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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O maior culto do mundo é o trabalho

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

M.M. Izidoro

14/08/2021 06h00

Em uma passagem do seu poema "Os Comedores de Lotus", o poeta inglês Lord Tennyson escreve, "A morte é o fim da vida; ah, por que deveria ser toda a vida o trabalho?".

Muito provavelmente você já se perguntou isso quando acordou com aquela vontade de ficar na cama em uma terça-feira fria ou sair para aproveitar o parque do lado do escritório numa tarde de primavera. Também nas vezes que seu filho ou sua mãe estavam doentes e você teve de ir para aquela reunião importantíssima com o gerente da matriz e com certeza quando seu chefe te humilhou do nada para fazer panca para o chefe dele.

Eu mesmo penso muito nisso. Praticamente todo dia. Principalmente agora, no exato momento que escrevo esse texto depois, de um dia longo no meu trabalho "normal" e que continuo trabalhando para o UOL, mesmo só querendo ver uma série qualquer no streaming. Mas não, eu vou focar e vou acabar esse texto, afinal a morte ainda não chegou e ultimamente a vida é o trabalho.

A pergunta que eu mais me faço é: por que a gente trabalha tanto? Porque a gente acaba gastando nossa energia física e mental fazendo algo que a gente nem gosta para conseguir algo que de verdade não serve pra nada que é o dinheiro.

A gente não pode comer o dinheiro. A gente não pode usar o dinheiro para se proteger das intempéries da natureza. Nem amar a gente de volta o dinheiro ama. E isso mostra que além de inútil, ele é mó boy lixo que usa a gente pra se divertir e nem liga no dia seguinte.

A ideia de vender nosso tempo e nosso trabalho por dinheiro me fascina demais desde sempre. Por que muitas vezes acabamos gastando muito mais tempo trabalhando pro dinheiro para conseguir algo que a gente conseguiria mais rápido se a gente fizesse a coisa direto.

A gente precisa comer, beber água, respirar e procriar. Em vez de a gente focar em fazer isso, a gente faz uma porção de outras coisas, para conseguir algo que vai talvez nos dar a chance de termos o que precisamos para estarmos vivos, sendo que essas coisas são de graça.

Como diria o grande economista moderno Gil do Vigor, "É muito loucura, Brasiiiillll!"

Eu ando tendo a chance de trocar e dialogar muito com lideranças dos povos nativos do Brasil e de fora ultimamente, e isso fica muito claro quando a gente compara essa ideia de trabalho nossa com a deles.

E, antes que algum engraçadinho venha nos comentários falar que indígena é vagabundo, que indígena agora usa shorts de time de futebol e celular, eu já respondo que isso é problema deles que eles estão entrando no mesmo barco furado que a gente e esquecendo que os antepassados deles sobreviveram milênia nessa terra sem precisar disso e a nossa sociedade não deve passar incólume por esse século 21 só por que a gente adora um iPhone para comentar umas coisas doidas em textos na internet de pessoas que a gente nem conhece.

Mas eu divago (assim como eu queria ter divagado no parque naquela tarde de primavera)...

Uma coisa que eu estou percebendo muito nessas trocas com essas pessoas com uma cosmovisão completamente diferente da nossa é que o trabalho ali tem um completo e diferente significado. Em muitos dos povos, o trabalho ainda é algo prático. Temos de plantar e caçar pra comer. Temos de construir a casa para nos proteger. Temos de pegar a madeira ou fazer o tecido para o fogo e as roupas que vão nos aquecer. E só.

Você não fica horas no trabalho olhando para uma tela com uma planilha que não faz sentido te encarando o dia todo ou uma linha de produção que você tem de fazer o trabalho maçante todo dia.

Nesses povos, você faz apenas o necessário e o resto tu consegue ficar de boas fazendo o que realmente importa que é viver com aqueles que você ama, enquanto ainda há muita vida e energia em você, e não só quando você está no fim da sua jornada na Terra com seus cabelos brancos e aquela dor chata no ciático, como a gente faz.

Você trabalha para o coletivo para aproveitar com ele. E essa ideia é uma que me faz sorrir toda vez.

No livro "Sandtalk", do filósofo aborígene Tyson Yunkaporta, tem um dos capítulos que mais mexeu comigo em um livro. Nele, Tyson trata um paralelo sobre educação e a diferença da educação do ocidente - pois ele é aborígene e professor universitário na Austrália - com a educação dos povos nativos da Oceania.

Ele traça um paralelo de como o sistema aborígene quase nunca acaba e é pensado pro bem da coletividade daquele grupo de pessoas.

Já o sistema educacional ocidental, que aplicamos hoje em dia, deriva de um sistema inventado na virada do século 19 para o 20 pela maior nação bélica daquela época, a Áustria-Hungria. A ideia era não apenas educar, mas já preparar as jovens e louras cabeças das crianças para que elas saíssem dali já prontas para não questionar nada e servirem direto ao seu superior no exército.

Se você lembra da sua aula de história, você deve lembrar o que aconteceu logo ali no meio dos anos 1910 quando o Arquiduque Ferdinando tomou um tiro e fez a primeira guerra mundial começar.

O império austro-húngaro acabou, mas as suas ideias, não. Afinal, ideias são difíceis demais de matar.

Logo, um jovem país nas Américas percebeu que esse sistema era muito interessante e nem esperou a guerra acabar para importar algumas das velhas e louras cabeças que inventaram esse sistema para criarem um para eles e foi assim que o sistema educacional público americano nasceu.

E, se você ainda não conectou os pontinhos, porque está lendo esse texto tão cansado de um dia de trabalho quanto eu estou escrevendo ele, eu explico para você.

Essas primeiras crianças americanas que foram ensinadas nesse sistema de castas sociais - se você viu algum filme de escola americano, você tá ligado no movimento de como cada jovem tem seu papel de ser o bully, a gatinha, o nerd etc - e obediência total ao sistema, viraram os adultos que tiveram de reconstruir e repensar o mundo depois da Segunda Guerra Mundial de 1945 para frente. Essas foram as pessoas que serviram o sistema, o exército ou seus patrões sem questionar.

E assim tivemos a era mais próspera da história do capitalismo, pois servimos todos a um mesmo deus, o trabalho.

E o deus trabalho é um que quer tudo de você e te doutrina para que você não veja as falhas no seu plano, pois se você trabalhar você vai conseguir o que você quiser. Se você não conseguir, é porque você não está se esforçando o suficiente.

E assim a gente "vive de ser advogado"; se a gente não for pro serviço, a gente "passa fome" e a gente não fica com quem a gente ama para um dia eles terem uma "condição de vida melhor".

Eu tô aqui nessa coluna falando a meses sobre o poder de mudarmos nossa história. Talvez o dinheiro seja a maior história já inventada e que está tão encravada na nossa psique coletiva que a gente não consegue olhar além dela, e ela acaba virando universal e essencial assim como o deus da religião da qual você faz parte é para você.

E é falando e vivendo essas histórias com os povos da floresta que eu ando refletindo muito sobre as minhas crenças no trabalho, no dinheiro e por que eu faço o que eu faço.

Eu não vou falar aqui que temos de trabalhar com propósito ou que temos de dar oportunidades iguais para pessoas de outras cores e gêneros, por que isso ainda é pensar no trabalho que sempre pensamos, mesmo eu achando importantíssimo isso acontecer dentro do sistema em que a gente está. Mas que também só pensar e focar nisso é gastar energia com o sistema que pode e tem de vir.

A gente tem de mudar radicalmente essa ideia do que é trabalho e por que fazemos ele. Porque a gente já ferrou com a Terra, e esse culto que todos nós fazemos parte já virou um culto apocalíptico.

O trabalho que liberta é o trabalho coletivo que deixa a gente suficientemente satisfeito com tudo sem destruir o mundo para só acumular dinheiro e morrer no final. Que história pobre e vazia essa, né? Certeza que se fosse um filme a gente trocava de canal rapidinho.

E, se você ficou ofendido quando leu que você trabalha só por dinheiro e nada mais, não fica bravo comigo, mas sim com o austro-húngaro que criou o método pra fazer você acreditar nisso desde de criança, tamo combinado?

Se eu pudesse mudar uma coisinha no poema do Lorde Tennyson, é que se a morte é o fim da vida, viver é talvez o próprio e único trabalho.

Mas vou pensar nisso amanhã, que agora tô cansado e amanhã tenho reunião bem cedo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL