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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Stand Up Travesti -- você tá rindo de quê?

A artista Natt Maat durante apresentação no Bixiga Comedy Club - Arquivo pessoal
A artista Natt Maat durante apresentação no Bixiga Comedy Club Imagem: Arquivo pessoal
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

06/10/2021 06h00

O humor sempre foi um território político, de crítica, de disputa de narrativas e transformação social. Se olharmos para séculos atrás, a figura do bobo da corte, responsável pelo riso em algumas monarquias, era a única permitida a tirar sarro do próprio rei sem correr o risco de ser guilhotinada. As palhaças, os bufões... de diferentes formas e em diferentes culturas o riso sempre esteve presente, como cura, como espaço de reflexão sobre a sociedade, porém quem detêm ou deteve o privilégio de fazer comédia até hoje? Quem faz rir? E do quê — ou de quem?

Historicamente as travestis foram colocadas a público como motivo de chacota, seja em filmes, novelas, programas de auditório que repetidamente se utilizaram da nossa imagem para nos ridicularizar. Personagens de programas de comédia que se diziam travesti, porém interpretados por homens cisgênero - transfake - e construindo estereótipos de forma a nos desumanizar, vulgarizar e animalizar. A transfobia escancarada para "divertir" a sociedade brasileira, às custas da violência de gênero, ditando muito bem quem pode rir e quem a quem só resta ser risível.

Mas as coisas felizmente vêm mudando. De alguns anos para cá, com o avanço da discussão sobre a dignidade e os direitos das pessoas trans, nós passamos a ocupar, pouco a pouco, os mais variados espaços de convívio e de trabalho. Espaços estes que nos são de direito, mas que teimam em nos negar. E a comédia não fica de fora dessa. Por isso conversei com Natt Maat, artista que eu já admirava muito pelo trabalho que realiza no rap e que agora tem começado a ocupar os palcos de stand up, questionando o território do riso e construindo outras possibilidades de narrativa a partir da sua corpa e vivência preta e travesti.

Sobre o nascimento desse interesse por fazer comédia ela me conta:

"Desde 2019 eu tenho estudado meios de fazer uma comédia que seja representativa em especial à minha corporalidade e vivência. Assistindo apresentações de comédias das pessoas comediantes brasileiras, é visto como necessidade ter outras narrativas. Enquanto a comédia engloba todo tipo de texto e artista, porque não uma comédia travesti?"

Natt Maat começou esse movimento no Bixiga Comedy Club em 2021, se apresentando de forma recorrente no espaço e pouco a pouco levando mais travestis para experimentarem o palco de Stand Up. Ela conta sobre um momento "épico", quando três travestis se apresentaram no local na mesma noite.

"É a primeira vez que no Bixiga Comedy Club se apresentam travestis. Já haviam se apresentados homens trans, porém travestis não tinham. Como fui a primeira [no Bixiga Comedy] e não gosto de estar sozinha, abri um espaço pra outras entrarem, eu as incentivei de fazer juntas comigo. Então consegui levar mais duas e se tornou um momento épico ter 3 travestis numa casa de stand up comedy. E mesmo que tenha sido um experimento, eu super apoio que seja naturalizado as tentativas de carreira, ainda que pra uma população que não tem oportunidade nenhuma. Esse movimento de pessoas trans na comédia tem crescido, porém ainda com todos os empecilhos de uma vivência trans."

Ela conta que não é a primeira a se aventurar no ramo. Nany People — atriz, humorista e repórter brasileira — já vinha abrindo caminhos na comédia. Nany, hoje com 56 anos, é uma referência importantíssima para nós, não só como comediante, mas como uma pessoa que abriu caminhos na arte desde 1992/1993, quando começou a performar em show de boate - na época, fortemente ocupados por travestis nos palcos. Porém as gerações avançam, a realidade muda e as narrativas que se mostram necessárias de contar também.

"É nítido que eu apresento uma comédia nova, e eu gosto de apresentar um humor que seja consciente o insulto e principalmente dirigido a população que não vive isso - em especial a comunidade cisgênera. A recepção geralmente é variada de incredulidade, de espanto, de não entendimento, até mesmo tem umas reações de alegria pela ocupação do espaço, mas principalmente o humor garantido porque sempre envolvo uma conexão com o público presente."

Os relatos da artista me lembraram um famoso vídeo do comediante árabe Aamer Rahman, no qual ele fala sobre "racismo reverso", ridicularizando o discurso de quem ainda acredita nessa falácia e ignora um processo histórico de violência e opressão do povo preto por parte dos brancos europeus - em suma. Hoje, na cena do stand-up, vemos um aumento de artistas negros cisgêneros. O povo preto, de forma semelhante às pessoas trans, também foi por muito tempo motivo de chacota nas narrativas construídas por pessoas cis-brancas. O racismo e a transfobia, naturalizados na nossa sociedade, fazia com que rissem de nós, mas nunca conosco. Dessa forma, o riso nada mais era do que uma ferramenta de manutenção do poder e do status-quo, perdendo sua potência crítica e transformadora original.

"Sinto falta de ouvir uma piada onde a depreciação não seja eu ou minha corporalidade. Que fique bem explicado que eu não faço humor por obrigação de agradar ou fazer as pessoas cisgêneras rirem, e sim ter a intenção de me fazer rir e assim sucessivamente as que atravessam minha vivência. De acordo com minha perspectiva e interpretação, a comédia travesti é aquela que não nasce para agradar ao público [cis], a comédia travesti nasce pra agradar a mesma, essa que nunca alcançou esses espaços tão facilmente, nem como espectadora, tão pouco quanto apresentadora."

Rir do opressor é totalmente diferente de rir do oprimido. O bobo da corte e o palhaço evidenciam o ridículo do ser humano, suas manias de poder, suas atitudes repulsivas e desmedidas. Fazem-nos rir daquilo que em nós é de fato digno de ridicularização. Nesse sentido, vejo que o levante de artistas pretes e trans no stand up comedy tem sido uma reverência e um resgate destes princípios. Em uma nova linguagem, em um novo formato, mas dialogando com uma sociedade que carece de rir do que merece ser risível. Além disso, assumirmos esses espaços nos permite, como disse Natt Maat, encontrar mais um ambiente possível como carreira artística, onde antes aparecíamos quase que somente nas piadas contadas. Tornar-se quem faz rir, ao invés de sermos motivo de chacota, para que prosperemos em nossa caminhada e possamos construir um pensamento crítico sobre a sociedade também pelo humor, essa arte que há séculos nos faz abrir os olhos para o mundo de maneira tão potente e subversiva.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL