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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pelo menos agradeço por não engolir melodrama

A família de comercial de margarina - Getty Images/iStockphoto
A família de comercial de margarina Imagem: Getty Images/iStockphoto
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

18/08/2021 06h00

De fato não entendo
Tanto mimimi
Tanto chororô
Sendo que a constituição diz
Que iguais somos todos
Independente de gênero, raça ou o que for

Não entendo porque reclamam
Se eu ando pelas ruas sem medo
Se trabalho com aquilo que amo
Se alcanço aquilo que almejo.
Hoje faço e tenho
Por resultado do meu seco suor
Por resposta aos anos de estudo
E do merecimento conquistado

Acho inusitado, moderno
Esses papos de diferença
De cota
De preferencia
Sendo que nunca precisei.
Se pensam que tive vantagem
Que foi fácil impor respeito
É porque não sabem de como era
Lá em casa
Toda a cobrança

Tem muita gente falando
Mas pouca gente fazendo
Agindo pra conseguir aquilo
Aqueles
Milhões que tanto almeja
E de quebra sinto a inveja
Dos meus que estão rendendo
Dos carros que estão vendendo
Ou que nem puderam comprar

Se a carne hoje está cara,
Olha só que maravilha,
Virem vegetarianos
Pensem nos animais,
Mas que não ajam como um que nem mesmo conseguiram matar.
Se a gasolina é inviável, olha só que maravilha
O transporte publico que pode resolver a situação.
Agora, não me venha com papo de atraso
De cansaço ou desnutrição
Pra encobrir seu descaso
Sua falta de atenção
Faça juz ao seu salário
Trabalhe
Trabalhe
Trabalhe
E um dia quem sabe poderá sentar aqui ao meu lado.

Se não, vá pelo caminho mais fácil
Vender droga
Dar o rabo
Tanta gente vai por aí...
Mas se cair na cadeia
Olha lá, o chororô de novo
Não venha dizer que a culpa
Foi minha mais uma vez
Não diga que eu sou, de novo, responsável por vocês

Queria eu que o dinheiro caísse do céu por descuido
Pra pagar plano de saúde, academia
A escola dos meus filhos
Meus funcionários que insistem
Em de novo pedir aumento.
Sabe quanto custa essas regalias trabalhistas?
Sabe quanto custa pra manter uma empresa?
Se soubesse não estaria me pedindo sempre mais.
Não quer? É o que tem
Tem a porta da rua também
Do jeito que tá o pais não falta gente pra trocar
Vagabundo que não aproveita uma chance de trabalhar.

Agradeça por estar vivo
Tenha positividade
Trabalhe
Trabalhe
Trabalhe
Que um dia o retorno virá

Quem disse essas palavras?
Minhas próprias que não são
Organizei-as em rima simples
Fiz "poesia" com fala alheia
Selecionei merda no meio da asneira que vivo ouvindo por aí.
Asneira de gente herdeira
De filhote branco de mansão
De parente de milico
Gente cis, homem de bem
Até mesmo de mulher, mas dessas mesmas mansioneiras
Gente da alta
Tão alta
Inescrupulosidade
Gente que subiu na vida,
Que nunca pisou mesmo no chão
Subiu
Ganhou
Já tinha
Que sua seco pra não feder
Gente que limpa a bunda com lencinho de bebê.
Gente que come picanha
Mignon no almoço e alcatra
Gente que harmoniza o vinho com a arrogância que não falta.

Minhas palavras as vezes não saem tão fácil da minha cabeça
Falta criatividade por ter mais o que fazer.
No seco do dia a dia
Não do suor, mas do bolso
Da ausência de ar fresco e calma
Falta tanta poesia
Que precisa de frase de rico pra poder gourmetizar.

Tem corre que não da tempo
De elaborar a catástrofe
Tem fita que não deixa a gente lembrar de respirar
Mas no fim disso tudo
- e ainda não é o fim disso tudo -
A família tá mais grande
A comida virou ceia
Pra passar mais um dia com as irmã
Pra saudar mais um amanhã
Pra seguir rindo da falta de noção dos patriarca
Que enquanto veste camisa
A gente fica pelada
Sem se vestir de mentira
E se não dá pra fazer poesia
Nóis só sente a lua na pele
O sol na lata
E de uma boca aberta
Um sorrisão amostrado, rindo forte da desgraça
Da uma força a mais pra seguir disposta
De vestir a armadura
E sair pra labutar.

Tento não ser derrotista
Pessimista
Tragicômica
Mas a realidade não deixa eu desviar.
Pelo menos agradeço por não engolir melodrama
Meritocracia, romance
Porque esses realmentchy
Não cabem do lado de cá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL