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Milo Araújo


Tratar saúde como mercadoria, uma hora ia dar mer**

Equipes de limpeza lavam ruas, calçadas e bancos próximos a hospitais - Divulgação
Equipes de limpeza lavam ruas, calçadas e bancos próximos a hospitais Imagem: Divulgação
Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

23/03/2020 04h00

2020 veio para mostrar que 2019 foi apenas uma brincadeira de criança. Hoje a diretriz é, quem puder parar e se enclausurar em casa, que o faça! Claro, sabemos que o famigerado home office é uma condição que apenas uma parcela limitada da sociedade brasileira pode se prestar a fazer. Aos outros, até o momento, tem restado sair e se arriscar e arriscar as pessoas próximas. E alguns podem pensar "Poxa, quem está saindo têm assumido uma atitude bastante irresponsável, não?". Bom, vamos começar uma reflexão aqui.

Está sendo um período doloroso, e eu acredito que o pior ainda nem chegou. Porém, se tem uma coisa que o coronavírus nos trouxe, foram pontos para revermos nosso comportamento em geral. Quem diria (muita gente diria, rs) que enfraquecer e sucatear os braços públicos, como o SUS e as universidades públicas, nos colocaria em maus lençóis? Quem diria que focar todos os esforços da economia para o bem-estar das grandes corporações em detrimento do cidadão, com grandes doses de desequilíbrio, nos deixaria tão vulneráveis? Em quarentena, temos tido bastante tempo para pensar: o corona está deixando transparente que viver girando em torno do capital, sem pensar que atrás dos números existem pessoas, iria nos deixar uma conta cara mesmo. E sabemos quem acaba pagando a maior parte no final.

Tem sido evidente o despreparo das sociedades liberais para lidar com a crise. Afinal, o corona se espalha numa velocidade alarmante e abrange grandes massas num curto período de tempo. Um vírus com essas características é impossível de ser parado com ações individualistas. O raciocínio aqui é bastante simples, em tese: cuidar do outro é igual a me cuidar; distribuir renda é também assegurar que eu terei emprego; a economia é coletiva e a saúde também; os seres humanos são conectados. Parece tão óbvio, não é mesmo?! É doido pensar que o sistema liberal, que é o guarda-chuva das nações ocidentais, não se arquiteta pensando desta forma. E, por isso, hoje essas nações começam a entrar em colapso.

Muitos países não estão conseguindo cumprir as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS). E não conseguiriam mesmo. Quando saúde é mercadoria, e não direito básico, fica muito difícil lidar com uma pandemia global. Num lugar como os Estados Unidos, país onde pessoas entram em falência, vendem carros e casas para pagar dívidas e contas médicas, como se proteger desse vírus avassalador? Vão ter que repensar, sim, a forma com a qual olham para o mundo e para si mesmos. E nesta mesma toada, também terão de se rever países que cultuam o financeiro sem olhar para o social. E dentro deste cenário de filme de terror, vêm de dentro do governo brasileiro propostas que dariam ao patrão o poder de diminuir o salário dos trabalhadores, logo no momento que é de essencial importância que seja injetado dinheiro na economia. O Estado vai ser cada vez mais demandado e vai precisar ser fortalecido. A revisão do teto de gastos da República precisa ser revisto.

Enquanto refletimos, por favor, lave as mãos por vinte segundos, tome banho ao chegar da rua se você não pode ficar em quarentena e não coloque as mãos no rosto.

Milo Araújo