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Milo Araújo


O movimento sempre acha o seu jeito de emergir

Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

29/06/2020 11h49

Minha intenção sempre foi escrever sobre movimento. Fui convidada a compor o grupo de blogueiros do ECOA pela minha movimentação no mundo do ciclismo urbano. Eu estava muito empolgada com a minha recém-adquirida habilidade de me mover por longas distâncias pelo labirintos de ruas, avenidas e vielas que é a cidade de São Paulo. Isso faz pouco mais de 1 ano. Desde então, muita coisa mudou no mundo. Tivemos que ampliar nosso conceito de movimento. Todos nós.

Admito que, pra mim, doeu muito de repente, não poder sair e me movimentar. Eu tinha acabado de descobrir o prazer que me trazia andar de bike por aí, subindo ladeiras e afins. Como muitos no Brasil, eu passei a vida negligenciando as necessidades de exercícios do meu corpo. Março e abril foram os meses mais difíceis. Mistura de medo, impotência e tristeza me acometiam o tempo todo. Eu sempre trabalhei alocada, e costumava passar meus dias conversando com muitas pessoas. Sinto muito prazer em conversas que acontecem em encontros físicos, e não digitais. Nada contra este último. É só que, realmente, ele costumava ser minha última escolha.

Eu procurei manter minha rotina de exercícios, mas, infelizmente, não consegui atingir as metas que estipulei para mim mesma. Mesmo percebendo que nos dias em que conseguia me exercitar acabava sendo também dias de melhor humor, nosso corpo e disposição agem por meios desconhecidos nesses meses de clausura. Hoje, faço quando posso, quando me sinto forte, sem me culpar pela falta de frequência bem delimitada. Estou tentando levar a minha mesma na base de auto gentileza, pois o mundo anda muito duro do lado de fora.

No início da quarentena algumas modalidades de encontros digitais me causavam bastante estranheza, mas hoje me vejo melhor adaptada às novas formas de estar em movimento. Devo dizer que falo do lugar de uma pessoa que está há praticamente 4 meses sem sair de casa, a não ser para ir ao mercado comprar coisas. Entrei em grupos de Whatsapp de redes que eu não conhecia e não fazia parte. Recentemente participei até de algumas festas por videoconferências. E pior: gostei! Também participei de algumas lives nas quais conheci pessoas que talvez, em outras situações, não conheceria. Tudo isso de forma muito natural. Até mesmo acabei criando um pequeno grupo de leitura de livros com uma grande amiga. Essas coisas me fazem lembrar que não estamos sozinhos dentro de casa.

O que me faz refletir sobre o natural estado da condição humana: o movimento. Independente se pedalando velozmente ou se sentados na mesinha do computador, sempre achamos nossas formas de criar movimentos e neles nos deixarmos envolver. Mesmo em tempos sombrios, a vida se prova novamente muito abundante, fazendo questão de achar suas brechas e transbordar sobre todas e todos nós.

Milo Araújo