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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não sei dançar, e todo mundo entendeu errado sobre diversidade e inclusão

Getty Images
Imagem: Getty Images
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

22/03/2021 06h00

Definitivamente 2020 foi o ano em que a pauta da diversidade estourou entre as organizações brasileiras. Compromissos firmados, pisadas de bola, ações para remediar, a busca por pessoas em recortes sub-representados, a preocupação em criar programas atrativos, e o boom das consultorias.

Assim, "do nada", não foi. Eventos trágicos potencializaram a importância da pauta.

Mas lá está você de frente para uma consultoria especialista, representando sua empresa. Na lição número um sobre diversidade, certamente escuta a ótima frase: "diversidade é convidar para a festa, inclusão é chamar para dançar" — uma citação de Vernã Myers. O intuito dela é demonstrar que mesmo estes dois conceitos tendo sido entendidos como uma única coisa, são, na verdade, ideias que se relacionam, porém possuem significados diferentes.

Existe uma relação de codependência nos dois conceitos, e Myers demonstra numa frase curta como se dá essa relação. Então, simples assim, você sai da aula número um satisfeito com a consultoria, e com o entendimento de que tudo que você vai precisar é contratar pessoas diversas, e que essas pessoas vão precisar ser incluídas.

Se é tudo realmente assim tão simples, por que há tanta dificuldade para que os programas de diversidade tragam resultados? Mesmo quando a organização faz investimentos para trazer talentos diversos e se compromete frente ao mercado com metas e prazos, ainda assim não chega aonde gostaria: o quadro de pessoas colaboradoras ainda não reflete a demografia do país, e a rotatividade é grande. Parece que os esforços são em vão, porque ninguém fica, ou ninguém vem.

Aliás, peço permissão para atrapalhar as suas aulas, mas é porque eu também tenho algo para te ensinar: ambiente diverso é aquele que reflete a demografia de marcadores sociais do país. Se o ambiente não é um retrato da diversidade da sociedade, em seus percentuais e particularidades, ele não é de fato um ambiente completamente diverso.

Mas retomando as aulas... Pois bem, Myers te ensinou a primeira lição, e você entendeu a diferença dos dois conceitos, diversidade e inclusão. Mas muito provavelmente, em nenhuma das tuas aulas seguintes com aquela consultoria, te disseram que a lógica está invertida. E diferente de uma conta matemática, a ordem dos fatores aqui altera, sim, o produto.

Você fez tudo que te disseram que era o certo: contratou pessoas em recortes diversos e sub-representados, fez compromissos públicos com a pauta, criou grupos de afinidades, treinou seu RH para contratar pessoas com determinados marcadores, criou bancos de talentos. E, sim, tudo isso aí que você fez, deveria mesmo fazer. O problema é que você começou a festa cedo demais.

Aqui está a sua nota zero: Você começou a festa, chamou as pessoas, mas não percebeu que tem muita gente que não sabe dançar.

E se eu não sei dançar, não tenho porque ficar na sua festa.

Então o que acontece é um esforço gigantesco para a organização tentar manter a diversidade, afinal tem muito investimento envolvido ali. Mas a diversidade que não sabe dançar continua procurando outro lugar para se divertir.

A organização lutando para reter talentos, a consultoria te dizendo que sabe como fazer isso, e você acreditando. Você acreditando naquela mesma consultoria que te deu a primeira lição e esqueceu de te dizer nas próximas lições que diversidade e inclusão não são uma simples aula de matemática, de porcentagem num quadro de funcionários. Afinal, se você repetir de ano, você paga para eles de novo.

Myers foi cirúrgica ao explicar a diferença dos conceitos de diversidade e inclusão. Mas você entendeu que era só isso. E fez na ordem que estava escrito na apostila.

Diversidade não fica em lugar nenhum se neste lugar não houver, primeiro, processos que permitam a sua inclusão de forma natural. Entender isso é entender que muitas pessoas não sabem dançar, e antes de convidar as pessoas, o seu salão vai precisar estar adaptado para outros tipos de divertimento que não exclusivamente a dança. Focar só em quem sabe dançar, é focar em um único público-alvo. E isso não tem nada de diverso, muito menos de inclusivo.

Mas aprofundo ainda mais a discussão sobre a diversidade que você tem e o seu esforço em tentar mantê-la "retendo talentos", como te ensinou a consultoria. Vamos deixar o erro da matemática de lado por um momento para eu te levar para o português, mostrando os sinônimos de "reter": prender, reprimir, aferrar, agarrar, amarrar, segurar com firmeza.

Esse não é o tipo de inclusão que você gostaria de promover, tenho certeza. Você não precisa que os talentos fiquem amarrados para mantê-los na sua organização.

O que você precisa fazer é preparar a festa antes de convidá-los. Você já os imaginou entrando no seu salão de festas e encontrando diversas alternativas, que não só a dança, que os engaje a querer permanecer lá? Pronto, aqui é nota dez.

Diversidade não é só convidar para a festa, é permitir que quem não sabe dançar, possa se divertir também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL