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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rainhas radicais continuam sendo rainhas

iStock
Imagem: iStock
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

15/09/2021 06h00

Queria conhecer o silêncio.
A sabedoria, fui aprendendo com o tempo, se dá na escuta
mas para as que crescem silenciadas é preciso antes o grito
Depois a janta
E por fim a própria humanidade.
Não queria falar sobre as línguas que insistem em lamber o próprio umbigo.
Ouvi por aí que estamos sendo tiradas de loucas
Que como um rolo compressor histórico e equivocado viemos a esmagar a cabeça das rainhas
Mas elas, curiosamente, não viram que estão vestidas de rei.
Quem pode culpar a resposta se elas nos matam como eles mataram?
Como iremos diferenciar vozes tão consonantes?

Sempre tive medo dos coros. Quando pequena ia à igreja forçadamente e vivia incomodada
Não pela música ou pelo ato de cantar
- isso sempre me entusiasmou -
Mas pela completa consonância louvando histórias de guerra. Pensava:
Como podem se unir em tamanho grau sem perceber as palavras?
Ou será que são exatamente elas que unem toda essa massa?
Queria cantar estranha, gritar, ser ruído
Queria destoar só pelo prazer da dúvida
E de ouvir meu próprio desafino.
Fui desafiando.
Fomos.
Agora já somos bem mais polifônicas que o órgão matrimonial
Mas foi só iniciarmos o grito para que as rainhas
- vestidas de rei -
Se sentissem incomodadas.
Eram elas, no passado, as polifônicas
Duvidantes
Pelo menos é essa a história que contam
Mas todas de pele tão alva
preocupadas com as notas dissonantes mais do que o próprio gutural.
Não pisavam nunca no vilarejo
Não levantaram nem mesmo do trono
E foram criando seus coros apenas com desarmônicos
Pensando que assim seriam mais elegantes que nós.
Desconfie!
Mas por que falar de tempos arcaicos?
Por quê, se já temos caos o suficiente para lidar?
Por que as rainhas continuam em guerra!
O coro, agora dissonante, se presta a orquestrar canções de ódio
bastante organizado
Mas esse não para a revolta,
Para a destituição da monarquia,
E sim para a manutenção da igreja contemporânea
Da monarquia
Plus
Hightech
Onde as rainhas brancas cortaram a cabeça dos homens, mas vestiram suas roupas quentes.
Vou parecer contraditória
Mas como não tenho compromisso com a certeza, reflito:
Sempre gostei das rainhas, quis ser uma delas
Penteava o cabelo das bonecas quando pequena imaginando meu reinado
Mas não percebia que elas talvez jamais iriam me receber em sua corte
E eu, dita inferior pelas monarcas
Seria fritada:
Sintética
Fálica
Patética
Protótipo
Plástica
Pirotécnica
Puta
Inimiga da ordem biológica - aquela divina construída pelo Senhor.
E eu
E minhas irmãs
Pintadas como violentas, tendo as cabeças degoladas por comer demais quando estávamos com fome
fomos comidas
Engolidas e cuspidas
Para que as rainhas dissonantes
Sentadas em seus tronos
Se sentissem mais ruidosas que nós
e em coro
organizado
ainda com os mesmos louvores de guerra
Pudessem continuar se dizendo contraventoras
Já que o único inimigo proclamado permaneceria sendo a figura do rei
Talvez porque sofrendo de dentro do palácio seja difícil se perceber semelhante ao algoz
E reconhecer que os gritos que vêm da rua clamam, na verdade, por comida
E pelo fim da monarquia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL