PUBLICIDADE
Topo

M.M. Izidoro

Tudo bem não estar bem

M.M. Izidoro

A cada 15 dias, vamos contar notícias boas da vida real que aconteceram com gente de verdade como eu e você

25/07/2020 04h00

Hoje foi difícil levantar para escrever essa coluna.

Não dormi bem, não estou me sentindo bem, parece que tá tudo errado com tudo.

Ai estava me questionando de que como eu, que tento escrever textos com mensagens para que tanto você, quanto eu, possa sair da bad, ia escrever um texto pra baixo e pessimista.

E foi daí que percebi que essa era mensagem que eu tinha que aceitar: tem dias que a gente não está bem e é isso ai.

De uns anos para cá, a cultura da produtividade em conjunto com as redes sociais criou uma necessidade da gente ter vidas perfeitas. É como se no vídeo game da vida, nosso personagem tenha de estar sempre com todas as barrinhas cheias todo o tempo.

Temos de ser ótimos produtores de dinheiro. Temos de ser ótimos empregados ou chefes. Temos de ser ótimos amantes. Temos de ser ótimos pais. Temos de tirar fotos lindas de tudo isso para mostrar para todos os nossos seguimores o quão ótimos nós somos.

Mas isso é uma mentira. Tem dia que você não é ótimo em nada. Ouso dizer - e deve ser por que eu não estou bem hoje - que a gente não é ótimo na maioria dos dias. Mas a gente tem de seguir esse roteirinho e colocar nossa máscara de ser feliz.

Se a gente parar para pensar, a gente tem de seguir esse roteiro quase sempre. Temos de estar hiper felizes em datas comemorativas como nossos aniversários e hiper tristes quando a gente perde alguém que a gente ama. Temos de reproduzir externamente sentimentos que são esperados de nós e não necessariamente o que estamos sentindo naquele momento.

O problema é que a gente não é um personagem de filme ou novela que sente as coisas de forma exagerada. Temos de sentir para poder impactar a audiência e ter o drama que vai fazer você assistir ao próximo capítulo ou indicar o filme para os amigos. E acredite em mim, com 20 anos fazendo filme e programa de TV, eu entendo e já fiz muito isso.

Cada pessoa é uma história nela mesmo. Uma história com suas engrenagens e personagens próprios. Não somos apenas o mocinho ou apenas o vilão. Nós somos os dois, as vezes ao mesmo tempo. Cada uma das nossas histórias tem um tempo e uma velocidade para acontecer. Então, o luto de uma pessoa pode acontecer super rápido e intenso e de outra pode durar uma vida inteira em pequenas doses. Então por que esperar que as duas ajam iguais quando as vemos em um velório ou em um hospital?

Essa pandemia vai deixar essa cicatriz em todos nós, pois além de perdemos dezenas de milhares de pessoas para essa doença, temos outras milhões de pessoas que já estão sofrendo sem seu entes queridos. E ainda teremos milhões de outras pessoas que podem não ter perdido ninguém diretamente, mas estão perdendo seus sonhos e planos por causa das mudanças que o mundo inteiro está passando.

Se já era difícil ficar bem antes, imagina agora com tudo isso acontecendo.

Uma das coisas que eu sempre tentei levar em consideração na minha vida e a pandemia veio para jogar isso na cara de todo mundo, é que a gente não tem controle de nada. Seja dentro da gente ou fora, a gente está sempre navegando em mares desconhecidos e temos de surfar as marés que aparecem quando elas aparecem. Sejam ondas gigantes ou uma marolinha.

E foi por isso que mesmo eu não estando bem hoje, eu vim escrever esse texto. Pois não estar bem é parte da vida e parte da gente. Não podemos esperar estarmos felizes e contentes o tempo todo. Chorar é tão importante quanto sorrir. Por para fora um sentimento ruim é tão importante quanto um sentimento bom. A gente tem de saber quando as coisas não estão boas, para poder aproveitar ao máximo quando elas estiverem.

Estar triste, carente, bravo ou qualquer outra coisa do tipo é parte da vida quanto todo o resto. Temos de começar a aceitar isso com o outro e principalmente com a gente. Sermos gentis em tempos de fúria é revolucionário.

É uma escolha nossa se a gente se apega a esses sentimentos e por quanto tempo. Hoje eu me apeguei nele para escrever esse texto e foi bom. Mas não é um sentimento que eu quero que dure para sempre para eu poder escrever mais textos como esse. Eu espero que amanhã eu esteja melhor e se eu não tiver, tudo bem. Um hora passa. Pois como diria aquela música do Lulu Santos:

Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.