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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Entre Silveros e Redmaynes... a quantas anda o transfake no mundo?

Eddie Redmayne em Garota Dinamarquesa (à esquerda) e Silvero Pereira, que está com o espetáculo BR-TRANS - Divulgação
Eddie Redmayne em Garota Dinamarquesa (à esquerda) e Silvero Pereira, que está com o espetáculo BR-TRANS Imagem: Divulgação
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

01/12/2021 06h00

Em março deste ano publiquei aqui minha coluna "Você sabe o que é transfake?" a fim de ampliar e persistir nesse debate tão importante referente à dignidade, empregabilidade e respeito às transgeneridades nas artes da cena. Hoje retorno com o assunto, mas desta vez com o intuito de avaliar as últimas notícias e os andamentos dessa prática (ou fim dela).

Há poucos dias pudemos acompanhar uma declaração do ator londrino Eddie Redmayne, indicado ao Oscar por seu trabalho no longa A Garota Dinamarquesa. Redmayne, em entrevista à publicação britânica Sunday Times, afirmou que ter interpretado no cinema a vida da mulher trans Lili Elbe foi um "erro" e que hoje não aceitaria o papel. A postura do ator — apesar de tardia, dado que a prática do transfake aconteceu e o filme continua em exibição por streaming — é um sinal de avanço no reconhecimento da luta pela representatividade transvestigênere no audiovisual. Ele, enquanto um ator que alcança públicos do mundo todo, dizer publicamente que reconhece o erro e que não praticará mais transfakes ao longo de sua carreira é um recado para que outros (as) atores e atrizes reconheçam a importância dessa luta e se aliem a ela.

Halle Berry, em 2020, também se inclui no grupo de artistas cisgêneros que hoje compreendem essa problemática. Após o público tomar ciência de que ela interpretaria um homem trans em um filme, foi bastante criticada, em suma, por pessoas trans. Após o ocorrido, e se propondo a entender melhor as reivindicações que chegavam até ela, Berry desistiu do papel e declarou sua compreensão, reafirmando a importância do personagem ser interpretado por um ator trans.

Em contraponto, aqui no Brasil, vemos ainda uma resistência muito grande em relação a essa mudança. No ano passado tivemos a infelicidade de assistir a duas novelas consecutivas reprisadas pela Rede Globo com personagens trans interpretados por atores e atrizes cis: A Força do Querer (com Carol Duarte interpretando o personagem Ivan e Silvero Pereira a personagem Elis) e Império (com Ailton Graça no papel de Xana Summer). Apesar de vermos a tentativa da emissora de se atualizar nos debates sociopolíticos e começar a contratar pouco a pouco atrizes e atores trans, é inegável o equívoco ao transmitir novamente duas novelas em sequência com esse tipo de prática presente.

Por falar em Silvero Pereira, o ator conhecido por ser um dos artistas brasileiros que mais praticaram transfake em sua carreira declarou recentemente o fim de seu espetáculo BR-TRANS, porém nos deixa dúvidas sobre suas palavras. Em 2020, Pereira disse durante uma live com a ABGLT que finalmente compreendeu que não deveria mais interpretar personagens trans e, portanto, cessaria essa prática em sua carreira. Porém, pouco tempo depois, apresentou seu espetáculo Uma Flor de Dama (2002) pelo Museu da Diversidade Sexual (SP), contradizendo sua afirmação. Agora, para "comemorar" o fim das apresentações de BR-TRANS, ao invés de simplesmente nos permitir a celebração por não apresentar o espetáculo novamente, torna a circular com o mesmo, nos dando um último (des)gostinho de vê-lo em cena insistindo no erro.

Como se não bastassem os anos de equivocadas apresentações desse espetáculo e de outros trabalhos que caminham na mesma estrada do desserviço, o ator resolve transformar seu encerramento em uma insistência. No dia 8 de dezembro, em Porto Alegre, será realizada a última apresentação e, para esse momento fatídico, contará com um pocket show da artista Valéria Barcellos.

Barcellos é uma grande cantora e atriz, reconhecida por sua voz potente e sua atuação dentro e fora do Brasil. Fica então as perguntas: Por que Silvero não abdicou até o momento de seu protagonismo e, num gesto consciente, convidou uma atriz trans para assumir seu lugar — até mesmo a própria Valéria? Será que ele acredita ser uma bela homenagem tornar à cidade onde o espetáculo nasceu para, mais uma vez, recorrer à prática do transfake?

A presença de Barcellos no evento sem dúvida trará reflexões profundas sobre o assunto, dado que ela é uma artista extremamente consciente e envolvida nesta luta, mas a cisgeneridade ainda insiste em se equivocar e, não obstante, violentar as existências trans repetidamente através destes equívocos em troca de aplausos e saudosas "comemorações" de suas práticas violentas e transfóbicas.

É necessário não só que essa luta parta de nós, pessoas trans, mas que mais e mais artistas cisgêneros reconheçam o problema. Quando Halle Berry, Eddie Redmayne entre outres falam publicamente sobre o assunto e, mais do que isso, agem para o fim dessa prática, as estruturas se transformam. É preciso que atores e atrizes cis continuem negando papéis trans e reforçando a importância de nós, artistas trans, sermos contratades para os mesmos. Mais do que isso, é preciso que as produções cinematográficas, teatrais e televisivas parem de procurar atores e atrizes cis para essas personagens e olhem para a vasta quantidade de pessoas trans que hoje trabalham como atores, atrizes e atrozes. Por todos os lugares vemos um crescente número de artistas capacitades para tal ofício, enfrentando a dificuldade de um mercado escasso de papéis para pessoas trans que, quando existem, ainda muitas vezes são disputados com os transfakes.

Precisamos também de roteiristas e diretores(as) trans assumindo essas narrativas, pois nos deparamos recorrentemente com personagens construídas por uma ótica cisgênera, estereotipada e refém das limitações de quem as escreve. Nossa complexidade, pluralidade e subjetividade só é possível de se construir nas artes da cena quando estamos presentes e de forma transversal, proporcional, sem singularizar nossas existências.

Seguimos na luta. Felizes por ver pessoas cisgêneras compreendendo a violência da prática do transfake, porém de olhos bastante abertos. Assim como Silvero Pereira já voltou atrás para seu benefício próprio, não podemos ficar desatentes em relação aos passos que a cisgeneridade aparenta dar. Atentemo-nos aos nossos, de avanço, de conquista e, aos demais que compreendem a importância de nossos atos, recorram a nós para construir um contexto mais digno para as pessoas trans, nas artes e na sociedade em geral.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL