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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Entre Bolsonaro e roteiros de novela a hegemonia escreve suas ficções

O presidente Jair Bolsonaro participa no Palácio do Planalto - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
O presidente Jair Bolsonaro participa no Palácio do Planalto Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

22/09/2021 08h30

A cada dia que passa, aprofundo minha percepção da responsabilidade que é trabalhar construindo narrativas ficcionais. O cinema, as novelas, as histórias que contamos e até mesmo a forma que relatamos os fatos no nosso cotidiano revelam múltiplas camadas de informação sobre nós, sobre o mundo, mas também sobre como nós observamos esse mundo. A repetição de estéticas específicas, assuntos e acontecimentos nessas ficções vão criando uma espécie de acordo entre interlocutor e público, entre quem conta e quem escuta ou assiste, e é aí, nesse acordo, que se encontra a magia e o perigo.

Fui me tornando com o passar dos anos cada vez menos interessada pelas narrativas Hollywoodianas. Me incomoda o fato de praticamente todos os filmes da indústria mainstream enredarem qualquer contexto para culminar numa história de amor romântico. Uma estrutura dramática que se repete e que, independente do conteúdo dos filmes, já sabemos como irá se desenrolar a narrativa. Um trabalho árduo para embutir em nossas mentes que o amor romântico heteronormativo é o fim de todas as coisas: ele salva, ele nos dignifica e ele é nosso maior ponto fraco. Sempre.

As novelas brasileiras não passam longe desse formato. Além dos romances repetitivos — onde mudam apenas os atores, as personagens e os contextos ficcionais — assistimos viciosamente a vida de pessoas majoritariamente ricas brancas e cisgênero vivendo em suas mansões e guerreando para não perderem suas posses e seus status. Para a comida não ficar sem graça colocam uma pitada da periferia estereotipada, às vezes alguma narrativa de uma pessoa negra, trans ou um personagem gay cisgênero que aparenta inovar o contexto, porém sempre dentro de moldes limitados e limitantes, jamais construindo personagens complexas o suficiente para propor outras possibilidades de existência, outras visões de mundo.

E por quê? Por que essas estruturas não mudam se assistimos a sociedade se transformando pouco a pouco? Por que as narrativas parecem sempre estar alguns anos atrasadas, mesmo em suas atualizações? E é aí que está o ponto!

Em primeiro lugar, sabemos muito bem que não interessa aos poderes hegemônicos mudar a estrutura narrativa, pois isso acarretaria em transformar como a sociedade vê as relações humanas e as possibilidades de ação no mundo. Transformar o olhar, alimentar um ponto de vista crítico sobre a estrutura seria construir um olhar crítico para o que sustenta o próprio interlocutor no poder.

Quando batalhamos por mais personagens e artistas trans, negres, indígenas, PCDs nas narrativas hegemônicas é porque exigimos sermos representades nesta imagem de sociedade. Não habitarmos as narrativas hegemônicas significa não existirmos para o senso comum, e é isso que faz com que pessoas pretas e indígenas continuem sendo violentadas e nós, pessoas trans, vistas como algo distante, quase inexistente, e quando presentes, lidas como marginais, violentas, vulgares ou caricatas.

A questão é que não podemos parar nossa discussão na ideia de representatividade, ela é só o início de uma mudança estrutural. É preciso rever quem conta as histórias e como. Quem conta é que detêm o poder da verdade, mesmo que essa seja composta por uma narrativa mentirosa. A ficção nos possibilita imaginar, criar mundos possíveis para além da realidade que vivemos. Então nos resta a constante reflexão: que mundos estou vendo serem possibilitados? Quais ficções estou consumindo e quais delas realmente me cabem na boca para seguir reproduzindo?

Quando vemos Bolsonaro envergonhando o Brasil na ONU essa semana, por exemplo, sabemos que seu discurso está recheado de mentiras vazias, descaradas, e parece impossível acreditar no que ele está dizendo. De fato, creio que poucos naquela reunião acreditaram nele, pois conhecem os dados da realidade que estamos vivendo aqui no Brasil nesse governo, porém, foi e é na repetição dessas mentiras que ele, atualmente detentor da oratória e do cargo máximo no poder executivo, possibilitou e mantém seu plano em andamento.

A partir do momento que esse sujeito se elegeu calcado em construções ficcionais mentirosas ele ganhou - ao menos de seu público/amante - o aval da construção narrativa pelo seu ponto de vista. Quanto mais ele repete suas mentiras e permanece ainda assim no poder, menos incômodo elas passam a causar com o tempo. Não que tudo pareça estar bem - pelo contrário, o absurdo do que estamos presenciando é assustador - mas dois anos e oito meses de mentiras sustentadas por sua rede brasileira e internacional de produção de ficções geram a mesma sensação de apatia e inércia que as novelas e o cinema mainstream hollywoodiano conseguem produzir em nós.

Passamos a saber dos problemas indefensáveis da narrativa, das violências estruturais que esse enredo provoca e sustenta e da necessidade de mudança, porém assistir aos capítulos, mesmo que para odiá-los e criticá-los, vai se tornando pouco a pouco quase que mais instigante do que mudar de canal. O ódio - esse tão vinculado à construção do amor romântico - nos vicia. Ele movimenta nossa energia de tal forma que, se não tomarmos cuidado, passamos a nos mover pelos seus impulsos, desorganizados e nocivos também para nós mesmes.

No final, tudo aparenta se manter nos conformes. O caos tal como conhecemos, a violência, a fome, a miséria. E nesse jogo de construção de narrativas vamos engolindo uma enxurrada de informações nocivas que tentam nos desorganizar em nosso contra-movimento. É preciso que organizemos muito bem nossas ficções coletivamente. Precisamos compreender cada vez mais quais personagens nos interessam, quais histórias... Quais visões de mundo queremos perpetuar e repetir de várias formas até que se tornem mais críveis, vislumbráveis e palpáveis do que o jogo da mentira engolida a seco.

Que precisamos mudar quem constrói os roteiros dessa história nós já entendemos, mas precisamos estar atentes à quais histórias vamos contar quando isso acontecer. Quais serão essas que explanarão sobre o presente e o futuro de forma a nos fazer acreditar que o que vivemos não é mais uma distopia sem saída, mas apenas uma matrix muito bem programada para nos calar a boca? Como vamos, então, criar brechas para evidenciar não apenas os fatos, mas a forma com que os fatos vêm sendo construídos e tomados como possibilidades de real?

Combater a alienação é uma disputa a ser traçada também no âmbito subjetivo e poético. É questão de linguagem, mais do que apenas de conteúdo. De nada adianta termos pessoas que nos representem enquanto grupos minorizados detendo o poder de contar as histórias se essas estiverem operando na mesma lógica de construção narrativa que já estamos cansades de ver e ouvir. O Brasil carece de uma revolta ética, mas também estética. A palavra estética vem do termo grego aisthetiké, que significa aquele que nota, aquele que percebe, aquele que possui percepção sobre algo. É urgente notarmos, denotarmos e conotarmos a partir de outras lógicas, outras utopias, outras visões de mundo, que nos incluam enquanto fazedores e fazedoras da realidade. Nossa poesia precisa do pajubá. Nossos roteiros, das griôs, educadoras dos nossos imaginários. E talvez assim, com as armas que os podres poderes não detêm, conseguiremos construir nossas ficções de forma mais honesta e com valores que nos tornem mais potentes que a mediocridade da hipocrisia e do lucro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL