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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

11 goleiros não fazem um jogo bom

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Imagem: iStock

M.M. Izidoro

25/09/2021 06h00

Imagine por um momento que você é todo coração.

Isso mesmo, que literalmente todas as células do seu corpo se transformaram em células cardíacas, e do topo do fio do seu cabelo até a ponta do seu dedo do pé, tudo agora é uma coisa só.

Você acha que sobreviveria ou que seu corpo funcionaria de algum jeito?

Agora imagine uma floresta inteira em que todas as milhares de diferentes plantas se transformam em apenas uma. A partir de agora, todas as plantas são bananeiras. Pra todo lado que você olhar, onde antes havia uma infinidade de espécies, entre a grama mais baixa e o coqueiro mais alto, agora é tudo banana.

Você acha que a floresta iria se desenvolver? Que a vida como a gente conhece teria chance de viver em um ambiente assim?

Assim como um corpo precisa de diversos tipos de células e órgãos para continuar vivo, e um ecossistema precisa de diversos seres vivos que vão de plantas até animais, nada que é uma coisa só prospera.

A gente precisa da variedade, da variedade e da pluralidade para fazer a maioria dos sistemas complexos que a gente conhece funcionar.

Se o corpo não pode ser só coração, se a floresta não pode ser só bananeira, por que a gente anda imaginando que a sociedade tem de ser uma coisa só?

Faz algum tempo que alguns grupos de pessoas acham que são melhores que outros e que só o seu deveria existir.

Um modo de vida. Uma cor de pele. Uma cultura e costumes.

Mas o que eles deixam de ver é que isso não poderia estar mais errado, pois ao garantir que só um grupo sobreviva, eles acabam destruindo o que faz o sistema inteiro forte, que é a pluralidade total.

Pensa comigo, se você está lendo isso agora sentado na sala da sua casa em um apartamento confortável classe média em alguma grande capital do país, você não iria se aventurar sozinho pelo meio da floresta amazônica. Você iria procurar alguém que viva lá para te guiar, pois eles têm o conhecimento necessário para se manterem vivos naquelas terras.

A mesma coisa se você está lendo isso no sertão nordestino e for passar o inverno nas montanhas do sul do país. Antes da primeira geada, você já vai ter falado com alguém que te mostrará o melhor jeito de se proteger do frio e do gelo.

Da mesma maneira que se a gente se transformar inteiro em um dos órgãos mais importantes do nosso corpo não nos manterá vivos, deixar uma só cultura também não vai. Porque é na diferença que a gente se apoia para sobreviver como esses mamíferos semi peludos que somos.

Nós hoje na sociedade ocidental temos uma ideia que o conhecimento bom é aquele fossilizado em palavras em livros e artigos físicos ou digitais. Que essas palavras e ideias são sagradas e muitas vezes representam a verdade absoluta e imutável de tudo que existe e existirá.

Ainda mais com Googles e assistentes de voz nos dando respostas em milissegundos para todas as nossas dúvidas, parece que a gente sabe de tudo.

Mas isso está longe da verdade.

Nós estamos aqui hoje porque todos nós carregamos um pouquinho de todo conhecimento humano que já existiu, e estamos juntos descobrindo o conhecimento que virá.

A raça humana é talvez o maior computador que já existiu e nossas cabeças juntas são o maior HD.

A gente persiste porque hoje tem milhões de pessoas que vivem na neve, outras milhões no deserto, mais outras milhões em cidades e por aí vai. E cada uma carrega um conhecimento que será útil para a próxima pessoa que viverá ali depois dela, e, consequentemente, levará nossa espécie um pouquinho mais longe.

Isso inclui tudo que é diferente. Seja a cor da pele, a sexualidade, o gênero, o sexo, a idade ou o que seu corpo é capaz de fazer ou não, todo mundo guarda dentro de si o segredo da sobrevivência, não só dele mesmo, mas de toda a humanidade. Pois nós não passamos por nada sozinhos, e tem milhões de outros seres que podem aprender com a gente e a gente com eles.

Como diz Tyson Yunkaporta, "se você quer ver o padrão da criação, fale com todo mundo e escute com atenção".

Escutar e comparar nossas histórias com a do outro é o que faz chegarmos perto do que é real de verdade. Nossas histórias e nossos corpos são células nesse imenso corpo que é nosso planeta. Cada uma com seu papel específico e essencial. Assim como o coração, o fígado e o cérebro são para nosso corpo físico, ou a bananeira, o coqueiro e a sumaúma são para a floresta, cada indivíduo tem um papel essencial no coletivo.

E acabar com isso é acabar com a espécie.

Existem utopias higienistas em que todos nós somos iguais e supremos. Quase sempre temos nossas peles e olhos claros, cabelos loiros, somos fortes e sempre felizes.

Mas como toda utopia, ela também é uma distopia.

Pois todos aqueles que não são isso, tem de ser exterminados, e suas histórias escondidas pois eram impuras.

Fizeram isso no passado com os povos originários, com judeus, fazem ainda com muita gente por elas serem gays, pretas, indígenas e pobres. Fazem por religião, por não seguirem os mesmos costumes ou porque algum líder político falou que tinha de ser assim e ninguém contestou.

A única maneira de termos uma chance de continuar é a gente dialogar, mas principalmente, a gente se ouvir.

É a gente tentar sentar em volta da fogueira, cada um do seu jeito, é conversar e aprender.

É a gente ver que o diferente é só isso: diferente. Não é melhor e nem pior. Só não é o que estamos acostumados e tá tudo bem, porque o diferente também não está acostumado com a gente.

Como eu escrevi na minha última coluna aqui, a gente anda sendo muito babaca. E nossa maior babaquice é acharmos que existe eles e a gente. Que tudo são times e lados opostos, quando claramente a melhor maneira da gente ir pra frente é cada um trazendo o que tem de melhor, não negando que o outro tem é diferente e, portanto, não conta.

Eu tenho a teoria que praticamente todos os problemas que estamos passando já têm solução, a gente só não está dando oportunidade das pessoas, ou outros seres do planeta, serem ouvidas, pois o homem branco fala alto e fala com palavras de ordem.

Existem, ou já existiram, povos indígenas que assumiam que mais de dois gêneros poderiam existir. Eu mesmo falei com um descendente de um povo norte-americano que em suas aldeias tinham pessoas com cinco sexos diferentes, pois eles entendiam o papel de ter pessoas diferentes para fazerem coisas diferentes para todos. Até que veio o homem branco temente a um Deus violento e sanguinário e acabou com isso, pois como que um povo que vivia ali a milhares de anos poderia estar certo, sendo que só eu tenho a verdade?

Agora nós somos os descendentes desses caras muito loucos e surdos que estão destruindo a Terra e nos matando junto com ela. Queremos comer no verão brasileiro a mesma coisa que nossos influenciadores favoritos comem na Europa durante o inverno. Queremos ter o mesmo celular. Vestir a mesma roupa. Falar do mesmo jeito. Ver os mesmos filmes. Ler os mesmos artigos. Xingar as mesmas pessoas no twitter. Matar os mesmos comunistas de sempre.

Todo mundo igual. Não importa se estamos na Sibéria, no Saara ou em Santa Rita do Passa Quatro.

E se continuarmos assim, todo mundo igual, contando a mesma história, logo mais não vamos ter mais história para contar.

A pluralidade é essencial pro nosso corpo, pra nossa alma, pra nossa floresta e pra estarmos vivos.

Da mesma maneira que você não veria um jogo de futebol em que os 11 jogadores são goleiros, não dá para imaginar um mundo que seja tudo um tipo de gente e bicho só.

A gente tá tudo preso nessa bola azul redonda flutuando sem rumo no espaço, juntos. Não tem pra onde fugir.

Então que tal tu sentar aqui do lado nessa fogueira quentinha e contar sua história, pois eu acabei de contar a minha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL