ruas entre nós ou simplesmente jogadas em algum canto. Esse cenário com toda certeza não faz parte da sua imaginação de viagem sensorial ideal através do seu paladar para um país desejado. Este, honestamente, não é o país desejado. Nem o que estas pessoas merecem para si. Você nem precisa olhar tão atentamente para alguma dessas pessoas para perceber que a boca está seca, e a barriga vazia.

Não acredito que ela realmente precise te convencer do que sente. Mas tente lembrar da sensação ao fim de um dia corrido, quando teve de pular o almoço para poder terminar um relatório ou se preparar para uma reunião. Agora imagine como deve ser fazer isso em várias refeições, sem ter a certeza de que na próxima você vai ter o que comer.

E se voltarmos para casa, para o nosso aconchego particular com fácil acesso a todas as possibilidades de alimentação disponíveis, e repensarmos como podemos ser os agentes de viagem para que essas pessoas possam ter também a oportunidade de um direito básico e tão primordial para sua existência?

Veja o poder que você tem em mãos: retirar um bilhete extra para um outro assento, e voar na companhia de quem nunca viajou de avião antes! Vislumbre a empolgação da partida, o arrepio na decolagem e a esperança no caminho. Imagine até a pressa do desembarcar. O destino desse bilhete extra é o país chamado "barriga cheia". Esse país que fica ali, ao ladinho do país de nome "felicidade", dentro do continente "gratidão". O nome do assento no avião? Vida.

A próxima vez que você for fazer aquela viagem a um restaurante tradicional de outro país, ou do seu próprio bairro, seja a ponte aérea entre a comida e a fome. Leve alguém para jantar com você: uol.com.br/doe

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL