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Milo Araújo


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O vírus fascista ocupou as ruas

31.mai.2020 - Ato a favor da democracia e contra o racismo aconteceu neste domingo na avenida Paulista, em São Paulo. O ato foi organizado por torcidas organizadas do Corinthians - Roberto Casimiro/Estadão Conteúdo
31.mai.2020 - Ato a favor da democracia e contra o racismo aconteceu neste domingo na avenida Paulista, em São Paulo. O ato foi organizado por torcidas organizadas do Corinthians Imagem: Roberto Casimiro/Estadão Conteúdo
Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

02/06/2020 14h48

Essa semana nos deparamos com uma encruzilhada brutal: manter a quarentena e a baixa circulação do vírus ou estar presente nos protestos que foram convocados pelos movimentos negros e antifascistas. Sinceramente, acho que não existe caminho certo para qual caminho tomar durante essa semana. Até por quê, está mais do que dado que o isolamento social não é uma solução democrática e acessível a todos. Temos medo e os riscos são muitos. Além da possibilidade de entrar em contato com o Covid-19, temos uma das polícias mais letais do mundo. Todavia, uma coisa se mostrou transparente como água: a ocupação do espaço público é essencial para a articulação política.

Longe de mim tirar a importância das facilidades que a internet nos trouxe. A gente se comunica numa velocidade gigantesca com literalmente o mundo todo. É inegável que a semana de intensos protestos por conta da morte de George Floyd, sufocado por um policial branco na cidade de Minneapolis, influenciou nas movimentações de protestos que estão ocorrendo hoje enquanto escrevo, domingo (31). Ao assistirmos os vídeos do que tem rolado lá pelos EUA, a primeira impressão é de choque. Estávamos imersos no clima da quarentena e de repente, temos um conflito aberto entre manifestantes e policiais, numa aglomeração sem limites.

Aqui no Brasil também estamos tendo provas (como se precisássemos de mais provas) que vidas pretas não importam, independente se estamos atravessando a maior crise sanitária do século. João Pedro foi baleado dentro de casa, respeitando as diretrizes da OMS.

Os ambientes digitais e físicos possuem cada um suas peculiaridades. Estar face a face com as pessoas na rua, protestando por algo, exige muita força, convicção, bravura, afinal, seu corpo está em jogo! Principalmente se você é um corpo visto pela corporação como matável. Esse desrespeito com a vida das pessoas negras é grande demais para se manter apenas na esfera digital. O contexto exige olho no olho. E sim, é uma grande pena que sejamos forçados a isso. É uma grande pena que mesmo passando por uma crise de saúde sem escalas, o braço armado do Estado seguiu na sua sanha genocida, não só no Brasil, mas nos EUA também.

Também é notável a escalada no crescimento de células neonazistas no Brasil, que aliadas ao negacionismo científico, se sentem absolutamente livres para ocupar as ruas e se fazerem vistos e presentes. Entre o Coronavírus e a ascensão descontrolada do fascismo aqui no Brasil, nos restam poucas opções. Precisamos prestar atenção às próximas semanas e nos posicionar. Elas serão decisivas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Milo Araújo