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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Arte pela arte" - a violência de não se nomear

Representação do Jardim do Éden por Peter Paul Rubens e Jan Brueghel - Wikimedia Commons
Representação do Jardim do Éden por Peter Paul Rubens e Jan Brueghel Imagem: Wikimedia Commons
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

20/10/2021 06h00

Por diversas vezes em minha trajetória me deparei com pessoas, textos e contextos artísticos que endossavam, destacavam no intuito de valorizar algumas formas de expressão artística em detrimento de outras através do discurso da "arte pela arte". O fundamento de que a arte com pressupostos políticos, "identitários" ou de qualquer outra manifestação que esses - os artistas "pela arte" - julgam desvalorizar ou limitar a um nicho fizeram-me sempre questionar o que os incomodava tanto e, além disso, quais eram/são seus critérios ao julgar uma obra de arte. Por mais voltas que eu desse, por mais pontos de vista que eu cruzasse, sempre cheguei a um mesmo endereço: o privilégio de não se nomear.

Percebi que esses discursos sempre partiam de corpos cisgêneros, brancos e de classe média ou alta. Discursos comumente voltados a desvalorizar e nomear - diga-se rotular, limitar - a arte feita por grupos minorizados, de forma a transformá-las em nicho, em algo que não possui teor universal, atemporal ou, de forma mais vulgar, que não propõe estéticas ou assuntos do interesse de todes, mas apenas daqueles ou daquelas que pertencem ao contexto ou corporalidade de quem a fez.

Artistas negres, trans, indígenas eram e são ainda, por diversas vezes, limitades a um espaço de alcance e atuação dada a valorização da tal "arte pela arte", mas podemos observar como esse discurso tem operado única e exclusivamente para essa distinção, para a segregação de quem essa "elite" acha capaz e/ou merecedor de habitar o status de artista, simplesmente artista, sem adjetivos ou nomes que complementem esse ofício em nome e teor.

Cinema negro, MPBixa, transpologia, arte trans, música indígena... Nomes como esses, na maioria das vezes cunhado pelas próprias pessoas que pertencem a esses movimentos, surgiram ao longo dos anos para valorizar contextos e fazedores de arte que sempre estiveram às sombras da hegemonia. Nomear uma arte preta, trans ou indígena foi e é, por vezes, técnica de nos fazer valorizar esses fazedores e direcionar nosso interesse, buscando um Festival, Mostra ou até mesmo artista específico através do recorte, interessades no que aquele saber, aquela vivência tem a mostrar enquanto arte, através das lentes que leem o mundo. Porém a hegemonia cisgênero e branca mais uma vez, com seu capital financeiro e subjetivo, busca subverter esse olhar.

Na tentativa de desmoralizar o seu diferente, de construir uma narrativa onde esses grupos minorizados só falam - e, segundo pretextos racistas, transfóbicas e classistas, só conseguem falar - sobre seus semelhantes, eles, alvos como a neve, biológicos, civilizados e poderosos são automaticamente validados e absorvidos enquanto universais, como se produzissem uma arte "para todos", uma arte que diz respeito ao que nos é comum enquanto seres humanos - e sabemos muito bem aonde o jargão "somos todos humanos" quer chegar.

Percebem a estrutura política mais uma vez operando nos meandros, vestida de palavras rebuscadas ou nomenclaturas estéticas para embelezar e legitimar o genocídio, a retenção do capital e a propagação da miséria? Percebem inclusive o nível de privilégio daqueles e daquelas que reforçam o discurso da "arte pela arte", a ponto de muitas vezes nem mesmo se dar conta dos reflexos dele? Aprenderam a segregar, a controlar o acesso aos espaços de visibilidade, o dinheiro, até mesmo os algoritmos, elegendo pontualmente de tempos em tempos figuras singulares para, inclusive, creditar suas respostas já tão conhecidas pelos nossos ouvidos: "Mas temos aqui um artista negro/trans/indígena", "como você pode dizer isso se essa pessoa está trabalhando com a gente?". E mais uma vez a exceção serve de justificativa para a manutenção da norma.

Jota Mombaça, eu seu texto "Rumo a uma redistribuição desobediente e anticolonial da violência" diz: "O monopólio da violência é uma ficção de poder baseada na promessa de que é possível forjar uma posição neutra desde a qual mediar os conflitos. O sistema de justiça, produzido pela mentalidade Moderna-Colonial como sistema de polícia, visa neutralizar os conflitos sociais, administrando todas as tensões no limite de uma rede muito pequena de instituições e mitos representados como neutros pelas narrativas hegemônicas."

Nesse trecho em específico ela trata mais diretamente do sistema judicial, colocando em xeque nossa ideia de justiça na sociedade contemporânea, mas trago essa reflexão para cá pois seu cerne da discussão é o mesmo que o nosso. Mombaça visa destituir o poder da neutralidade, nomeando esses que produzem a mentalidade Moderna-Colonial e administram as permissividades, desde regulando quem pode ou não habitar determinado contexto até decidindo o que é considerado violência e quem a produz ou sofre.

Portanto o exercício - voltando para o contexto da arte - é que comecemos a olhar para esses "hegemonistas" citados através dos recortes que eles e elas carregam em seus corpos e trajetórias. Nomeá-los enquanto brancos, cisgêneros e de alto poder aquisitivo é saber que a arte que fazem - ou valorizam - é em suma embebida desse recorte social, racial e de gênero. "Arte pela arte", intento a dizer, poderia ser por nós nomeada como arte branca, arte cis ou até mesmo "arte de rico".

Sobre o estranhamento com essas nomenclaturas e até mesmo a risibilidade ao ler "arte de rico", guardem dentro da boca, ao menos uma vez. Quem sabe rir de si mesmos seja uma ótima ferramenta para reconhecer quão ridícula é essa estrutura de poderes. Ao invés de novamente se esquivarem dos nomes, recebam-nos e reflitam, pois nada mais são do que fruto da análise dos fatos. Continuar valorizando a "arte pela arte" é, portanto, sinal de que ou não sabem quem são no mundo, onde habitam, o que representam, ou lançam mão dessa necessidade, usando e abusando da lógica Moderna-Colonial descrita por Mombaça.

Reconhecer-se como tal, a partir desses pontos, permite que escolham entre a mudança de postura - se responsabilizando pela transformação social a partir de seus contextos - ou a inescrupulosidade de permanecer operando as práticas coloniais que favorecem à hegemonia, portanto, única e exclusivamente a si mesmos. E para nós, habitantes das siglas, rótulos e escassez de recursos, é preciso que olhemos para a arte de rico-branca-cis não mais engolindo-a como algo que nos interessa de imediato. A indústria hegemônica sabe muito bem como nos enfeitiçar, fazendo com que consumamos esses produtos e nos interessemos por eles exatamente para colaborarmos na manutenção da regra.

É urgente que escolhamos melhor o que vemos, ouvimos, vestimos, contemplamos, lemos. Consumir a hegemonia é, consequentemente, consumir suas visões de mundo, seus valores, seus ideais. Se o fizermos, que tenhamos visão crítica, que nomeemos a todo momento seus fazedores e identifiquemos tais valores e assuntos nas obras. Assim, cada dia mais, compreenderemos que ao consumir suas obras estamos estudando a forma que eles enxergam a sociedade, conhecendo melhor como operam suas lógicas, e não mais engolindo goela abaixo como algo que nos diz respeito, como se fossemos os mesmos no mundo.

Nesse processo, optemos cada vez mais por consumir a arte daqueles que habitam contextos e vivências próximas a nós, de forma a potencializarmos, coletivizarmos nosso olhar sobre o mundo. Valorizar e reconhecer a arte de pessoas negras, trans e indígenas é não só permitir que essas prosperem e perdurem em seus ofícios, mas compartilhar de pensamentos que tendem a nos lançar uma perspectiva sobre a sociedade muito mais calcada na realidade, possibilitando-nos construir nossas utopias e/ou desilusões calcadas no chão que pisamos, e não nos ladrilhos das mansões, nos barquinhos do Leblon ou na abstração de mundos que não condizem absolutamente com o que vivemos diariamente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL