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M.M. Izidoro

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pra onde estamos correndo?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

M.M. Izidoro

27/02/2021 04h00

Se você mora em uma cidade grande - ouso dizer que nem precisa ser tão grande assim - você já deve ter presenciado uma conversa que começa assim:

"E ai, quanto tempo! Muita correria?"

Ou uma conversa que acaba com:

"Agora deixa eu ir que tô em uma correria só!"

Recentemente, eu fui falar com algumas pessoas para ver como elas estavam durante a pandemia e mesmo com todo mundo (em teoria) preso dentro de casa, eu ouvi algumas variações desse papo. Se antes eu já me questionava sobre isso, hoje então com hospitais cheios e cidades fechadas eu me pergunto ainda mais, para que a gente está correndo tanto?

Não sei se é meu trauma de calçar 46 e sempre tropeçar quando corria na juventude, mas eu não consigo entender o fascínio de se estar ocupado o tempo todo.

Acho que até entendo o que uma agenda cheia de compromissos e demandas mil no trabalho podem trazer para o ego e o senso de produtividade extrema que dominou a cultura em todos os níveis.

Hoje, parece que tudo virou um exercício de produtividade. Temos que produzir muito no trabalho, temos de produzir muito nas redes sociais, temos de produzir muito entretenimento maratonando séries e filmes novos, temos de produzir consumo, afeto e opinião a todo momento. A gente não tem tempo de fazer o que a gente quer fazer, não tem tempo para dialogar, para se entender, para pensar, por que a gente está produzindo e correndo com coisas que vão dar a chance de fazer essas mesmas coisas que a gente quer fazer agora, só que lá no futuro, mais cansados e talvez nem com mais dinheiro.

Mas a gente precisa mesmo correr tanto?

Eu moro a três cidades do meu trabalho e todo dia tenho de pegar estrada para vir. Normalmente eu gosto de vir devagar por que gosto muito de prestar atenção no céu aberto da estrada. Às vezes são os desenhos das nuvens, outras é um prédio no contra luz do sol. Esses dias foi um arco-íris duplo. Se eu viesse correndo, ou produzindo outras coisas dentro do carro, eu perderia todos esses minimomentos mágicos em que a viagem se transformou no próprio destino.

Para quem me conhece fora do UOL, já sabe que produzo muitas coisas. Podcasts, filmes para cinema, livros, séries de TV, audiolivros, campanhas de publicidade. Sempre parece que eu estou lançando algo novo e produzindo um monte. Mas o meu segredo para produzir muito é trabalhar pouco. Para eu poder escrever esses textos aqui - ou qualquer outra coisa que eu faça - eu preciso de muita referência. Preciso ficar quieto deixando as referências se misturarem dentro de mim. Preciso espalhar esse adubo criativo no meu terreno mental, deixando a terra bem fértil para a cada quinze dias eu colher as palavras que dão vida para os textos aqui nesse espaço ou contar histórias com sons e imagens.

E, assim como ter a chance de ver um arco-íris duplo no meio de uma rodovia, indo devagar e prestando atenção nesse caminho, coisas novas e incríveis começam a brotar e o processo acaba sendo muito mais gostoso do que só a chegada.

Por isso que eu me pergunto sempre do por que a gente estar tão ocupado e correndo sempre, que se correndo a gente não consegue prestar atenção no aqui e no agora, só no lá na frente e no que tá ainda chegando.

Lao Tzu, um antigo filósofo chinês, disse que "a natureza não se apressa, contudo tudo é realizado."

Se olhar pra natureza é, para mim, o caminho que temos de seguir para simplesmente continuarmos vivos. Fazer como ela faz, é o que vai fazer mudar tudo. E assim eu acho que o que foi falado lá na China há milhares de anos se aplica muito agora.

Se funciona para uma semente seguir seu tempo de germinar, crescer, florescer e dar seus frutos. Talvez seguir mais o fluxo e ciclo que o mundo natural esteja nos dando seja muito mais negócio com muito mais retorno que seguir uma demanda arbitrária de ter de ver 12 episódios de uma série em uma madrugada, ou fazer um relatório que em uma semana vai ter de refazer já que o mercado mudou completamente, ou produzir para dar lucro para quem comprou uma parte ínfima de uma empresa.

Óbvio que não é isso que dá para fazer sempre, e nem é isso que você aí do outro lado dessa tela tem de fazer. A vida tá acontecendo, os boletos estão chegando e o corona tá comendo solto. Mas muito mais do que uma inspiração, esse sentimento de calma tem de nos ser uma aspiração.

Se no momento que a gente tinha para ficar de boas, ficar em casa, cuidar da gente e dos nossos, a gente parece que tá correndo mais, tem alguma coisa que não tá batendo nessa conta doida e quem acaba pagando o preço disso é a nossa saúde mental e física que não dá conta mesmo.

Falo com experiência, pois na falta de um, eu tive dois burnouts, que é quando você tem uma crise física e mental por causa de um cansaço extremo. No primeiro, eu era jovem e não dei muita atenção. No segundo, eu tive de prestar atenção, pois quase morri. E se estou aqui hoje escrevendo é por que esse movimento interno que o burnout me causou - e o medo de tropeçar por causa do meu pé enorme - estão fazendo cada vez mais eu desacelerar e perceber que vou chegar de qualquer jeito onde eu quero chegar. Seja correndo ou andando. Mas em um eu posso chegar um pouco mais rápido, todo estropiado e nem ter energia para aproveitar a conquista e no outro eu posso demorar um pouco mais, mas aproveitar não só a chegada mas todo o caminho que é bonito demais.

Eu tô falando sempre de caminho e chegada por que cada vez mais eu acredito que não é onde a gente chega, mas como a gente chega que importa. São as pessoas, os bichos, os pores do sol, os amores, as dores, os tropeços e as levantadas. São essas coisas que a gente vai lembrar. Vão ser as risadas com a turma fazendo um trabalho da escola de tarde, e não um resumo da Guerra do Paraguai. Vai ser a camaradagem do povo da firma, e não a tabela que você preencheu virando noite para agradar o chefe. Vão ser as flores que tu viu pelo caminho, as estrelas no céu na praia deserta, o sorriso sem graça de quem você está paquerando do outro lado da mesa, sua avó no fogão fazendo seu prato favorito, seu filho pedindo colo, as prosas nos botecos depois da vacina, você sem fazer nada tomando um café na cozinha lembrando de tudo isso quando tiver bem velinho.

Se a gente correr, a gente pode perder tudo isso.

Então para que a gente está correndo, se as coisas que valem a pena, e a gente quer que durem para sempre, acontecem quando a gente tá bem devagarinho?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL