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MM Izidoro


Não vamos mudar o mundo. Ainda bem.

M.M. Izidoro

A cada 15 dias, vamos contar notícias boas da vida real que aconteceram com gente de verdade como eu e você

30/05/2020 04h00

Todo jovem tem uma sensação inata de que o mundo em que ele vive não é para ele e que precisamos mudar tudo. Assim nasceram movimentos de contracultura como o Rock 'n Roll, os Hippies, o Rap e todos esses que protestam contra a cultura dominante através da liberdade e quase sempre das artes.

Essa mudança de mundo é uma coisa que a gente está ouvindo muito hoje por causa da pandemia do novo coronavírus. Além do novo normal, que comentei na coluna passada que não existe, essa é uma coisa que eu também não acredito que vá acontecer.

Durante muito tempo fui o jovem idealista que queria mudar o mundo. Gastei muita energia, doei muito do meu tempo para diversas causas. Isso me levou ao mundo todo e consegui fazer ações em praticamente todos os continentes ao lado de pessoas que pensavam como eu. Mas foi na Ásia e na África que as coisas começaram a mudar para mim.

Na Ásia, aprendi conceitos budistas, ayurvedas e uma visão de mundo completamente diferente da nossa no ocidente. Na África, aprendi sobre a minha ancestralidade como homem negro, que num país eurocêntrico como o Brasil quase não se fala disso, e um ideal de vida que conecta todos nós com todos os outros seres vivos e o planeta inteiro.

Com o tempo, essas coisas foram se fundindo e eu entendi que toda energia que eu estava colocando em mudar o mundo talvez não fosse funcionar, mas o que poderia funcionar era mudar eu mesmo. As coisas que eu pensava, que fazia. Passando pelo que eu comia até o que eu pensava.

Essa é uma coisa que talvez só a idade e o tempo tragam mesmo, mas a que muita gente se esquece.

Foi um processo difícil e doloroso. Um processo que tive de reaprender e ressignificar uma vida toda de privilégios. Entender o que fazia sentido e o que não fazia. E hoje sou eternamente grato ao caminho que segui, pois sou uma pessoa melhor por causa disso.

Esse é o processo que todos nós estamos passando agora com a pandemia. Um processo onde as estruturas da nossa sociedade foram expostas e onde voltar para o que era antes pode literalmente nos matar ou matar quem está próximo de nós.

Enquanto todo mundo está repensando como o mundo vai ser daqui pra frente, como vai ser o trabalho, sociedade e todo o resto. Só tem uma coisa que a gente pode fazer de verdade para tanto barrar a contaminação do vírus como para mudar o mundo quando a pandemia passar. E essa coisa é cuidar da gente. Só cuidando da gente vamos conseguir ficar fortes para aceitar as mudanças a nossa volta, além de construir uma comunidade ainda mais forte. Seja qual ela for! A gente se distanciou demais de coisas essenciais como a própria natureza e o fato de que tudo que a gente faz é pra ter comida, água, ar e continuar vivo. Dinheiro, trabalho, diplomas são tudo coisas ótimas que nos enchem de orgulho e poder. Mas o que eles fazem é facilitar a gente ter comida, ar e água. Como qualquer outro animal que está por aí andando do nosso lado. Você pode ficar preso num cofre com bilhões de dólares que você morre. Mas se você ficar sem nada numa floresta, você tem chances enormes de viver.

Como ressignificar o que é importante e necessário pra gente só existir? Essa é questão mais latente desse momento que estamos passando.

Foi pensando em tudo isso que num convite do Emicida, da Laboratório Fantasma e da Mutato, eu escrevi e dirigi o AmarElo Prisma.

Um novo projeto de conteúdo propositivo baseado no disco AmarElo, do Emicida. O disco já trazia uma mensagem de fé e amor para a quebrada. Algo muito raro nos dias de hoje em qualquer lugar. Principalmente no Hip Hop e nas vielas do mundo todo. E com o Prisma o que a gente está fazendo é abrindo um diálogo com diversas vozes para termos caminhos para cuidar do corpo, da mente e da nossa comunidade. Quando tudo tiver forte e saudável, ter coragem de mudar a nossa história e aceitar o novo.

Serão quatro movimentos como em uma sinfonia. Onde nós somos os instrumentos para tocar essa música lindona que é estar vivo e bem de saúde e com a gente mesmo.

Cada movimento conta com vídeos no YouTube e podcasts que são como uma história daquelas que contamos para pequenos dormirem. Só que fazem exatamente o oposto: os grandes acordarem.

Trouxemos mais de 40 vozes do Brasil inteiro para nos mostrar que é possível hoje mudar a gente, não importando grana, pandemia e onde moramos. Que no fim é pensar como a gente quer que o mundo esteja bem, se a gente não está.

Eu queria muito que você olhasse esses conteúdos, pois eles já mudaram a minha vida e tenho certeza que podem mudar a sua também. Que a gente não vai mudar o mundo, mas se cada um conseguir mudar a si mesmo, o mundo não tem como ficar o mesmo.

Mas sou otimista que vamos conseguir chegar lá de um jeito ou de outro, pois como escreveu Belchior:

"Mas é você que ama o passado

E que não vê

É você que ama o passado

E que não vê

Que o novo sempre vem"

Ele sempre vem.

MM Izidoro