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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Síndrome da impostora? Um vulcão não destrói, restitui!

Imagem de um vídeo feito por um drone noturno mostra o vulcão em erupção e a lava a caminho do mar na ilha de La Palma, na Espanha - Spanish Emergency Military Unit (UME)/Reuters
Imagem de um vídeo feito por um drone noturno mostra o vulcão em erupção e a lava a caminho do mar na ilha de La Palma, na Espanha Imagem: Spanish Emergency Military Unit (UME)/Reuters
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

29/09/2021 06h00

Alertaram-me por diversas vezes que olhasse
Escutasse profundamente
A voz do meu auto-boicote

Síndrome da impostora,
Procrastinadora de primeira...
"Saiba em cinco passos como superar seus bloqueios".

E tentei
Olhei mais uma vez no espelho e falei confiante com minha própria imagem
Que hoje seria diferente
Que não me permitiria derrubar pelos pensamentos negativados.
E caí.
Mais uma vez caí
E fui tropeçando por alguns metros acreditando que o problema estava em mim
E que eu
Somente eu era responsável pelo tombo.

Chega a ser cômico como o neoliberalismo opera na construção da individualidade.
Nos destaca do coletivo
Nos faz crer que existe um eu
E um mundo
- Que é externo ao anterior.
Faz crer que a crença
A força de vontade
Constróem o sucesso
E a garra
Que para os animais serve de auto-defesa
Para nós
Que nos iludimos e nos pensamos desanimalizados
Vira sinônimo da sede de incessantemente
Incansavelmente
"vencer na vida".

Vencer o quê?
Ou quem? - me pergunto
Se me convenceram de que preciso me superar, a luta a ser travada seria comigo mesma?
Impossível
Se aqueles que me negam ouvidos
Oportunidades e dignidade
Não fazem parte das minhas facetas.

E é aí que percebo que
Mais uma vez,
Por mais elaborado que esteja meu mecanismo de defesa contra as artimanhas mérito-gratas,
Caí nas garras daqueles que se protegem de mim.

Se protegem do risco do conhecimento
Da ameaça que uma corpa desobediente
De gênero e dos bons costumes
Pode provocar ao seu redor.

De que serve as garras afiadas do mercado em meio à uma avalanche?
Não há como se segurar.
Não há como ferir uma onda, um vendaval, o fogo...
É mais fácil aceitar o movimento
Capotar e rodar com as águas
Do que tentar a qualquer custo se salvar de sua natureza.

E foi
E é assim que o homem vai se percebendo destacado do todo.
E é assim que começa, em sua sina egóica,
A acreditar que o problema é a onda
O vento
O fogo
E não sua teimosia de querer controlar tudo à sua volta.

Então fui me dando conta que eu
Onda
Fogo
Valia mais que a garra
Valia mais que as pernas
- e nem preciso dizer sobre o valor de não tentar me manter de pé a todo momento.

Quando se vive,
E produz,
A vertigem
É impossível vomitar.
Esse movimento resta aos estáticos
Com sede de subir a pé
Pisando sobre aqueles que formam o chão ao seu redor
Caídos
Por acreditarem que a caminhada árdua
E árida
Dignifica o Homem.

E eu?
Se nem homem sou, quem dirá caminhante ou digna.
E digna de quê, se foram os homens que inventaram esse prêmio?

E então
Nós
Onda
Vento
Cachoeira
Fomos encontrando no caminho outras qualidades de movimento.
Hora pingamos, quase secas.
Hora jorramos, gozosas.
Vez ou outra, tornado
E limpamos à nossa volta tudo que os homens tornaram estático
E rígido
E pensaram eterno.

Acredito que nós
Mulheres
- de certo as que desejam a abundância dos oceanos mais do que das bandeiras hasteadas no Topo da montanha -
Deveríamos nos perceber, então, a própria síndrome.
Os sintomas e sinais de uma condição que impossibilita a rigidez
Do poder
Da inércia
Da estatística patologizante.
Talvez nesse sentido eles estavam certos.
Mas é preciso olharmos para o nosso sintoma enquanto movimento.

Se nós, sintomáticas, sentimos o que nos aflige
Talvez não seja de nós que nasça a doença.
Não?!
Se tossimos, fomos acometidas da baixa resistência
E invadidas por algo externo
Que nos provoca fraqueza e incômodo.
Se temos febre, lutamos contra um organismo estranho
Estrangeiro
Que nos invadiu sem que ao menos percebêssemos seu perigo
Sua presença.
E então vamos entendendo que o estupro tem endereço
Que ele nasce da invasão
Da audácia daquele que, por querer hastear sua bandeira de poder,
Finca em nossas terras seu nome
E marca a história
Dizendo qual fruto deve ou não ser semeado ali
Extraído de nós
E assim
Com a monocultura
Tentam sucumbir nossos nutrientes, nossa pluralidade
Nossa potência de permitir uma vasta gama de vida em nossas mãos
Corpas
Sexos.

Mas olhem só:
Furacões de fogo
Tempestades de areia
Terremotos
Tudo o que disseram que não aconteceria por aqui
Vem chegando mais e mais perto.

Queimaram nossos pantanais
Nossas guerreiras
Amazonas
E ainda assim continuamos vivas para contar a tragédia deles.

Para toda ação há uma reação
Disse um homem intitulado cientista.
E talvez ele nem fosse tão homem assim.
Se conseguiu perceber o movimento que provocamos
Faltou pouco para compreender que o nome Homem
Dado pelos inimigos de suas ideias
Só lhe servia para permanecer vivo por mais uma parcela de tempo.

E nós
Nem vivas nem mortas
Eternas
Vamos nos lembrando pouco a pouco do que somos
Respeitando nossas qualidades e estações
E impostando nossos ares de forma a desmembrar aqueles que permanecem rígidos.

É simples
Ou voa
Ou tudo
Ou nada
E se não aprenderam a nadar
Lamento dizer
Mas é auto-boicote de vocês
Que se esforçaram demais para aprender sobre o acúmulo
E não perceberam que quando a maré chega
Não há nada que carregar além de seu próprio tamanho no mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL