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M.M. Izidoro

Educação não é só escolaridade

Alunos voltam às aulas na Escola Estadual Thomaz Rodrigues Alckmin, no bairro do Itaim Paulista, na zona leste da cidade de São Paulo, na manhã desta quarta-feira, 07 de outubro de 2020 - Werther Santana/Estadão Conteúdo
Alunos voltam às aulas na Escola Estadual Thomaz Rodrigues Alckmin, no bairro do Itaim Paulista, na zona leste da cidade de São Paulo, na manhã desta quarta-feira, 07 de outubro de 2020 Imagem: Werther Santana/Estadão Conteúdo

M.M. Izidoro

12/12/2020 04h00

Como você pode ver na minha última coluna, eu ando me questionando muito sobre o papel da educação e o que nós podemos fazer para termos uma sociedade mais educada.

Isso é algo que eu comecei a pensar muito tarde na minha vida quando eu percebi que eu lia muito e sabia de muita coisa, mas que a maioria das coisas que eu aprendi de verdade, eu aprendi com pessoas - e até lugares e outros animais - que não necessariamente haviam tido uma educação formal igual a minha.

Lembro muito bem de uma tarde agradável andando com meu avô na sua pequena plantação no seu sítio. A cada tipo diferente de verdura ou legumes que a gente passava, ele explicava a técnica certa de plantar, regar, podar. Quais as propriedades daquelas plantas e a época certa de plantá-las e colhe-las. Eu fiquei ali observando aquele ex mestre de obras de noventa e poucos anos, que nunca teve uma educação formal, me dizendo tudo aquilo e não tinha como eu ignorar que, mesmo sem as letrinhas no fim do seu nome, eu estava ao lado de um mestre e doutor naquele assunto.

Isso também me lembrou um dia que eu estava em Harare, capital do Zimbábue, e estava conversando com uma aluna de um workshop de cinema que eu estava dando por aquelas bandas. Ela era a primeira pessoa da sua família estendida a morar na capital e ir estudar em uma escola como nós a conhecemos. Mas após dezoito anos aprendendo a ver o mundo através da educação do seu povo, ela tinha muitos problemas com os pontos de vista do nosso povo. Ela me falou que não entendia como a gente era criado apenas para consumir e destruir, quando fazer isso era como destruir nossa "mãe". Ela me explicou que para a cultura dela, tudo que a Terra nos dá, ela dá por amor. É amor para com seus filhos, e até um caso de amor com os deuses da Água e o Sol que faz com que as plantas nasçam. Assim, como a gente ousa destruir e tratar com ódio aqueles que só nos dão amor?

Eu não tenho como dizer que meu avô ou minha aluna eram menos educados do que eu com meus diplomas todos. Afinal, eu mesmo não fui educado para prover para mim mesmo com minhas próprias mãos. Eu fui educado para produzir e consumir coisas manufaturadas, como ouso dizer, é esse texto aqui que eu estou escrevendo. Essas duas pessoas queridas, tinham um poder na mão que eu tive de ir atrás para aprender e penei muito mais para ter uma horta bonita e saudável, do que em qualquer prova de física e matemática da escola.

Esses são apenas dois exemplos que eu vivi que me trouxeram até aqui em questionar o papel da educação e como o simples fato de igualarmos educação com escolaridade hoje é algo que eu acho perigoso.

Não é porque alguém não sabe as capitais dos estados brasileiros ou fazer a fórmula de bhaskara, que ela não é educada. Ela pode muito bem saber como funciona um motor a combustão perfeitamente para consertar seu carro ou, como meu avô, saber plantar e cultivar praticamente todo tipo de alimento quando ele bem entender.

Assim como a ideia de soberania alimentar - que é a ideia de comermos coisas que são naturais da nossa região para sempre termos algo fresco e nutritivo - eu acredito que existe um caminho do meio na educação que é o de termos a escolaridade e também a educação prática e local. Essa última pode variar muito. Eu que estou na cidade grande, tenho de ser educado para olhar para os dois lados para atravessar uma rua, quando alguém que está em uma comunidade ribeirinha aprende a ver predadores dentro da água antes de pegar seu barco.

Uma educação não é melhor que a outra, pois ao mesmo tempo que se eu for andar de barco em um rio desconhecido e posso ser atacado por algum bicho, o ribeirinho que vier para São Paulo pode ser atropelado por não ter olhado para direita em uma via de mão dupla.

Tudo isso é educação e é por isso que ela é responsabilidade de todos nós.

Toda vez que falamos ou fazemos alguma coisa, nós fazemos por que alguém nos ensinou daquele jeito. Nós olhamos para aqueles acima da gente e reproduzimos seus jeitos e ensinamentos. Então se temos pajés, professores, pais, presidentes, gerentes e qualquer outra liderança com bons exemplos, isso quer dizer que como comunidade nós temos mais chance de aprender e reproduzir esses bons exemplos com eles para criar uma sociedade mais justa e melhor para todos. Já se os exemplos forem ruins, vamos para o lado oposto e isso vai acabar destruindo, e não criando, nossa sociedade.

Então, mais do que uma nota em uma prova ou um diploma. Educação é a maneira que vemos e reproduzimos nossa cultura e por consequência como vivenciamos o mundo. Estamos educando e sendo educados a todo instante. Mesmo que não percebamos. Nós damos risada de pessoas que achamos que não tem educação para poder ler esse texto aqui, ou que falam mal nossa língua, quando elas estão consertando nossos carros, construindo nossas casas e colhendo nossa comida. Ensinamentos ancestrais que nós não temos e que em qualquer crise são muito mais importante do que saber conjugar um verbo ou a diferença de DNA e RNA.

Por isso, eu venho tentando cada vez mais ter uma educação completa. Entender o mundo por vários olhares, vozes e culturas. Sujar a mão de terra. Ver como uma semente nasce. Aprender outras línguas. Ler manuais e livros, mas também estar em uma roda de conversa com pessoas que sabem de muito mais coisa do que eu. Assim, eu acho que posso viver uma vida melhor para mim e para toda a minha comunidade. Inclusive você aí do outro lado dessa tela.

Educar é algo constante e holístico e se aceitarmos isso na nossa vida e comunidade, tenho certeza que só iremos melhorar como pessoas e sociedade. Mas isso depende de cada um nós e assim eu te pergunto:

Como você está se educando hoje?