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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ser travesti salvou a minha vida

Lune (@lunecornio)
Imagem: Lune (@lunecornio)
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

24/11/2021 06h00

Me lembro dessa mensagem
Que um dia minha irmã me falou
E com ouvidos torcidos de espanto
Eu tentava entender o enigma
Como era possível
Neste país tão assassino
Ter a vida salva pelo fato de ser um alvo?
Mas como travesti é tudo estranha
Pensa do avesso pra enxergar as verdades
Caminhei um pouco mais longe pra deixar tudo ecoar
E passados sete anos
- Que pros cis é apenas um -
Passado, então, meu setênio
ligeira e mais vivida
Senti a frase gelada pegando embaixo da minha bexiga.
Apertei o bicho de jeito
Como quem entende um babado
E com a sensação do mundo parado petrifiquei a matutar
Salvou sim, entendo o ponto
Pois antes estava ausente
Antes era desencontro
Não era vida, era tempo
passando, etéreo, tonto
Desencontrado, decerto, pelas cortinas de fumaça que se impunham ao redor
Salvou, pois agora vive
Agora se toca e se move
Se pisca, se ri e escarra
Toda a inércia que já se foi.
Agora, mesmo no sangue
No suor da calçada e do grito
Não mais presa no mito
Do homem que um dia se fez.
Agora, de fato, garota
Mulher, menina, puta
Dessas que sabe que o mundo sempre lhe pagou pra calar
Mas agora a trava cobra meixmo
Sem pudor e sem receio
Todo o farelo azedo
Todo o chão, todo o escanteio
A exclusão
O farejo que desenvolveu pra caçar.
De morto, só aquele nome
O xuxu
O pronome
O gay
A ideia de homem
Ou alguém que lhe atrapalhar.
Ser travesti que me salva
- obrigada, irmã, por isso -
De ter me perdido na história que pro meu pênis tentaram contar.
Ser travesti que me salva
De me perder sem juízo
De valores que hoje afundam os que tentam nos controlar.
"Ser travesti custa caro"
- Também já me disse outra irmã -
E assim o pajú vai crescendo
A cultura oral renascendo
Transcestralidade ganhando
Corpo, memória e batom
E de salto em salto no tempo
Ganhando ou perdendo no trampo
Nos resta as palavras e o canto
Pra manter vivo o corpo
Pra não esquecer lá do morto
E saber que se agora tem algo que nos serve de reparação
É navalha da história contada
Pela saliva de todas as nossas
Pela labuta de cada boneca
Que se salvar nesse chão.

*Dedico esse poema à Renata Carvalho, minha irmã, amiga e artista que tanto me ensina e ensinou até aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL