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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem cuida dos homens grávidos?

Ilustração de feto em útero, publicada pelo médico D. Lloyd Roberts, em 1876 - Getty Images/iStockphoto
Ilustração de feto em útero, publicada pelo médico D. Lloyd Roberts, em 1876 Imagem: Getty Images/iStockphoto
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

17/11/2021 06h00

O avanço dos direitos e da visibilidade de pessoas trans na sociedade tem trazido consigo mudanças estruturais e de linguagem que muitos teimam em ignorar ou refutar por mais que não haja argumentos contra a realidade dos fatos. Por exemplo, hoje vemos um aumento constante de casos de homens trans grávidos — vários deles acompanhados de mães travestis — gestando seus bebês e encarando a crueldade da sociedade para com essa evidência.

O despreparo médico para com pessoas trans é imenso, em todas as áreas. É extremamente comum pessoas trans deixarem de buscar assistência médica por falta de profissionais devidamente capacitados para tratá-las com respeito e dignidade. Imagine então quando estes mesmos se deparam com homens gestantes. Assistimos à transfobia escancarada em pré-natais retardados por falta de atendimento de qualidade, recusas de consulta pelo simples fato de ser um homem gestando e não uma mulher cisgênero... Questões que insistem em dificultar um processo natural que é o da gestação.

Pudemos acompanhar no último final de semana, por exemplo, o caso do artista Lourenzo Gabriel (Aqualien) e sua companheira Isis Broken que, após saírem de uma consulta de pré-natal em São Paulo - cidade para onde se mudaram em busca de um atendimento médico mais digno, dado que em Sergipe passaram inúmeras transfobias e recusas de atendimento por parte de médicos da rede pública e privada - sofreram violências explícitas por um motorista da Uber, incluindo ameaças de agressão.

Por sorte, o casal conseguiu escapar de uma pior situação. Porém é revoltante assistir às violências sucessivas que vêm passando nesse processo que deveria ser tão respaldado socialmente. O motorista, em vídeo e áudio registrados pelo casal, explicita todo o seu ódio em sucessivas ameaças pelo simples fato de Aqualien ser um pai gestante e Isis, travesti, a mãe do bebê.

Além das violências sociais recorrentes nesses casos, outro ponto a ser considerado é a violência obstétrica. Como já citei anteriormente, podemos reconhecer que nesses casos as violências começam muito antes do momento do parto, agora, imaginem neste dia tão fatídico. Lutamos para conseguir parteiras, doulas e/ou médicos/médicas minimamente humanizados e informados sobre a realidade de pessoas trans para que estes casos tenham o acolhimento devido, porém ainda não é algo tão fácil assim.

Nossa sociedade teima em ignorar o fato de que homens também podem engravidar. Quando ignoram esse fato ignoram, automaticamente, a existência de pessoas trans, colaborando para a desumanização e marginalização das nossas existências. Tenho visto com certa frequência manifestações de mulheres cisgênero que se julgam feministas, reivindicando o direito da "maternidade", não em prol dos seus cuidados necessários, mas pelo único e exclusivo motivo de refutar nossos argumentos de que utilizar o termo "maternidade" para se referir a todas as pessoas em processo de gestação reforça este apagamento e ignora a gestação transmasculina ou de pessoas não-binárias com útero.

Em momento algum ignoramos o fato de que a maternidade existe ou que mulheres cisgênero podem gestar - imagino que ninguém duvide disso - porém é esmagadora a insistência destas e da sociedade como um todo em excluir os homens trans e pessoas não-binárias deste debate, assim como de diversas outras pautas relacionadas a corpos com vagina e/ou útero. Ignorá-les e excluí-les é colaborar com o sistema de opressões que recai inclusive nelas mesmas, mulheres cisgênero. Não são vítimas da transfobia, porém das violências obstétricas e do descaso médico, frutos de uma sociedade misógina e patriarcal. Precisamos compreender que esta binaridade cisgênero é uma lógica genocida, seja pelos assassinatos cometidos direta ou indiretamente, devido às negligências de direito e assistência à população trans. É impossível ignorarmos estes fatos, e é necessário que nos movamos coletivamente para transformar essa situação.

O que dificulta o atendimento de um homem trans gestante por parte de um médico se não sua transfobia? Não há grandes diferenças na recepção desse homem em relação a uma mulher cisgênero grávida. São corpos gestando crianças. São processos e fisiologias semelhantes, apenas com identidades de gênero e talvez taxas hormonais distintas. Apenas a transfobia, nesses casos, explica tantos empecilhos.

Casais e famílias transcentradas vêm se tornando cada dia uma realidade mais comum. Pessoas trans se relacionando afetivo-sexualmente entre si tem sido uma forma de resistência e de encontrar parcerias onde a violência transfóbica não exista, ao menos não entre ambos - o que já nos alivia muito. O nascimento de bebês dessas famílias é inevitável e não é nada totalmente novo, porém - e infelizmente - vemos a sociedade avançar muito lentamente em suas compreensões sobre essa realidade.

É muito comum, quando escrevo aqui sobre infâncias trans ou até mesmo quando critiquei o ritual do chá de revelação - leia mais em "Chá de revelação: sabor de transfobia com aromas genitais" - comentários dizendo frases como "deixem nossas crianças em paz", "deixem as crianças longe disso" ou qualquer coisa do tipo, insinuando que as crianças são única e exclusivamente fruto da cisgeneridade e/ou posse da mesma. Primeiro que sim, é exatamente esse o meu intuito com minhas reflexões, que deixemos as crianças em paz, livres de imposições de gênero e comportamento social previamente estabelecidos por sua identificação genital, porém agora pergunto a vocês: e estas crianças, filhas de pessoas trans, o que vocês estão fazendo por elas? O que vocês, médicos, estão fazendo para melhor atender homens grávidos em seus processos de gestação? E enquanto sociedade civil, o que estão movendo para que estes gestantes sejam acolhidos e respeitados durante esse processo e em todos os espaços que frequenta.

Até mesmo o dicionário online tenta corrigir quando escrevo "estes gestantes". Lutamos ainda para sermos reconhecides na linguagem, na palavra, na comunicação que nos guia socialmente. Porém, para acolhermos a palavra na boca, precisamos acolher os sujeitos à nossa volta, mesmo ainda com dificuldades, mesmo sem muita compreensão das diferenças, mas com generosidade e afinco no processo de aprender sobre as nossas existências e pôr em prática o trabalho que tanto estudaram para realizar, agora não mais apenas para a manutenção da norma cisgênero.

Procurada por Ecoa sobre o caso, a Uber enviou o comunicado abaixo:

"A Uber considera inaceitável e repudia qualquer ato de violência e discriminação. A empresa acredita na importância de combater, coibir e denunciar casos dessa natureza às autoridades competentes. A conta do motorista parceiro foi desativada assim que tomamos conhecimento do ocorrido. A Uber permanece à disposição das autoridades para colaborar com as investigações, na forma da lei.

A Uber defende o respeito à diversidade e reafirma o seu compromisso de promover o respeito, igualdade e justiça para todas as pessoas LGBTQIA+. A empresa fornece diversos materiais informativos a motoristas parceiros sobre como tratar cada usuário com cordialidade e respeito e ser um aliado ou aliada na luta contra a LGBTQIA+fobia."

Diante desta nota da empresa nos cabe exigir ações mais efetivas em combate à transfobia. São inúmeros e repetitivos os casos de violência por parte dos motoristas em relação a passageires trans, além de haver registros de negligência e precarização no atendimento a pessoas trans por parte da mesma empresa. Cartilhas e notas de repúdio não são o suficiente para que estas violências cessem. É preciso um trabalho mais vertical, comprometido e com investimento. Enquanto situações como essas forem resolvidas com demissões pontuais em relação a trabalhadores terceirizados a irresponsabilidade e falta de comprometimento das empresas continuarão existindo e a realidade, portanto, seguirá sendo a mesma de sempre, violenta e intolerável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL