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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ainda não acaba aqui

Menselijk oog met een afwijking (1836-1912) -  Impressão em alta resolução de Isaac Weissenbruch. Original do Rijksmuseum. Aprimorado digitalmente por rawpixel. Domínio público
Menselijk oog met een afwijking (1836-1912) Imagem: Impressão em alta resolução de Isaac Weissenbruch. Original do Rijksmuseum. Aprimorado digitalmente por rawpixel. Domínio público
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

27/10/2021 06h00

O que dizer daqueles e daquelas que pouco tecem suas potências
O que dizer
Se não se mostram
Se repelem
Se retraem e não se comovem com a poesia crua.

De que adiantam as lágrimas nas novelas se os amores são sempre iguais
De que adiantam, se não há surpresa
Não há saliva e nem mesmo...
o beijo

De que servem as histórias
Se na falta de surpresa
Na repetição dos papéis
São apagadas e sobrepostas por uma arquitetura que insiste em tornar mais caro o dia
A carne
O suor

De que servem meus braços
Meus olhos
Teu cheiro
De que serve meu dinheiro se ele me cobra todo dia seu valor?

De que serve meu riso, se não para contrariar a expectativa?
De que serve minha narrativa
Que me salva
Que me sobra
Como quase a última coisa que ainda possuo
E perco
E que ganha um novo beijo para acordar do desencanto

De que adianta meu canto
Meu grito
Meu pranto
e até mesmo esse poema que escrevo com muito esforço para tentar sentir que ainda posso

E a dúvida
de que nos serviria
se não para atentar o que está posto

De que serve um pressuposto frente a um dia inteiro
um amanhã
com gosto de não sei o quê
mas que quero saber se gosto

Se me serve a boca para secar no frio
Para guardar os dentes
Para morder, nervosa
Espero que por mais pavorosa que seja essa duvidez
Faça eu me apegar ao simples

O dedo roído
A casca de sangue
A dor do ouvido
A mancha que estava em minha pele antes mesmo de eu perceber

Esses sentidos que me servem.
Talvez por não serem corrompíveis
Talvez até por não me causarem dúvida
Por que ali estão
Existem
E não duvidam de mim.
Talvez por me conhecerem melhor
Por sofrerem das minhas dores que eu mesma desconheço
Por me avisarem dos limites que não podem se exceder.

O frio
O gosto
O texto
Que por mais compreensíveis que sejam em seus sinais
Nos fazem escutar uma voz impressa
Não dita
a cada palavra.

Que a cada despedida
Da memória
Do pretexto
Da casa destruída
Que a cada dor mal doída
Ou história mal dormida
Possa um sonho se completar no café
Da manhã ser um pouco de fé
Apesar dessa ser tão duvidosa.

Que o poema valha mais que a prosa
O espinho mais que a rosa
Por proteger o que está por vir

Que o etéreo
O caos
A encruzilhada
Sejam a fuga da cilada
Da pergunta de um filósofo burguês

Talvez, não sei...
De que me serve a linha
Se a insensatez da minha natureza
Constrói seus respiros no resto
No que ainda não queimou
E me presto dos passos tortos que me fizeram chegar até aqui
E hão de me carregar
Além
Daquilo que só almejo entender
Mas que meus dedos roídos tentam me contar há dias.

Só me restam os caminhos das rugas
Dos dedos
Por permanecer tempo demais debaixo d'água
Porque de nada me serve a mágoa
Se não para me iludir
E me fazer esquecer
Que ainda não acaba aqui
A história que intento contar

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL