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São Paulo e as ladeiras

Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

10/10/2020 04h00

Eu fico bastante impressionada com a facilidade com que nós, como sociedade, encontramos novas formas de construir dificuldades. Por exemplo, um dos comentário mais comuns por aqui no meu blog é o que diz que andar de bicicleta é algo até que legal, mas logisticamente impossível de se estimular aqui em São Paulo.

Para sedimentar tal afirmativa, muitos colocam como principal barreira a topografia da cidade. Bom, primeiramente eu duvido que a maioria dos descrentes já tentou subir as ladeiras. Digo isso por quê eu nem pedalo há tanto tempo assim e nem tenho histórico de atleta e subo não todas, mas algumas ladeiras. E as ladeiras que eu não subo eu resolvo de forma muito simples: eu levanto da bicicleta e empurro. Não existe desonra em empurrar a bike na ladeira, eu juro. E, sinceramente, eu não entendo tamanho medo de ladeiras. Elas não são eternas. Não existem ladeiras infinitas. Uma hora, elas acabam, cada uma no seu tempo e na sua inclinação.

Sim, existem muitas ladeiras em São Paulos, mas também existem muitos momentos de terrenos mais planos O que, inclusive, faz muito bem pra saúde, pois deixa o nosso exercício mais complexo ao alternar períodos de maior e menor necessidade de energia. Não preciso nem repetir, porém vou: bicicleta é um dos exercícios mais completos que podemos praticar, movimentando diferentes grupos de músculos, não só os das pernas.

Outro ponto que colocarei é o que quanto mais pedalamos, mais fácil é pedalar. Claro que no momento em que nos encontramos, em que a maior parte de nós se alimenta basicamente com alimentos ultraprocessados, possui rotinas completamente sedentárias e não foi ensinada a ter auto estima e acreditar que pode sim transpor barreiras simples como subir uma ladeira, de fato, o desafio fica bem maior.

Claro, não sejamos ingênuos (as) de colocar aqui que basta todas e todos começarem a pedalar agorinha mesmo que vários problemas de mobilidade se acabarão. Sabemos que não. Mas a movimentação e a luta pelo direito à cidade precisa existir, exatamente para que toda e todo cidadão de São Paulo possa acessar qualquer lugar da cidade com a sua bicicleta, e não somente os sujeitos que se encontram nas áreas centrais. Tem que ser normal um (a) candidato (a) tocar sempre nesse assunto. É necessário criar facilidades para que a cultura ciclista floresça.

Sempre que uma vozinha interna na sua cabeça te disser que algo não pode ser feito, e você nem sequer sabe da validade daquela afirmação, SE QUESTIONE. É sempre bom pensar "A quem serve eu me sentir incapaz e impotente de subir ladeiras?". É a indústria automobilística que quer te vender carros? É o sistema neoliberal que nos quer sempre presos às mentiras que nos façam consumir? É a forma capitalista de ver a cidade que nos empurra a tratar o espaço público como produto, e não como direito?

Não estou aqui para trazer respostas, e sim para te deixar com essa intriga na sua mente. Por que você acha tão impossível considerar bicicletas como um transporte individual digno e ativo na cidade?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.