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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A guerra continua, e eu apenas acabei de acordar

Garota nua em pé, virada para a esquerda (1918) de Egon Schiele - Desenho original do museu MET, aumentado digitalmente por rawpixel/Domínio público
Garota nua em pé, virada para a esquerda (1918) de Egon Schiele Imagem: Desenho original do museu MET, aumentado digitalmente por rawpixel/Domínio público
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

19/01/2022 06h00

Me olham
Sempre me olharam
Desde sempre
Quando nem mesmo eu sabia que meus gestos eram incômodos

A análise combinatória dos fatos
E dos atos tão comentados
Faziam parte de um cotidiano infantil

Um cochicho ali
Um sentimento de culpa
Uma sentinelagem constante de um corpo que ainda breve
Pequeno
Ingênuo
Que mais pensava em fluir os modos que conter suas ideias por medo

E o medo
- Ah, O medo! -
Foi se mostrando mais fundo
Cada vez mais por perto
Decerto não por convite
Por desejo
Mas por convocatória do time que por todos os cantos
Sem descanso
Se punha a vigiar a criança

O tempo passa
A criança cresce
O medo digual
Mas ao mesmo tempo a petulância
A coragem
A ganância de compreender quem era esse tosco acompanhante
Que nunca se pusera distante
Mas que
- Lembrava -
Nunca foi um convidado

O medo passa
O peito cresce
O cabelo
A voz já não alcança perto
Nem mesmo os passos são tão curtos
E os gestos, agora já mais conscientes
Se põem a sentinelar o entorno

Curiosos olhares que antes oprimiam pelo julgo
Depois estranhantes de um corpo em obras
E enfim gordurosos de desejo

Reprimidos, todos eles
Mesmo que com ares de ódio
Se masturbam enquanto fazem seus relatórios diários
Anotam cada parte do corpo nos dedos
No sêmen
Na cama
Pausam suas rotinas para descarregar suas informações em banheiros públicos
Ou compartilham a céu aberto suas salivas incontidas
E gritam
E gozam
E batem
E amam
- Amam? (Isso nunca a céu aberto!)

Novos contornos e gestos provocam seus infortúnios

O que antes era passível de contenção
Agora
Talvez passável
- duvido -
Talvez possessa
- concordo -
E com certeza potente em seus avanços

Os passos já não são tão curtos
Os traços não são fortuitos
Os gestos não são por medo
Ou fluidos
- Nem sempre, pois a construção da potência demanda estratégia de guerra
E sim
Mesmo na guerra
É necessário saber improvisar

E a sentinelagem continua
Na rua
No entorno
Na mídia
Em todos os cantos
Contornos
Que crescem ou se retraem
Que amadurecem e caem
Ela continua...
Eu continuo...
Continuamos
E nesta guerra
Quente
Constante
Talvez perca quem canse antes
E eu apenas acabei de acordar