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Milo Araújo


Milo Araújo

Eu dei uma pedalada

Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

14/07/2020 14h13

Alguns dias atrás tive a necessidade de estar presente corporalmente na Vila Olímpia. Fazia um tempão que eu não precisava sair. Acho até que tinha esquecido como que anda por aí num lugar que não é o bairro onde eu moro. Bateu até um certo nervosismo. Acho que me acostumei demais com o interior da minha casa. Mas também vi a oportunidade de pedalar.

Tadinha da minha bicicleta. Antes, era um item essencial para o funcionamento normal do meu cotidiano. Hoje, está mais para item de decoração. Mas, saibamos todos por aqui o quanto meu coração dói de vê-la reduzida a mero objeto. Pedalar me faz uma falta danada. Enfim.

Vi essa necessidade de saída como uma bela oportunidade para pedalar. Logo, o nervosismo se transformou em empolgação. Eu sabia aquele caminho de cabo a rabo. Não teria estresse nenhum. Que felicidade!

O momento de me arrumar - procurar os shorts mais confortáveis, prendendo o cabelo de forma confortável, ajeitando as coisas dentro da bolsa - teve outro sabor. Tive um outro cuidado, outro carinho. Muito bom fazer algo que você gosta depois de muito tempo. Bom, no final de tudo, subi na bike e cai na rua.

Depois de tanto tempo parada, o pneu tava meio murchinho. Tendo isso em mente, me dirigi até a bicicletaria mais próxima. Nela, tive aquele lembrete de que, quando você sai para o mundo, colhe as coisas boas e as ruins, sempre. Pedi a bomba emprestada e, enquanto bombeava ar para dentro dos pneus, os homens me perguntaram mil vezes se eu precisava de ajuda. Aquela insistência de quem acha que você não é capaz de saber sobre cuidados mínimos em relação à sua própria bike. Mas preferi não me irritar. Subi logo na bicicleta e esqueci disso.

Durante o trajeto, fui assediada algumas vezes. Eu tinha esquecido como os homens assediadores absolutamente surtam quando enxergam uma mulher exercendo um pouquinho de liberdade. Eles não aguentam. Precisam de qualquer jeito fazer com que ela se sinta, um pouquinho que seja, infeliz.

A sensação do exercício no corpo foi bastante revigorante. Apesar de sentir uma óbvia dificuldade de subir ladeirinhas que antes eu já estava tirando de letra, mas eu não me importei. É normal depois de tanto tempo parada por motivos maiores ficar um pouco mais fraca. Eu é que não vou pegar mais uma culpa pra mim!

Amanhã vou precisar sair de novo para buscar um documento. Se estou ansiosa? Demais! É isso. O negócio é tentar sublimar os assediadores e procurar focar no seu prazer, no seu corpo e no seu caminho!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Milo Araújo