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Milo Araújo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mobilidade urbana periférica: demanda urgente

Fernando Podolski/iStock
Imagem: Fernando Podolski/iStock

Milo Araújo

22/10/2021 10h55

A desigualdade social atinge a cidade de São Paulo em diversos aspectos, entre eles a mobilidade urbana, que se refere à forma como os habitantes se locomovem dentro da metrópole mais populosa do Brasil.

Quanto menor a renda, maiores as chances de se viver em áreas mais afastadas e menos assistidas pelo poder público. Consequentemente, maior será o tempo e piores serão as condições de deslocamento, o que torna mais difícil o acesso aos serviços públicos e às oportunidades que costumam se concentrar nas regiões mais centrais da cidade.

De acordo com pesquisa feita com o IBOPE Inteligência, para 63% dos paulistanos esse deslocamento leva mais de 1 hora e pode chegar a 2 horas em todos os seus deslocamentos diários.

Segundo mapeamento realizado pelo Viver em São Paulo: Mobilidade Urbana, um morador de Parelheiros gasta, em média, 1h40 e mais ou menos R$ 14,39 para se deslocar até o centro da cidade utilizando transporte público. Já quem vive em Moema leva 40 minutos e paga cerca de R$ 6,07 em transporte coletivo para ir ao centro.

Os moradores do extremo leste gastam mais tempo para seus deslocamentos e levam o maior tempo médio para chegar ao local da sua atividade principal: por volta de 1h52.

Estudos como o da Rede Nossa São Paulo em parceria com o IBOPE identificou que 63% dos paulistanos utilizam o transporte público para se locomover pela cidade, sendo o ônibus municipal (47%) o mais acessado, seguido do metrô (12%) e dos trens (5%).

A população paulistana enfrenta muitos empecilhos para conseguir acessar o transporte público e relata que alguns lugares da periferia de São Paulo não possuem linhas de ônibus suficientes para atender aos moradores locais. Com isso, eles sofrem com a desassistência do poder público para resolver os problemas que impactam sua vida diariamente, sobretudo aqueles que vivem nas regiões mais periféricas, onde a precariedade e a desigualdade vão além dos meios de transporte.

Pagamos caro na passagem, R$ 4,40 atualmente, para não termos o mínimo de conforto.

Mesmo na pandemia, os ônibus seguem cheios. Há também demora no intervalo de chegada entre um ônibus e outro, ocorrendo atrasos.

Vale lembrar que, segundo dados da Prefeitura de São Paulo, a frota da cidade compreende 15 mil ônibus divididos em 1.314 linhas que operam em cerca de 4,5 mil km de malha viária e transportam quase 3 bilhões de passageiros por ano.

Já o sistema de trem metropolitano de São Paulo possui 74,3 km de linhas ferroviárias e transporta quase 900 mil pessoas por ano. E a CPTM possui 90 estações que cobrem 260,8 km de extensão e transportam cerca de 700 milhões de passageiros por mês.

As bicicletas seriam uma parte da solução

Dentre as soluções primárias apresentadas para resolver ou diminuir os problemas de mobilidade urbana que atingem a periferia de São Paulo, está a criação de mais ciclovias nas regiões.

De acordo com dados da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET-SP), o M'Boi Mirim só perde para Cidade Ademar, também na zona sul, e Jaçanã/Tremembé, zona norte, que possuem apenas 1,1 km de ciclovias, seguidos de Cidade Tiradentes e Itaim Paulista, ambos na zona leste, com 2 e 2,4 km de ciclovias, respectivamente.

Atualmente, a rede cicloviária da capital paulista possui cerca de 681 km e estima-se que 1,6 milhão de bicicletas rodam pela cidade. Entretanto, a pesquisa Viver em São Paulo: Mobilidade Urbana aponta que apenas 2% dos paulistanos utilizam a bicicleta como meio de transporte e revela que a criação de ciclovias não é o maior empecilho para que os não usuários de bicicleta comecem a utilizá-la para circular pelo município.

Dentre os entrevistados, 25% dizem que não utilizariam a bicicleta como transporte. Por outro lado, existem potenciais usuários que pedem algumas mudanças para que pedalar se torne um hábito em seu dia a dia: 32% dos entrevistados afirmam que pedalariam pela cidade caso houvesse mais segurança, 18% pedem a construção de mais ciclovias, 17% ressaltam a falta de sinalização nas vias e outros 17% dizem que se locomoveriam de bicicleta caso existissem menos subidas, ladeiras e se a cidade fosse mais plana.

Essas mudanças, algumas relativamente simples de serem implementadas, mudariam pouco a pouco a rotina do paulistano e da cidade. Utilizar a bicicleta como modal traz grandes vantagens, como diminuir a lotação do transporte público, não polui o meio ambiente, é financeiramente mais econômico, promove a atividade física e ocupa menos espaço nas vias, colaborando com grande parte do problema que a periferia enfrenta atualmente.

A mobilidade não trata apenas da quantidade e qualidade do transporte público. Trata também da manutenção e acessibilidade dos meios de transporte, ruas, estradas e vias de acesso através das quais o cidadão se locomove, de modo que se deslocar de um lugar para o outro seja equitativo, confortável e seguro para todos, desde a criança até a pessoa com deficiência.

Para mais informações, acesse a pesquisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL