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M.M. Izidoro

Para quem e para que educamos?

Educação também é saber cuidar da terra - FangXiaNuo/Getty Images
Educação também é saber cuidar da terra Imagem: FangXiaNuo/Getty Images
M.M. Izidoro

A cada 15 dias, vamos contar notícias boas da vida real que aconteceram com gente de verdade como eu e você

28/11/2020 04h00

"Se um navio tem 26 cabras e 10 bodes a bordo, qual a idade do capitão do navio?"

Essa pergunta é de uma prova de matemática da quinta série de uma escola chinesa e viralizou recentemente nas redes sociais pelas respostas engraçadas dos aluninhos. Mas mais do que isso, ela é um grande exemplo do que é a educação moderna.

Eu ando pensando muito em educação nos últimos anos. Eu tive toda a sorte e privilégio de frequentar escolas e faculdades que me deram uma grande base de educação formal. Mas ao mesmo tempo, eu tive a sorte maior ainda de poder viajar o mundo todo e comecei a descobrir que eu podia fazer uma prova bem (mentira, que nunca fui um grande aluno.) mas que no mundo, tinha muita coisa que eu não sabia.

Eu demorei para entender o que estava acontecendo. Afinal, eu tinha acesso a alguns dos melhores professores e pensadores do Brasil e do mundo, mas mesmo assim parecia que eu aprendia mais quando estava em uma tribo no interior de um país do continente africano ou conversando com pessoas mais velhas no norte e nordeste brasileiro.

Foi ai que eu encontrei um livro que traduziu em palavras essa sensação que eu sentia a anos. No seu livro, "Sand Talk: Como o pensamento indígena pode salvar o mundo" (que acho que não tem tradução para o português ainda), o pensador aborígene Tyson Yunkaporta dialoga (e não escreve, como ele mesmo pontua no livro) sobre educação o livro inteiro, mas tem um capítulo que ele dedica a especificamente a criação da ideia das escolas públicas que mexeu muito comigo.

Para quem não sabe, a ideia de escola pública é muito recente. A educação tem um poder e por isso apenas poucas pessoas e grupos tinham o controle dela. Por isso a ideia de uma educação pública para todos é tão nova com um pouco mais de 100 anos.

Ela foi desenhada pelo governo austro-húngaro, que era a maior potência militar da época, como uma maneira de facilitar o treinamento da população quando eles entrassem no exército. Assim, tudo foi feito para desde pequenos, os alunos seguissem regras e normas que não ficariam fora de lugar em quartel. Com a primeira guerra mundial e o fim do império austro-húngaro, seu maior parceiro comercial importou algumas das mentes que criaram o sistema de educação lá para implementar no outro lado do oceano atlântico, nos Estados Unidos da América.

Se você já viu um filme de escola americano, tu já deve ter percebido que dentro das escolas existem castas e grupos pré formados e as regras têm de ser cumpridas a risca se não você fica de detenção depois da escola.

E foi aí que o Tyson traduziu para mim esse sentimento que eu tinha. Ao passar o livro todo dialogando sobre seu povo e sua cultura, ele para e comenta da nossa, e ao fazer isso ele inverte o eixo "natural" que é do "selvagem" falando do "civilizado" e ao fazer isso, ele me mostrou que existem duas coisas muito distintas, mas que a gente acha que são iguais, que são os conceitos de educação e o de escolaridade.

Tudo é educação. Você é educado a fazer sons de um certo jeito para se comunicar, a gostar de um tipo de música, a apreciar um tipo de culinária, a se vestir de um certo jeito e a desejar um emprego ou alguma posse. Não temos aula para isso. Não tem lição de casa ou prova. E por isso, que o conceito de escolaridade acaba ficando mais forte. Quando você consegue metrificar, padronizar e empacotar algo para consumo, fica tudo mais fácil. E com a educação é a mesma coisa. Esse é o papel da escola que hoje chamamos de tradicional.

O problema para mim, é que muitas vezes esse é um tipo de educação muito frio, e que na soberba da academia (e eu já pequei muito nesse lugar), muitas vezes não dá ouvidos para um conhecimento ancestral que é tão importante e forte quanto.

Educação também é saber cuidar da terra. Plantar e colher. Caçar. Saber das marés. Das mudanças de vento. Qual erva pode curar o que. Como cuidar de uma comunidade. O que um bebê quer quando chora. O que um idoso quer quando não fala nada.

Cozinhar, costurar, construir. Tudo isso também é educação. Não só as matérias e provas que você estuda em uma escola no turno da noite depois de um dia inteiro de trabalho.

O filósofo e linguista Noam Chomsky, em uma de suas palestras, pergunta, "educação é para o que e para quem?". Ao longo dela ele questiona se nosso sistema de provas, notas e certificados, é um sistema justo. E até se ele, assim como era o plano austro-húngaro, não está apenas replicando pessoas sem senso crítico nenhum que apenas reproduzem comportamentos, ideias - eu acrescento aqui - e cria um distanciamento do mundo natural e de uma educação orgânica.

Óbvio que eu não estou falando para todo mundo sair da escola e ir viver no mato. Mas temos muito de repensar para quem a educação serve e o que estamos ensinando. Seja na escola, em casa ou numa tribo no meio do Zimbábue.

É por isso que eu gosto muito da pergunta da prova chinesa que abriu esse texto.

Na verdade essa pergunta foi desenvolvida por pesquisadores franceses no final da década de 1970 para entender o que a educação estava fazendo com os alunos, pois ela não é uma pergunta de matemática e sim uma pergunta de lógica e crítica cuja a resposta é que não dá para ter resposta. Mas somos tão condicionados a tentar achar respostas e performar bem em provas, que não saber ou falhar, é um erro quase mortal.

E o potencial de não saber não nos é ensinado. A gente tem de saber tudo a todo tempo. Decorar, memorizar, ser produtivo. Essas são palavras de ordem que nos levam para um lugar que eu acho que é quase contrário da educação. Educar é descobrir, é errar, é fazer de novo. É iterar e construir conhecimento. Não reproduzi-lo de forma vazia e automática. Para isso, tu precisa de vivência, como os povos ancestrais, e pensamento crítico, como tu precisa para responder a pergunta da prova chinesa. Enquanto a gente não tiver isso, vamos sempre estar sendo ensinados mais a reproduzir conhecimentos e sentimentos de um sistema que tende a nos oprimir, do que estar criando nossas próprias bases de conhecimento que vão ser útil para gente e nossa comunidade ali onde nós vivemos.

Por isso que uma das frases que mais gosto de falar é, "eu não sei, mas deixa eu pesquisar." Eu não sei o que vou achar do outro lado, mas tenho certeza que as coisas que vou aprendendo pelo caminho vão ser incríveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.