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Ministério da Agricultura e o nutricídio da população brasileira

Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

24/09/2020 13h36

Hoje eu ouvi o episódio do dia 21 de Setembro do podcast diário da Folha, o Café da Manhã. O título é "Rita Lobo e o ataque ao Guia Alimentar". Eu nunca tinha ouvido falar sobre o tal publicação, então fiz uma rápida pesquisa para entender o por quê raios o Ministério da Agricultura está pedido a revisão do conteúdo do Guia.

O Guia Alimentar Para A População Brasileira foi criado em 2006 pelo Ministério da Saúde e relançado em 2014 numa versão mais completa. Seu objetivo é o de promover bons hábitos alimentares e valorizar a cultura, a gastronomia e os ingredientes nacionais. Em suas páginas, encontrei numa linguagem bem acessível dicas de como estruturar rotinas alimentares de forma barata e valorizando a sazonalidade do que a natureza nos provém, além de uma grande explicação da importância da nossa amada dupla, o arroz com feijão. Tem até um questionário para você identificar em que pé de saudabilidade está a sua alimentação.

Tudo o que acabo de descrever nos faz questionar quais seriam os motivos de existir uma articulação dentro do Governo Federal para rever as diretrizes do Guia e, pasmem, uma das reivindicações trata da revisão da classificação de alimentos ultraprocessados.

Alimentos ultraprocessados são aqueles que passam por tantos processos industriais e adição de elementos químicos que nem são mais considerados comida. Eles podem ter cheiro, textura e gosto de comida. Contudo, são tão empobrecidos nutricionalmente que, quando entram no nosso organismo, não oferecem nenhuma vantagem. Na verdade, muitos estudos apontam os alimentos ultraprocessados como protagonistas no desenvolvimento de diversas doenças. São eles os biscoitos, bolachas recheadas, sucos industrializados, lasanhas congeladas, macarrões instantâneos, refrigerantes, salgadinhos e por aí vai, pois a lista é longa.

Sabemos que muitos desses alimentos ultraprocessados são super presentes na alimentação dos brasileiros. Inclusive, eles possuem o estigma de serem uma comida "elitizada". Comprar comida congelada é tido como algo de mais prestígio social do que comer frutas. Muitos pais e mães acreditam realmente estar alimentando suas crias com o melhor que a indústria alimentícia pode produzir. A questão é exatamente essa: na maioria das vezes, o melhor da indústria alimentícia é, na verdade, o pior que podemos colocar para dentro dos nossos corpos.

Llaila O. Afrika, médico e autor do livro Nutricide: The Nutritional Destruction of the Black Race, cunhou o termo nutricídio, conceito este que infelizmente se mostra bastante pertinente ao debate do Guia Alimentar. Citando o texto do @coletivoveganopopular, no Medium:

"(...) discute a degradação da saúde de pessoas negras através da mudança alimentar de suas culturas pela inserção de uma alimentação colonialista, regida por brancos e multinacionais, afeta hoje principalmente a população negra periférica, pessoas com pouco estudo e populações rurais."

Sabemos que a indústria alimentícia é infinitamente rica e muitíssimo poderosa e, pelo visto, encontrou grandes simpatizantes de sua causa nutricida dentro do governo atual. Termino este texto com as seguintes pergunta: Por quê o Ministério da Agricultura e o Governo Bolsonaro nos quer fracos, doentes e debilitados?

PS: Para aqueles que acreditam numa alimentação saudável, balanceada e acessível à todas e todos, apoiem e assinem o manifesto em defesa do Guia Alimentar para a População Brasileira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.