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A Invenção de um novo tempo

M.M. Izidoro

A cada 15 dias, vamos contar notícias boas da vida real que aconteceram com gente de verdade como eu e você

17/10/2020 04h00

Lembra quando o tempo era infinito?

As tardes depois da escola duravam dias e os verões, com os primos, anos?

E lembra quando você começou a não ter tempo para mais nada?

Quando a resposta padrão para a pergunta "como estão as coisas ai?", virou "Uma correria só"?

Acho que você, assim como eu, anda pensando muito no tempo durante essa pandemia. Nem parece que estamos nela a sete meses, mas também parece que estamos nela a anos. Assim como é diferente o tempo de quando a gente era criança e vivia uma vida inteira em um mês de férias e depois crescemos e um mês não dá nem para começar a planejar como fazer todas as coisas que temos de fazer.

Parece que faz uma década que o filme Parasita ganhou o Oscar, ou que tivemos incêndios gigantes na Austrália ou que quase tivemos o começo de uma guerra mundial. Mas isso foi tudo esse ano. Apenas alguns meses atrás.

Ao mesmo tempo que os dias da semana passam num piscar de olho, p conceito de dia útil parece não se aplicar mais. Principalmente para quem ainda continua respeitando o home office e o distanciamento social.

Como tudo pode estar tão rápido e tão devagar ao mesmo tempo?

E volto a pensar no tempo. O que seria o tempo? Seriam os números nos nossos pulsos e telas de celular? Seria o ciclo do sol nascer e se por? Ou não é nada disso e apenas uma sensação?

Eu me interesso muito sobre o conceito de tempo e uma das coisas que mais fascina é que, assim como a cor azul não existia até poucos séculos atrás, existem teorias que o tempo como a gente conhece foi inventado por uma tecnologia ancestral: a linguagem.

Pode parecer uma loucura o que eu estou falando, e de uma maneira é mesmo. Pois como pode algo que guia nossas vidas todos os dias ter sido inventado? O tempo é o tempo e o céu é azul e pronto!

Calma que não é bem assim. Assim como o céu só é azul por que alguém lhe ensinou a palavra que descreve o céu dessa cor, alguém também te ensinou a ideia do tempo e o que ele significa (além de outras ideias inventadas como o dinheiro, trabalho, regras sociais e culturais, e mais uma porrada de coisa que a gente inventou para deixar nossa vida na Terra muito mais confusa do que precisa ser.)

A cor azul durante milênio vivia junto do verde, com Homero até falando que o oceano tinha a cor de vinho, no épico A Odisséia. Não há registro de textos que mencionam a cor por séculos. Precisou os egípcios começaram a produzir o primeiro pigmento artificial feito pelo homem, para que o azul virasse uma cor como a gente conhece hoje. Assim como o laranja que só começou a existir quando perceberam a cor da fruta 400 anos atrás.

Com o tempo é a mesma coisa.

Durante milhões de anos o tempo da Terra era medido pelo sol e pelas estações do ano. Era assim que os seres e as plantas sabiam da hora de caçar, dormir, crescer, procriar e até morrer. Não tinha relógio, hora, minuto ou segundo. Tinha o dia e a noite. O inverno e o verão e entre eles o outono e a primavera.

Mas aí a gente cresceu, inventamos a palavra e com ela começamos a nomear o mundo e dar a nossa cara para ele. Os anos começaram a ter números, assim como os dias e os meses. Ainda tudo muito vago, mas já estávamos delimitando o que a gente entendia como tempo. Ai veio a revolução industrial, as fábricas e os trens. E foi ai que o mundo precisou definir o que o tempo era, para que o sistema ferroviário pudesse funcionar direito e transportar os produtos de um lado para o outro. Deixando assim muitos homens ricos e outros nem um pouco.

Depois de criar o Céu e a Terra, Deus em pessoa pediu para Adão nomear todos os animais para achar um companheiro para seu filho. Ao não achar, Deus criou Eva e ao nomear todas as criaturas, Adão compartilhou do ato de Criação com seu Pai e ele não só deu os nomes aos bichos, mas com suas palavras, deu a Terra aos homens.

E ao tomar a Terra o homem tentou domestica-la totalmente.

E assim hoje a gente vive em um tempo que nos foi imposto e que não é nosso. Um tempo que não respeita nossos corpos e nossas mentes. Na hora que tínhamos de estar dormindo, estamos acordados com nossos mini sóis artificiais iluminando a escuridão. Na estação que devia estar frio, está quente por que gostamos de nos locomover com transportes a combustão e nos alimentar com a carne de outros animais. E para existir, ambas as coisas precisam que mudemos nosso ecossistema e assim tudo muda. Inclusive o tempo.

Esse desrespeito com o tempo natural, com o ciclo das coisas e com a gente mesmo é uma das causas de muito dos nosso problemas hoje em dia. Mas como vamos respeitar algo que a gente esqueceu?

Existe uma tribo na Amazônia que é estudada a anos. Eles são os Pirahãs. Desde seu primeiro contato com o homem branco a um século, uma peculiaridade chamou a atenção. Sua língua não tinha a ideia de números e nem tempo verbal de passado ou futuro.

"Legal, M.M., mas o que isso quer dizer?". Você está se perguntando ai.

Se você ligou os pontos, isso quer dizer que para os Pirahãs não existe passado, nem futuro. Só existe o presente. Não existe acumular coisas, nem sentir falta de alguma coisa. Por que não há números para contar. Existe só uma ideia de ter. De ser suficiente ou não. Não existe o futuro ou o passado, por que não se tem como falar de tais conceitos. Pois ao não ter palavras para descrever essas ideias, a ideia simplesmente não existe.

As palavras são o que definem nossa visão de mundo. A linguagem é como a gente explica ele. O nosso mundo é do jeito que é, por que a gente explica ele desse jeito e assim a gente vê e vive ele assim.

É por isso que ao meu ver esse tempo pandêmico é estranho. Por que esse é um tempo que a gente não consegue controlar ou nomear. Ele apenas é. E ao apenas ser, nós acabamos perdendo nosso norte de como navegar nessas águas que não temos controle algum e apesar de isso ser um problema que está causando surtos de saúde mental em muita gente, eu vejo como uma oportunidade. Uma oportunidade da gente aprender que a gente não tem controle e que não importa apenas o nosso desejo e o que a gente quer, mas que tudo tem seu tempo e sua hora.

Assim como as plantas florescem na primavera e os morcegos saem para voar de noite. Assim como o galo canta na primeira luz da manhã e a nosso planeta demora 365 rotações no próprio eixo para dar uma volta no sol, as coisas levam seu tempo. Ir contra isso é uma violência enorme contra a gente e contra o mundo. E uma das maneiras da gente ficar de boas com isso, é tomar de volta nosso tempo.

Uma das maneiras mais simples de fazer isso é de dar nome às coisas. É você aceitar que existe momentos para não fazer nada, momentos para trabalhar, momentos para estudar, momentos ver séries ou posts em redes sociais. Cria esses momentos para você e dê nome para eles. Coloque na sua agenda. Avise seus amigos e família. Mas principalmente avise você mesmo.

Na ânsia de ser tudo o tempo todo, a gente acaba sendo nada. Estamos cansados, machucados, vazios e com medo. Medo de não dar conta, de ser passado para trás, de não ter seguidores, de termos poucos likes. Mas nada disso importa, que no tempo da Terra, seremos apenas um sopro e esses seus medos vão virar outros. a Terra vai continuar girando e os seres que sobreviverem à crise climática nem vão saber que um dia você virou a noite para entregar aquele relatório.

Nossa missão coletiva é voltar a dialogar com a Natureza e ao não ter tempo nem pra gente, como a gente quer ter tempo para Ela. Precisamos criar um novo tempo, um que faça sentido para a gente no individual e no coletivo. Para nossa espécie e todas as demais.

Temos de achar esse meio do caminho de sermos o que somos hoje e estarmos focados no presente como os Pirahãs.

E vamos fazer isso, ao mudarmos nossa narrativa e criarmos novas palavras e nomes para tudo isso que estamos vivendo. Assim como criamos os conceitos para a cor azul, a cor laranja, os relógios para os trens, o deadline para os relatórios e todas as palavras que usei para escrever esse texto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.