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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A exclusão por trás de ações inclusivas

Getty Images
Imagem: Getty Images
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

08/03/2021 04h00

Na data em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, gostaria de trazer uma reflexão sobre de quais mulheres estamos falando, partindo principalmente do maior marcador de inequidade frente a uma sociedade estruturalmente machista: o acesso ao mercado de trabalho.

Há anos os movimentos feministas vêm trabalhando por igualdade de acessos, direitos e oportunidades para as mulheres quando se trata de equidade de oportunidades, cargos, salários e protagonismo. E essas ações têm demonstrado resultado quando mais organizações e empresas se engajam nestes movimentos, pois entendem o valor que o marcador de equidade de gênero traz para o ambiente de trabalho quando as operações se tornam mais humanas, sustentáveis, responsáveis, criativas, inovadoras e estratégicas. É fato: quanto mais diverso for o ambiente de trabalho, mais engajadas estarão as pessoas colaboradoras, e mais representativos serão os produtos e serviços oferecidos.

Porém, quando pautamos essa luta feminista por equidade dentro do mercado de trabalho, é preciso pensar também de quais mulheres estamos falando. Mesmo dentro do recorte de gênero, existe uma inequidade de oportunidades, como o acesso à educação, que, querendo ou não, é o balizador para que as mulheres consigam posições dentro do mercado e para que consigam também crescer em seus cargos e serem protagonistas de suas jornadas.

Dentro deste recorte do feminino existe um abismo que difere as oportunidades de acesso que as mulheres trans e travestis possuem com relação à educação e isso tem um impacto negativo gigante na falta de representatividade delas no mercado de trabalho e em carreiras organizacionais.

A estimativa é de que apenas 0,02% das mulheres trans e travestis chegam à graduação por motivos de preconceitos da sociedade que atingem desde muito cedo a existência delas. Precisamos já partir do entendimento de que é a falta de oportunidades de uma vida digna que coloca essas mulheres às margens de acessos que nos parecem tão básicos, mesmo quando fazemos um paralelo com os acessos que mulheres cis possuem. Ainda que todas sejam vítimas de um sistema patriarcal, que oprime a todas, os níveis de opressão são diferentes quando pensamos de forma interseccional. Se ser mulher cis no ambiente de trabalho ainda é uma luta constante por equidade, ser mulher trans dentro do ambiente de trabalho ainda é uma luta por pertencimento, visto que a estimativa é de que apenas 4% delas estejam formalmente empregadas.

Mas voltemos à questão das organizações terem entendido o valor da diversidade dentro de suas equipes e dos movimentos que estão sendo realizados com relação ao protagonismo das mulheres e de suas carreiras. O mês de março tem sido representado pelas empresas como um potencializador de ações de inclusão das mulheres. Porém, justamente por não haver um entendimento das diferentes realidades dessas mulheres, conseguimos identificar dentro de iniciativas inclusivas de diversidade um esquecimento de subjetividades que faz com que as ações não sejam interseccionais e deixem de fora mulheres que fujam do padrão do buscado por essas ações, aquelas que possuam graduação, que são socialmente lidas como potenciais executivas através da sua expressão de gênero e aparência, que são brancas, e que são cisgênero. E não estou dizendo aqui que essas mulheres não devem possuir as oportunidades de equidade de gênero dentro do mercado, muito pelo contrário, é um direito delas, sim, mas é um direito das demais mulheres também. O que estou pautando é a falta de entendimento dessas ações inclusivas de que existem camadas sociais dentro de cada recorte, o que faz com que uma grande parcela não tenha acesso a estas oportunidades.

Iniciativas inclusivas para promover a equidade de gênero nas organizações devem levar em consideração a equidade de oportunidades que as mulheres tiveram olhando para as subjetividades delas e suas diferenças. Do contrário, não encontraremos a diversidade dentro deste grupo, e o que acreditávamos ser uma ação inclusiva acaba por se tornar uma ação excludente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL