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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Estamos todos sendo um pouco babacas

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Imagem: iStock

M.M. Izidoro

11/09/2021 06h00

Você já percebeu que ultimamente todos nós estamos sendo um pouco babacas?

Eu não sei se isso é culpa da rede social que nos escondeu por trás de arrobas e caixas de comentários. Pode ser até culpa da pandemia que nos escondeu por trás de mascaras.

Não importa, no geral, a gente anda bem babacão.

Seja quando a gente não concorda com o que alguém falou ou fez. Seja por que a gente não gosta de como alguém se veste, que Deus cultua ou que língua fala. A cor da pele. O sexo ou gênero. Às vezes é o simples fato da pessoa existir que nos incomoda.

Se a gente não gostou, a gente acaba fazendo babaquice com a pessoa.

Pior ainda que essa babaquice hoje está se expandindo pra como a gente trata tudo. Olha só o que estamos fazendo com o planeta! Tem algo mais babaca que destruir a própria e única casa?

Antigamente a gente ainda tinha um certo pudor de ser babaca com alguém pelas suas costas. Mas hoje a gente deixa a pessoa saber que a gente acha ela horrível com uma mensagem que vai direto pro celular dela.

A gente nem espera uma resposta. A gente só fala o que pensa e continua vivendo para ser babaca com a próxima pessoa que cruzar nosso caminho.

Para a gente não vai acontecer nada. Mas para a pessoa com a qual a gente foi babaca... Pode ser o começo do fim da vida dela. É como diz o ditado: "Quem bate esquece, quem apanha não".

Mesmo estando no Setembro Amarelo, esse não é um texto que vai falar que bullying e cyberbullying são errados e levam a depressão e até ideações suicidas. Isso vocês já devem saber e tem conteúdos incríveis sendo feitos sobre isso em todo lugar. Eu mesmo fiz dezenas de vídeos e posts sobre isso lá no meu projeto de saúde mental #EuEstou.

Esse texto aqui é sobre como eu ando pensando muito nessa babaquice generalizada que virou nossas vidas.

Parece que estamos vivendo numa eterna briga de torcida de futebol. É esquerda contra direita. Carnívoros contra veganos. Android contra iPhone. Preto contra branco. Capitalismo contra crise climática. Governo Federal contra todo mundo. É todo mundo se batendo e se xingando toda hora e em todo lugar.

Parece que nossa sociedade está vivendo um momento que ninguém quer ficar de boas, a gente quer é achar que estamos certos. Custe o que custar.

E isso tem um preço tão alto para pagarmos, pois, no fim, tudo isso que a gente tá brigando vai passar. Empresas quebram, governos mudam, ideias sociais são alteradas. Mas a destruição e a dor sempre ficam.

Eu não acredito muito na ideia de país, mas acredito na ideia de nação. A diferença é que país é um espaço geográfico determinado, e nação é um grupo de pessoas que se juntam e convivem por causa de uma identificação em comum. Assim, nem toda pessoa que nasce no Brasil — que é o país — acaba se identificando com o que é ser brasileiro — que é a nação.

Faz tempo que a gente já está se organizando de maneiras que esquecemos das fronteiras físicas. Quantas pessoas do Brasil todo fazem parte da Nação Rubro-Negra que torce pro Flamengo? Quantas pessoas são otakus e curtem desenhos japoneses? Foodies e gostam de comida? E mais todas as outras nacionalidades que estão se formando por causa da Internet e do seu poder de amplificar toda e qualquer voz.

O problema que faz a gente babaca é a gente achar que só nossa nação está certa. Que só nosso grupo tem as respostas, e todas as outras estão erradas. É a gente se cercar de pessoas que só concordam com a gente e reforçam uma só ideia.

Nada na natureza funciona se tiver uma coisa só.

Nenhum bioma sobrevive se tiver apenas uma espécie de ser vivo. Mesmo com uma espécie querendo devorar a outra para sobreviver, a gente precisa de vários tipos de seres para que tudo se equilibre e fique bem.

É a flor que vai ser polinizada pela abelha. É a árvore que nasceu da semente que foi comida pelo macaquinho. É o peixe que limpa os dentes do tubarão. É tudo que morre para adubar a terra e dar vida para tudo de novo.

Na natureza é extremamente necessário ter uma pluralidade de ideias, formas, corpos, alimentações, cores e vidas para que tudo prospere. Por que a gente tem a pachorra de achar que com a gente vai ser diferente?

A gente acaba sendo babaca com o mundo e principalmente com a gente que vai ter de viver num mundo terrivelmente chato, violento e sem vida.

Uma das histórias que eu penso muito quando penso nisso tudo é uma que eu ouvi na África do Sul sobre o Mandela.

Mandela ficou preso por 27 anos por ser um líder negro durante o regime do apartheid, que foi um dos grandes exemplos da História do que acontece quando um grupo acha que é superior ao outro, e acaba sendo babacões num nível que causa mortes e acabam com um pais por anos.

Quando ele saiu da prisão, Madiba — nome carinhoso pelo qual Mandela era conhecido — tinha tudo para ser uma pessoa amarga e puta com a vida. Mas não, ele acabou saindo e virando aquele velhinho sorridente e dançarino que só usava camisas largas e estampadas que a gente tanto lembra.

Quando ele virou presidente da África do Sul alguns anos depois, e propôs que a Africa do Sul virasse a Nação Arco Íris, onde todas as cores tinham chance de prosperar, na sua inauguração ele levou alguns dos guardas que trabalhavam nas prisões que ele fico, cujo o trabalho era vigiar Mandela e os amigos pretos dele.

Perguntando o por quê, ele diz que os guardas estavam presos nas prisões tanto quanto os condenados, principalmente na prisão na Ilha de Robben, e que chegou uma hora que eles não tinham mais nada a fazer a não ser conversar. Foi assim que aqueles guardas que acreditavam na supremacia da raça branca conversavam com pretos, e como os pretos revolucionários conversavam com os inimigos do sistema.

Foi assim que, ouvindo os dois lados, Madiba viu que eles dividiam muito mais semelhanças do que diferenças. E daí ele teve a ideia de que dava para dar um jeito no país dele. Era só todo mundo conversar e ter esse objetivo em comum, assim como ele fez na prisão com seus guardas.

Claro que é essa é uma visão romantizada e reduzida da história toda, já que Mandela e outros presos políticos sofreram um monte na mão do governo Africâner. E, sendo transparente, eles também fizeram algumas coisas bem intensas para conseguirem sobreviver nesse estado de exclusão que era a África do Sul do século XX.

Mas tem uma coisa na história que me fascina, que é o fato de que por trás de toda violência e babaquice, existe uma crença, que é apenas isso, uma crença. E que se a gente sentar para conversar a gente vai ver que, na verdade, queremos a mesma coisa e precissamos um do outro para conseguir.

Mas nossa crença não deixa, e acabamos sendo babacas logo de cara antes de ter qualquer diálogo.

Se dois lados tão extremos como os pretos e os brancos da Africa do Sul do Apartheid conseguiram isso, eu acho que a gente consegue também.

Buda mesmo falava que uma corda de um instrumento solta não faz som, e muito apertada estoura. Ela só vai fazer o som certo se tiver tensionada com a força certa. No caminho do meio entre o muito e o pouco.

Talvez seja isso que esteja faltando para gente. Um caminho do meio. Um diálogo. Uma afinação em comum para esse grande instrumento que é a raça humana, que é só mais um instrumento da grande orquestra cósmica que é a existência.

A gente não vai conseguir alcançar esse caminho do meio em 280 caracteres, em comentários em notícias de portais ou em áudios e grupos de apps de mensagem. Isso vai ter de ser no olho no olho. Vai ser a gente sentindo na pele o resultado de tanta separação. A gente vai passar fome, calor e frio extremos, sede com o fim da água potável e mais várias outras tragédias anunciadas que fomos babacas em não dar atenção. Agora chegou nossa vez de lidar com elas.

No caos, vamos ter de parar de ser babacas só para continuarmos vivos.

E eu fico pensando se não seria bom já começar agora, porque já está muito difícil viver tendo de ser babaca para aguentar tanta babaquice todo dia por ai.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL