PUBLICIDADE
Topo

M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As coisas que faltam na era da abundância

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

24/04/2021 06h00

Durante essa quarentena me peguei fazendo coisas que nunca tive muito interesse ou que não fazia há tempos.

Acabei acompanhando o BBB, final de novela das nove, maratonei série e podcast, reli umas partes de livros sagrados (como a Bíblia e o Bhagavad Gita. Os dois têm grandes lições) e acompanhei até um pouco de futebol.

Era tanta opção e tanta informação que eu demorei um pouco para ver que tudo tinha um pouco de conexão.

Essa conexão é simples, estamos vivendo talvez o maior momento de abundância da história humana.

O que é ótimo. Mas também não é.

Automaticamente lembro desse tweet que viralizou esses dias:

Eu me senti exatamente igual a essa planta com sede.

Na sede de afeto, de trocas reais, de perspectiva de fim da crise, eu acabei me afogando em conteúdos e ideias que me tiraram um pouco do mundo que vivemos, mas que acabaram fazendo ele parecer ainda mais brutal.

Foi como comer uma promoção grande de fast food. Na hora é incrível e parece uma ótima ideia. Mas logo mais, você pode ter dor de estômago e até ficar com fome de novo por causa das milhares de calorias vazias que você comeu.

Pensando esses dias sobre isso, comecei a perceber que essa era da abundância funciona para tudo.

A gente tem o restaurante que a gente quiser pedir comida na ponta dos dedos. Carros vindo nos pegar na porta de casa para nos levar onde a gente quiser ir (se der, fique em casa. Se for sair, use máscara. Se tiver idade, tome vacina.). Séries, filmes e música do mundo pra ver e ouvir na hora que quiser. Conhecimento infinito indexado por sites de busca. A comida está cara, mas o ingrediente que a gente quiser, na época que a gente quiser, vai ter em algum supermercado. Até para achar parceiros sexuais e afetivos a gente nem precisa sair da cama e pode se deparar com possibilidades de encontros com pessoas do mundo inteiro.

A abundância está em todos os lugares.

E o lugar que mais me pegou foi que talvez estejamos vivendo uma abundância de realidade.

Não importa onde estejamos no mundo, parece que sabemos do resto do mundo inteiro. Podemos estar no Zimbábue que temos notícias da queimada da Amazônia e como vamos morrer por causa disso. Um navio encalha no Egito e um jovem Colombiano pode estar criando memes sobre a escavadeira que estava liberando o navio. A Nova Zelândia sai da fase mais tensa da covid e na periferia de Recife, a gente acha que nunca vamos sair porque o governo não comprou vacina e remédio.

O mundo ficou pequeno e coisas que são muito distantes parecem que viraram nossas.

Pessoas que não conhecemos são tão importantes quanto nossas famílias e amigos. Reconhecemos lugares que nunca fomos, como reconhecemos nossos bairros. Vivemos tragédias distantes como se fossem nossas.

Essa hiper-realidade que estamos vivendo não pode acabar bem.

É como a promoção grande do fast food. Mesmo sabendo que não faz bem, que a gente vai ficar mal depois, a gente acaba dando os poucos centavos de diferença para fazer o upgrade do combo médio.

E no fim, além da nossa carteira ter gasto mais do que deveria, a gente vai ficar com dor de estômago e com a digestão ruim.

Eu não me importava com 20 desconhecidos que entraram em um reality show. Eu não me importava se os times europeus tentaram um golpe de estado nas entidades europeias de futebol. Eu não me importava com séries francesas de ladrões de casacas.

Mas agora eu me importo e tô demorando meses para digerir tudo isso que coloquei para dentro e entender por que isso me afeta.

E na era da abundância, é isso que faz mais falta.

O tempo. A digestão. A nutrição.

A gente tem de consumir esses produtos culturais todos para postar nas redes sociais. A gente tem que produzir um monte para nossos chefes cumprirem as metas. A gente tem de ver as notícias para ficar sempre bem informado. A gente tem de se preocupar com pessoas que a gente não tem relação nenhuma.

Mas a gente não foi feito pra nada disso.

O nosso cérebro não é capaz de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo (se algum guru quiser te ensinar a otimizar seu cérebro para multi-tasking, foge rápido.). No nosso estômago cabe uma quantidade certa de comida. Nossa mente consegue se importar e compreender um número finito de pessoas e lugares. A Terra não foi feita para ter todo tipo de alimento o ano todo.

Ao se preocupar com lugares longe, a gente não está olhando para nossa casa ou pro nosso bairro.

Ao comer algo sem nutrição, a gente acaba não tendo espaço físico (ou desenvolver um gosto) para algo que vai nos nutrir.

Ao se preocupar com pessoas que não conhecemos, não olhamos para aqueles que caminham do nosso lado.

Ao ver um filme na TV com o celular na mão vendo uma rede social, a gente não está nem vendo o filme, nem vendo a rede social.

Ao pensar só em prosperar no dinheiro e na economia, a gente acaba perdendo vidas e destruindo o planeta.

Ao consumir tudo, a gente acaba não aproveitando e criando memória de nada.

Ao ser impactado por tudo, a gente acaba não tendo forças para fazer coisa alguma.

Nem que esse nada seja algo trivial como pegar um pouco de água para aguar sua plantinha que esteja com sede.

Eu ainda não sei se tudo isso que eu falei tem solução. Eu ainda me pego navegando nas redes sociais e ficando bravo com o que esse ou aquele membro do Governo falou. Os desdobramentos do campeonato europeu de futebol. O que vou pedir de fritura no app de delivery.

Mas ao me pegar fazendo isso, eu tento me perguntar se precisa mesmo. E quase sempre, não precisa.

E na era da abundância, talvez o que a gente mais precise é ficar de boas e não fazer quase nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL