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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não vamos sair os mesmos disso tudo

Aleh Varanishcha/iStock
Imagem: Aleh Varanishcha/iStock

M.M. Izidoro

30/10/2021 06h00

Faz milhares de anos que filósofos estão discutindo um problema — e se você conhece filósofos, você sabe que algumas discussões, por mais curtas que sejam, parecem durar milhares de anos mesmo. Brincadeira, filósofos, amo vocês! — que se chama "O Navio de Teseu".

Resumidamente, a pergunta feita aqui é a seguinte: se você sair de um porto com um navio e trocar todas as madeiras dele antes de chegar ao próximo destino, o mesmo navio que saiu é o que chegou nesse novo porto?

Existem algumas variações dessa ideia, como a máxima, "Você nunca entra no mesmo rio duas vezes".

A gente pode passar um tempão discutindo essa questão — pois até na cultura pop ela apareceu, como quando o Vision fala sobre ela no episódio final do Wandavision — e vai ser difícil chegar em um consenso, pois o que está sendo colocado aqui é sobre o que importa: o navio físico ou a ideia do que consideramos ser o navio.

Eu quis escrever sobre essa questão, pois nesses últimos meses ando me fazendo muito uma pergunta que é similar a essa: "Ao perdemos tanta coisa, seremos as mesmas pessoas do outro lado disso tudo?".

Todos os seres são uma espécie de navio que navega nesse mar da existência entre o porto do nascimento e o porto da morte. Na nossa jornada, nossas células e nossas ideias se multiplicam e mudam várias e várias vezes. Então a gente acaba morrendo sendo outra pessoa do que a gente era quando nasceu. Mas a gente continua ainda sendo a gente. Ou a ideia do que é a gente.

E agora tu tá entendendo por que é uma pergunta que é difícil de responder, né?

Mas quase sempre a gente tem uma constância nessa mudança. Nossas células se renovam ordeiramente, e quando não fazem temos doenças como câncer e similares. Até nossas ideias tomam um tempo para vingar, afinal estamos vivendo as histórias que foram criadas por pessoas centenas de anos atrás e ainda não as mudamos muito.

O problema é quando essa mudança é brusca e a coisa muda de uma vez só e, assim como o câncer, normalmente a coisa pode dar ruim.

É isso que eu tô sentindo que está acontecendo com a gente nesses últimos anos, e obviamente nesses últimos dois anos pandêmicos. Os movimentos e mudanças que estão acontecendo estão nos obrigando a mudar mais de uma tábua de madeira ao mesmo tempo nesse nosso navio e a gente não está dando conta.

Principalmente a gente não está dando conta das coisas que estamos perdendo — e mesmo que essas coisas não sejam essenciais, ainda assim é uma perda.

Seja perdendo nossa liberdade e tendo de ficar quarentenados em casa. Seja perdendo nosso poder de compra por causa da inflação e de uma política econômica desastrosa. Seja perdendo nosso horizonte de futuro, ou nosso planejamento, pois os pilares da sociedade estão mudando e a gente ainda não sabe para onde ir. Mas é também porque perdemos nossos amigos, nossos familiares, nossos amores e afetos.

Andamos perdendo muito e toda perda gera um luto.

Na psicologia existe a ideia dos cinco estágios do luto, que são negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

Nesse exato momento eu sinto que estamos coletivamente no primeiro estágio, a negação.

Seja a negação de que precisamos tomar vacina ou usar máscaras para a pandemia acabar logo. Ou que os modelos sociais e culturais estão mudando drasticamente. E até que nós não temos culpa por coisas que são nossa culpa, como a crise climática.

É pela negação que estamos reabrindo as cidades e os países no meio de uma pandemia que não acabou. Que estamos indo para festas e voltando para o trabalho presencial como se estivesse tudo bem, quando ainda tem dois aviões cheios de pessoas morrendo todo dia por causa dessa doença.

O que eu tô pensando é o que acontece quando a gente chegar no próximo estágio, a raiva.

Já deu para ver um pouco disso nos Estados Unidos quando invadiram o Capitólio e tudo que está acontecendo por lá. Devemos ter algo assim aqui também no ano que vem por causa da eleição. Vão alimentar muito esses sentimentos todos e as pessoas que não conseguirem perceber seus processos internos vão comprar essa briga para elas. Imagino que muitas até de forma violenta. Seja para qual espectro político for.

E por isso que essa questão do Navio de Teseu tem mexido muito comigo.

Eu cada vez mais acho que a pandemia não vai fazer a gente melhor - e até já escrevi lá atrás como nunca acreditei na ideia do novo normal - mas ela vai acelerar uma mudança estrutural que já estava acontecendo há muito tempo. Seja na automação dos trabalhos (robôs não pegam corona), seja no balanço de poderes mundiais (a China dominando no lugar dos EUA), seja nas tradições sociais (de comer carne até ser definido pelo seu trabalho), seja em como a gente vai se relacionar um com o outro quando grande parte das coisas que a gente conhece mudar e isso fizer a gente mudar junto.

Claramente nossos navios não vão sair dessa tempestade com as mesmas tábuas que entraram. Mas a gente não pode esquecer que ainda sim, eles são o mesmo navio mesmo que os pedaços deles sejam novos.

Temos muita água turbulenta para navegar ainda e se tem uma coisa que eu peço para você que está lendo isso é que cuide de você — do seu corpo físico, mental e emocional —, porque vamos precisar do máximo de pessoas bem quando tudo isso aqui passar.

Porque, mesmo passando pela raiva, ainda temos que passar pela negociação e a depressão, antes de chegarmos na aceitação. Mas vamos chegar e vamos chegar melhores se chegarmos juntos e saudáveis.

Não vamos sair melhores, mas vamos sair diferentes e espero que essa diferença leve todos nós para águas muito mais tranquilas de navegar do que as que estamos navegando hoje.

Essa é a minha última coluna deste ano. Volto em 2022 e, até lá, se cuide, cuide de quem você ama, use máscara e brilhe muito, porque se você já viu alguma palestra minha, tu sabe que se todo mundo brilhar um pouquinho, a gente vira uma constelação e nada e nem ninguém vai apagar nossa luz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL